“Nem todo silêncio é rendição; às vezes, é apenas a cor sendo preparada.”
Silvia desviava o olhar, depois voltava. Sentia-se diminuída, deslocada.
Cássio observava tudo sem conseguir evitar. Cada gesto de Helena parecia confirmar algo que ele relutava em aceitar: ela estava bem. Inteira. Viva.
O que mais o corroía não era vê-la feliz — era perceber que aquela felicidade não precisava mais dele para existir. Ela ria sem olhar em sua direção, comia com prazer, tocava e era tocada com uma intimidade tranquila. Santiago, ao seu lado, a observava com pertencimento.
Mas, no fundo, uma ideia doentia insistia: “Ela era dele. Como Santiago ousava?”
Cássio sentiu o maxilar endurecer, os dedos se fecharem involuntariamente sobre a mesa. O orgulho tentou reagir, mas foi abafado por um incômodo surdo e persistente, que crescia a cada gargalhada vinda da mesa à frente.
Quando Helena se levantou e passou por ele, não conseguiu mais se conter. As palavras escaparam antes mesmo que ele pudesse pensar. E a única coisa que recebeu em resposta foi um olhar vazio, desprovido de qualquer sentimento — como se ele já não valesse nada. Nem uma reação, nem sua atenção, nem seu tempo.
Ela simplesmente foi embora, sem dizer uma única palavra.
Cássio baixou os olhos para a pizza intacta à sua frente. A lembrança, antes convidativa, agora lhe embrulhava o estômago. Sem dizer nada, tirou a carteira do bolso, puxou algumas notas altas e as lançou sobre a mesa — o gesto brusco demais para ser casual.
— Vamos embora — disse, seco. — Eu perdi a fome.
Levantou-se sem esperar resposta.
Silvia o acompanhou em silêncio, carregando consigo toda a amargura acumulada naquela noite.
Cássio saiu como um furacão. O rosto tão vermelho que parecia prestes a explodir a qualquer momento. Entrou no carro e bateu a porta com força suficiente para fazer o veículo estremecer. Atirou-se no banco do motorista e deu a partida, arrancando com o carro em um canto de pneus que rasgou o silêncio da rua.
As mãos apertavam o volante com força excessiva, os nós dos dedos esbranquiçados. O olhar seguia fixo à frente, vibrando, perdido em pensamentos que se atropelavam sem ordem. Ao lado dele, Silvia permanecia em silêncio — distraída demais tentando arquitetar algo que pudesse dizer, alguma frase que quebrasse aquele clima e, quem sabe, transformasse o ocorrido em uma oportunidade a seu favor.
Foi só alguns minutos depois que percebeu. O caminho não levava para casa.
O reconhecimento veio como um soco lento. A confirmação, inevitável, quando Cássio reduziu a velocidade e parou em frente ao prédio do apartamento que ele havia comprado para ela — e onde ela morara antes.
O silêncio se adensou à medida que o motor esfriava.
— A partir de hoje, você volta para cá — disse ele, sem olhá-la. — As coisas do bebê já estão encaixotadas no quarto de hóspedes.
Foi ali que os olhos de Silvia se encheram de verdade. A humilhação no restaurante já havia sido demais. Mas aquilo… aquilo era ser descartada. Empurrada para fora da vida dele como um erro inconveniente. E tudo por causa de Helena.
Por que ele não podia olhá-la com a mesma devoção? Por que não podia ser ela a destinatária daquela atenção absoluta, daquele amor?
O que Helena tinha que ela não tinha?
Depois de tudo o que passara, de tudo o que enfrentara para chegar até ali, por que o mundo parecia sempre lhe negar exatamente o que mais desejava?
A frustração transbordou.
— Por quê? — a voz saiu trêmula, quebrada. — Por que não podemos criar nosso filho juntos? Por que não podemos ser uma família?
Cássio finalmente virou o rosto para ela.
Ver Silvia chorar daquele jeito despertou nele um incômodo inesperado. Não pena — reconhecimento. A imagem se sobrepunha à memória de Helena, tantas vezes sentada diante dele, pedindo atenção, reclamando da ausência, tentando ser vista.
Silvia não percebeu a mudança no olhar dele e continuou, a voz embargada:
— Eu fiz tudo por você. Eu me entreguei. E o que aquela… aquela mulher fez? — cuspiu, sem conseguir conter o veneno. — Ela te apunhalou pelas costas. Te menosprezou. E agora já está por aí, pendurada em outro como uma vadia.
O estalo foi imediato.
— Não fale dela — disse Cássio, baixo demais para ser calmo.
Silvia se encolheu, surpresa.
— Você não tem esse direito — ele continuou, a voz endurecendo. — Nunca teve.
As palavras pairaram entre eles como uma sentença.
