"Deixar o passado para trás não é esquecer — é escolher não viver mais lá. Daqui pra frente, eu escolho caminhar com o que me fortalece." Edna de Andrade.
Antes de voltarem para casa, Santiago sugeriu que comessem alguma coisa. A frase nem chegou ao fim e Helena já se animou como se tivesse sido chamada para uma festa.
— Pizza, por favor — ela pediu num choramingo. — Eu sobrevivi a um dia inteiro sendo adulta responsável, eu mereço.
— Argumento irrefutável — ele riu, concordando enquanto bagunçava o cabelo dela, que já tinha perdido completamente o coque após experimentar algumas das peças.
Santiago assumiu o volante, enquanto Pedro seguiu no outro carro em que ele havia chegado. Lívia, rápida como um raio, abriu a porta do banco do passageiro do segurança e se jogou para dentro. Pedro ergueu uma sobrancelha questionador.
— O que foi? — ela se defendeu de imediato. — Eu só não quero ser a vela do casal meloso.
— Sei… — ele respondeu seco. — Contanto que você não fale o trajeto inteiro.
— Impossível — Lívia decretou, sorrindo satisfeita. — Isso viola meus direitos humanos.
Santiago escolheu uma pizzaria próxima. Ao estacionar, desceu do carro, contornou-o com calma e abriu a porta para Helena.
Ela sorriu, erguendo o olhar para ele.
— Você é perfeito até demais, sabia?
Ele riu, estendendo a mão para ajudá-la a sair.
Pedro estacionou logo atrás, alinhando o carro ao lado do de Santiago. Desceu e, ao contornar o veículo, estranhou imediatamente a ausência de Lívia ao seu lado. Ela permanecia sentada, braços cruzados, encarando-o com um misto de aborrecimento e expectativa.
Ele lançou um olhar confuso, erguendo as mãos num gesto mudo de “o que foi agora?”.
Lívia respondeu apenas inclinando a cabeça, seca, apontando com o queixo para a porta — uma ordem silenciosa.
Pedro bufou, audivelmente, mas acabou cedendo. Deu a volta, parou ao lado do passageiro e abriu a porta para ela.
— Morreu? — ela saiu provocando. — Caiu sua mão?
Ele fechou os olhos por um segundo e pressionou o ponto entre as sobrancelhas, como quem tentava conter uma dor de cabeça.
— Entra logo, Lívia.
Ela sorriu satisfeita, como quem acaba de ganhar uma batalha absolutamente necessária.
Entraram na pizzaria ainda trocando risadas contidas. O lugar era simples, acolhedor, com mesas de madeira e o cheiro reconfortante de massa assando no forno, preenchendo o ambiente.
Sentaram-se lado a lado, e não demorou para que um garçom se aproximasse, deixando os cardápios sobre a mesa.
Cada um fez seu pedido e, assim que o garçom se afastou, a conversa inevitavelmente caiu sobre a escolha duvidosa de Pedro, que — para indignação geral — havia pedido pizza havaiana.
— Quem, em sã consciência, come pizza com abacaxi? — recriminou Lívia, semicerrando os olhos.
Enquanto a discussão sobre abacaxi ainda rendia provocações e risadas, o tempo parecia desacelerar naquele pequeno refúgio. Mas, como quase sempre acontecia, a leveza daquele instante logo perderia espaço — porque nem toda noite seguia o roteiro simples de uma pizza compartilhada.
...
Após sair do Grupo Ferreira, Cássio seguiu direto para o Studio Cassiani. Com os protótipos quase finalizados, a equipe precisaria se dedicar intensamente à divulgação, já que ele havia decidido abrir mão de uma festa de lançamento. Em vez disso, montaria apenas um showroom na entrada da empresa, pensado para apresentar as peças diretamente aos clientes.
Como Silvia era a responsável pelo setor de marketing, Cássio passou praticamente o restante do dia trabalhando ao lado dela e de sua equipe — algo que a deixou visivelmente satisfeita. Almoçaram ali mesmo e usaram a tarde para definir escopos: revistas, mídias sociais, outdoors, estratégias de impacto. Quando deram por encerrada a última reunião, a noite já havia tomado conta.
