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Quadros de um divórcio romance Capítulo 121

“Chega um momento em que o passado fala… e a gente percebe que não deve mais respostas.”

Santiago logo se enturmou, participando da conversa com a mesma naturalidade e energia que Helena irradiava. Não demorou para que todos percebessem o quanto aqueles dois combinavam — como se um completasse as pausas do outro, como se falassem a mesma língua mesmo quando estavam em silêncio. Era impossível não admirar… e, para alguns, não sentir uma pontinha discreta de inveja daquilo que compartilhavam.

E havia ainda o detalhe que não passava despercebido: um dos maiores galeristas do país não apenas aparecera ali carregando sacolas de comida, como também se sentara à mesa, rindo, ouvindo ideias, comendo ao lado deles. Aquilo não era só gentileza — era um privilégio. E todos sabiam.

Quando terminou de comer, Santiago tocou de leve a perna de Helena sob a mesa, chamando sua atenção.

— Preciso voltar. — disse baixo. — Vim mesmo só para ver como você estava… e alimentar o seu monstrinho interior — sorriu. — Mas a galeria está me esperando.

Ela sorriu de volta, assentindo com gratidão.

Ele se despediu de todos com simpatia, e Helena o acompanhou até o elevador. Assim que ficaram fora do alcance dos olhares curiosos, ela o envolveu pela cintura, apoiando a testa em seu peito.

— Obrigada por ser esse namorado incrível… que mesmo tão ocupado sempre encontra um tempo pra mim.

— Só de te ver assim, tão feliz… — ele murmurou, inclinando-se para beijá-la com suavidade — já valeu a pena. — Sorriu. — Te vejo à noite.

Helena permaneceu ali, observando as portas de metal se fecharem lentamente, levando-o embora. Só então respirou fundo, recompôs-se e se preparava para voltar ao grupo quando o celular vibrou em sua mão.

Lívia.

— Oi!

— Oi, diretora criativa! — a voz da amiga veio animada. — Como está tudo por aí?

— Melhor do que eu poderia sequer imaginar. — respondeu, com uma felicidade honesta que nem tentou disfarçar.

— Ahh… fico tão feliz por você! — Lívia vibrou do outro lado da linha. Mas, poucos segundos depois, o tom mudou. — Helena…

Ela já sabia.

— O que foi?

— Recebemos a intimação. A audiência foi marcada para amanhã a tarde, na Vara da Família.

Helena fechou os olhos por um instante, respirando fundo. Não de medo — mas de cansaço.

— Já esperávamos por isso, não é?

— Você parece… tranquila — observou Lívia, surpresa.

— Quanto antes resolvermos isso, melhor. — Helena respondeu com firmeza serena. — Uma coisa a menos para carregar.

— Você tem razão — a amiga concordou, mais calma.

Houve uma breve pausa.

— Tem cliente até mais tarde hoje? — Helena perguntou.

— Não. Hoje vou cumprir só o horário comercial. — Lívia sorriu pela voz. — Estava pensando em ir à sua casa pra comemorarmos seu primeiro dia.

— Você está sempre procurando um motivo pra beber, né?

— Claro que sim! — Lívia riu. — Mas… por quê? Tem outros planos?

Helena hesitou, um pouco sem graça.

— Na verdade… tenho. Eu praticamente não tenho mais roupas sociais. Doei quase tudo que tinha antes e agora...

— Você está me chamando pra ir às compras? — Lívia explodiu do outro lado da linha. — Isso é ainda melhor! Pode deixar. Hoje mesmo vamos montar um guarda-roupa inteiro para a Helena diretora!

Helena riu, contagiada pela empolgação da amiga.

— Você não existe. — Balançou a cabeça. — Nos vemos mais tarde então.

Helena encerrou a ligação ainda sorrindo e voltou para junto da equipe.

A tarde transcorreu tranquila. Era impressionante como tudo parecia mais leve agora. Ter uma equipe — e uma equipe tão talentosa — mudava completamente o jogo. A diferença entre carregar sozinha cada pesquisa, cada estudo, cada decisão, e dividir o processo com pessoas que somavam de verdade era quase física. O trabalho fluía, sem atropelos, sem sobrecarregar ninguém.