O apetite de Cássio parecia voltar aos poucos. Sem grandes pretensões, perguntou:
— Quer comer alguma coisa em algum lugar?
Silvia se iluminou com a pergunta e entrou no carro ao lado dele.
— Aonde vamos? — quis saber.
Cássio lembrou-se, então, de como Helena amava pizza. Nunca havia compreendido muito bem a paixão dela pela comida italiana, mas a lembrança da empolgação com que ela mordia uma fatia despertou nele um desejo inesperado e específico.
— Que tal pizza? — sugeriu.
Silvia conteve o impulso imediato de torcer o nariz. Pizza? Estava acostumada a ser levada por ele a restaurantes caros, de pratos elaborados e apresentações sofisticadas.
— Parece ótimo — respondeu, forçando um sorriso.
Ele deu a partida, e minutos depois estacionava em frente a uma pizzaria simples demais para os padrões dela. Cássio saiu do carro animado, e aquela expressão fez Silvia acreditar que algo estava mudando — talvez ele estivesse finalmente se abrindo para ela outra vez. O que ela não sabia era que, mesmo naquele gesto banal, era Helena quem ainda guiava as escolhas dele.
Entraram juntos, e Silvia não perdeu a chance de se apoiar em seu braço.
Mal haviam dado alguns passos no interior do estabelecimento quando Cássio estacou.
Helena estava sentada a uma das mesas. O olhar de Cássio demorou-se em detalhes mínimos, quase involuntários: a maneira como ela se inclinava levemente ao ouvir alguém falar, a atenção plena que oferecia, o sorriso sincero. Havia ali uma segurança silenciosa, uma presença que não precisava se anunciar para ser percebida. Parecia a mesma mulher feliz e contagiante que ele conhecera mais de cinco anos antes.
— O que foi? — perguntou Silvia, ainda sem notar.
Cássio não respondeu. Seu braço havia enrijecido sob o toque dela, o corpo inteiro em alerta, como se algo antigo tivesse sido acordado à força.
Silvia seguiu o olhar dele e entendeu.
O cólera veio rápido. Como aquela mulher conseguia ocupar tanto espaço com tão pouco esforço?
Silvia havia feito de tudo, tudo... e mesmo assim ainda não havia conquistado o afeto de Cássio.
Ao longo dos últimos anos, já fora obrigada a realizar inúmeros trabalhos para Dante. Seduzir homens sempre lhe parecera simples. Bastava oferecer aquilo que eles mais ansiavam: atenção calculada, afagos no ego, uma submissão bem dosada e uma cama quente. Nenhuma esposa, noiva ou namorada jamais havia sido obstáculo real para seus feitiços. No fim, era sempre ela a escolhida.
Mas quando o trabalho terminava e ela se afastava sem remorso de suas conquistas — de suas vítimas — nenhuma delas jamais demonstrara a devoção crua, quase exposta, que Cássio escancarava sentir por aquela mulher.
E isso a incomodava mais do que estava disposta a admitir.
Helena tinha tudo o que Silvia desejava ser. Não em bens, nem em status, mas em essência. Conseguir se infiltrar tão profundamente em alguém que por mais que se cavasse ainda existiria raízes. Essa devoção nunca fora dirigida a ela.
Silvia percebeu isso com uma clareza quase cruel. Não importava o quanto tivesse sido desejada, escolhida, disputada. Nada daquilo se parecia com o que via agora.
O que havia no olhar de Cássio quando se detinha em Helena não era posse, nem excitação, nem vaidade ferida. Era entrega. Era reconhecimento. Era algo que não se fabricava, não se manipulava, não se arrancava à força.
Helena não precisara oferecer nada. Não se moldava mais, nem mais se diminuía, e ainda assim era amada.
Silvia entendeu que era exatamente isso que jamais conseguira ser. Não a escolhida por conveniência, nem por carência, nem por feitiço. Mas a mulher por quem alguém permanecia, mesmo quando tudo já tinha acabado.
O que a consumia não era ciúme. Era a consciência amarga de que Helena possuía aquilo que nenhum dos seus artifícios podia alcançar: um lugar definitivo dentro de alguém.
Antes que Silvia pudesse insistir, Cássio a conduziu até uma mesa duas fileiras atrás da de Helena e tomou um assento estrategicamente escolhido — de onde podia continuar a observá-la sem esforço, sem disfarces.
Silvia sentiu o incômodo se instalar antes mesmo de conseguir se acomodar na cadeira. O estômago revirou, um aperto seco, como se tivesse sido engolido algo ácido. A postura de Cássio, inclinada demais na direção da mesa à frente, tornava impossível fingir normalidade.
Ela tentou ajustar o corpo, cruzou as pernas, descruzou. Nada ajudava. Cada risada vinda da mesa de Helena soava alta demais, cada movimento dela — um golpe pequeno, repetido, preciso.
Silvia engoliu em seco, sentindo a garganta arder. O maxilar se contraiu, os dentes pressionados com força suficiente para doer. As mãos, pousadas no colo, tremiam levemente, e ela as fechou em punhos, as unhas marcando a pele por baixo da mesa.
A náusea subia sempre que percebia o olhar de Cássio preso à frente, distante dela. Desviou o rosto, buscando qualquer ponto neutro para fixar os olhos. Mas não havia refúgio. Estava presa àquele espetáculo que não escolhera assistir — e que ainda assim era obrigada a engolir.
...
As pizzas chegaram fumegantes, simples, perfeitas. Helena mordeu a primeira fatia de marguerita como se tivesse conquistado um troféu. Fechou os olhos por um segundo e gemeu baixo, sem qualquer pudor, completamente entregue ao próprio prazer.
Lívia a observava com curiosidade.
— Não me lembro do seu apetite ser tão voraz assim, amiga.
— Você não sabe de nada — Pedro interferiu de imediato. — Ela sempre comeu desse jeito.
Lívia arqueou a sobrancelha, meio contrariada.
— Então quer dizer que você a conhece melhor do que eu?
— Parem de brigar vocês dois — Helena interrompeu, sorrindo, já levando outra mordida generosa à boca. — Antes eu tinha coisas que me tiravam o apetite. Agora não tenho mais.
— Deixa a minha mulher comer — Santiago disse, entrando na conversa com naturalidade.
— Mulher, é? — Helena provocou. — Pelo que me lembro, eu só recebi um pedido de namoro.
— Isso é só uma questão de tempo — respondeu ele, sorrindo antes de roubar-lhe um selinho rápido, mesmo com ela ainda mastigando.
A conversa seguiu leve, fluida, pontuada por risadas, provocações e uma intimidade confortável.
Quando todos já estavam satisfeitos, aguardaram a pizza extra que Helena havia pedido para levar para Marcelo. Assim que a caixa chegou, levantaram-se para ir embora — e, inevitavelmente, precisaram passar perto da mesa de Cássio.
Helena caminhava altiva, quase esquecida de sua presença, até que a voz dele a alcançou como um golpe mal calculado:
— Seu showzinho acaba amanhã. Aproveite enquanto dura.
Ela parou.
Virou-se devagar e, só então, olhou para ele.
O que viu foi um homem rígido demais para parecer confiante. O maxilar travado, os olhos tensos, carregados de ressentimento e algo próximo do desespero — como quem fala não para ferir, mas para tentar recuperar um controle que já perdeu. Havia ali amargura, orgulho ferido… e medo.
Nada escapou ao olhar de Helena. Ela o conhecia melhor que ninguém.
Soltou apenas um bufo curto, meio riso, meio deboche. Não respondeu. Não precisou.
Virou-se novamente, sentindo a mão firme de Santiago amparando-lhe a lombar, e seguiu adiante sem olhar para trás — exatamente como Cássio fizera tantas vezes com ela.

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