No meio da tarde, foi chamada ao setor de marketing para alinhar os detalhes das campanhas. Até então, Helena não havia dado tanta atenção ao comentário de Orsini sobre usar sua imagem. Mas a conversa com os responsáveis tornou tudo real demais. Não era apenas uma foto, nem apenas seu nome nos créditos. Era exposição. Era enfrentamento.

Um frio fino percorreu-lhe o estômago. Ela respirou fundo. Estava pronta — mesmo que a ideia ainda a deixasse levemente envergonhada.

Quando o relógio marcou o fim do expediente, Helena já estava de volta ao seu setor. Os colegas se despediam com cordialidade, e ela retribuiu cada gesto com a mesma gentileza.

Lívia já a aguardava na entrada da empresa, lançando um olhar faminto — e nada discreto — para Pedro, impecável de terno.

— Te fiz esperar muito? — Helena perguntou.

— Que nada… — Lívia respondeu, gaguejando um pouco. — Acabei de chegar.

Helena já havia avisado Santiago de seus planos, e ele respondera que aproveitaria para trabalhar mais um pouco.

Pedro abriu a porta traseira do Audi com um gesto impecavelmente cavalheiro.

— Senhoritas.

Seguiram rumo ao shopping Iguatemi, guiados pelas instruções animadas da advogada. Lívia falava tanto, com a voz quase estridente de empolgação, que arrancava risadas até de Pedro.

No caminho, Helena contou o dia inteiro à amiga — empolgada, lembrando o nome de cada pessoa da equipe, elogiando talentos, descrevendo o ambiente acolhedor da empresa. Falava com brilho nos olhos.

Pedro estacionou e observou o entorno antes de deixá-las sair, mantendo-se próximo durante todo o percurso.

O segurança já chamava atenção naturalmente. De terno, com aquela postura firme e indiferente, parecia um torrão de açúcar cercado por abelhas. Helena seguia serena, mas Lívia fulminava com o olhar cada mulher que ousava olhar para seu bombonzinho com interesse. Em uma dessas vezes, Pedro a flagrou — seus olhos se encontraram, o que fez Lívia corar e disfarçar, arrancando dele um meio sorriso. A verdade era simples: os três juntos chamavam atenção. Um colírio completo.

A primeira parada foi na H&M. Pedro permaneceu à entrada.

— Se precisar de mim, me chama.

Helena assentiu agradecida.

O olhar dela percorreu a loja. Havia peças casuais acessíveis, mas as opções mais formais ultrapassavam facilmente três, quatro dígitos. Não que faltasse dinheiro — especialmente depois do pagamento da Prisma — mas ela nunca fora de esbanjar.

Lívia percebeu o conflito silencioso.

— Para de olhar os preços. Permita-se. Se tem alguém que merece, é você.

Helena lembrou das críticas veladas da ex-sogra, da ex-cunhada, dos amigos de Cássio que a chamavam de fútil — ironicamente, quando ela nunca se permitira luxos. Lívia tinha razão. Talvez fosse hora de mudar isso também.

Escolheu peças coringa: camisas de linho, musseline, cetim, uma blusa de renda preta que a encantou. Calças de alfaiataria, pregas bem marcadas, cortes retos. Inspirada pelas mulheres da Orsini, levou também wide legs e sarjas elegantes, que com saltos perderiam o ar casual. Alguns blazers, vestidos — um com padrões geométricos fluidos, algumas chemises.

Lívia ajudava como se montasse o próprio guarda-roupa.

Helena era objetiva. Logo havia uma pilha generosa de roupas. Entregou tudo ao caixa sem culpa e passou o cartão sem olhar o valor.

Ao sair carregada de sacolas, Pedro estendeu o braço para ajudar, mas Helena preferiu deixá-las no guarda-volumes antes de seguir para outras lojas.

A próxima parada foi na Le Lis. Lívia era cliente conhecida ali, cumprimentada pelo nome. Os preços eram ainda mais altos, mas Helena se concentrou apenas nos tamanhos das etiquetas.

Escolheu um vestido em degradê — do marrom no colo ao creme nos pés —, um preto em couro, outros modelos mais formais e lisos, blusas elegantes, saias e duas bolsas em tons neutros. A pilha já rivalizava com a da loja anterior quando uma voz conhecida — e absolutamente indesejada — soou às suas costas:

Capítulo 121 - Quando o traço se sustenta 1

Capítulo 121 - Quando o traço se sustenta 2

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