Silvia sentiu o chão ceder sob os pés. Não porque ele a estivesse mandando embora. Mas porque, naquele instante, compreendeu algo pior: mesmo agora, mesmo ali, era Helena quem ele ainda defendia.
E sempre seria.
O apartamento estava exatamente como ela havia deixado.
Silvia fechou a porta atrás de si sem fazer barulho, como se aquele cuidado pudesse evitar que a realidade a alcançasse. Caminhou alguns passos, largou a bolsa sobre o aparador e foi até o quarto de hóspedes.
As caixas estavam empilhadas como Cássio havia dito. Etiquetadas. Práticas. Frias. Até o futuro do bebê havia sido reduzido a papelão e fita adesiva.
Ela sentou-se no sofá devagar, sentindo o corpo finalmente ceder. As lágrimas vieram em silêncio, escorrendo sem soluços, sem drama. Não havia mais energia para isso. Apenas um cansaço profundo… e algo mais escuro se formando por baixo.
Silvia enxugou o rosto com o dorso da mão e respirou fundo. Uma vez. Duas. Três.
Aquilo não podia ser o fim.
Levantou-se e foi até o quarto. Abriu uma das caixas, remexeu roupas pequenas demais, delicadas demais. Tudo aquilo era real. O bebê era real. E Helena… Helena continuava sendo um obstáculo.
O nome surgiu em sua mente sem que ela o chamasse. Helena.
Silvia fechou a caixa com força. Andou até o espelho do banheiro e se encarou. Os olhos ainda vermelhos, o rosto marcado, mas ali — por trás do desgaste — estava a mulher que sempre soubera fazer escolhas difíceis quando precisava sobreviver.
Ela não precisava que Cássio a amasse.
Se Helena tinha algo que ela jamais tivera, Silvia ainda tinha uma coisa que Helena nunca usaria: disposição para ir até o fim.
...
Na manhã seguinte, Helena e Santiago foram acordados antes mesmo do despertador por uma Mabe elétrica, latindo e pulando na cama com entusiasmo exagerado. Helena tentou se proteger, cobrindo a cabeça com o travesseiro, numa tentativa inútil de barrar o barulho.
— Mabe… não — murmurou, abafada.
Santiago abriu os olhos ainda pesados, rindo.
— O que foi, garota? — estendeu a mão para acariciar o topo da cabeça da cadela. — Tá querendo sair do quarto, é?
Ao abrir a porta e sentir o cheiro vindo da cozinha, entendeu imediatamente a empolgação da pastora. Marcelo, sem dúvida, já estava preparando o café da manhã.
— Bicha interesseira! — repreendeu Santiago.
Mas Mabe já havia passado por ele, abanando o rabo, empolgada demais para se importar.
Helena, vencida tanto pela animação da cadela quanto pelo próprio estômago, descobriu o rosto quando a barriga roncou.
— Você pode mesmo culpá-la? Olha esse cheiro!
Santiago balançou a cabeça, rendido, e se jogou na cama sobre ela, prendendo-a contra o colchão.
— Não me diga que já está com fome. Pra onde foram todos aqueles pedaços de pizza que você comeu ontem?
— Do que você está falando? Ontem foi outro dia.
Ele riu, enchendo o rosto dela de beijos. Quando a boca tentou capturar a dela, Helena o empurrou de leve.
— Ei! Eu nem escovei os dentes ainda.
— Eu não me importo — provocou ele, insistindo.
O cabeleireiro virou-se para ela, os olhos brilhando de entusiasmo.
— Mulher… você abriu uma padaria, foi? Que pãezinhos são esses? — perguntou, admirando Pedro dos pés à cabeça sem o menor pudor.
Pedro pigarreou, sem graça com o elogio escancarado, enquanto Helena ria.
— Vamos — disse ela, entrelaçando o braço ao de Diogo. — Lá dentro eu te conto.
— Vou te esperar aqui — avisou Pedro, antes que ela entrasse.
Helena assentiu agradecida e seguiu para o salão.
...
Diogo a conduziu até a cadeira, fazendo um gesto exageradamente dramático para que se sentasse.
— Agora me conta tudo — disse ele, já posicionando as mãos em seus cabelos — enquanto eu dou um jeito nesses fios maravilhosos.
Helena contou por alto, poupando os detalhes mais complicados.
— Ele está te fazendo muito bem — comentou Diogo, seguro.
— Como você sabe? — ela perguntou, curiosa.
— Dá pra ver — respondeu ele, enquanto ambos se encaravam pelo espelho. — Olha como a sua pele está iluminada. E, além disso… você parece ainda mais forte do que da última vez.
Helena sorriu. Diogo tinha razão. Santiago fora mais do que um porto seguro quando ela mais precisou — fora apoio, presença, constância.
Quando saiu do salão, depois de repetir o ritual completo da última visita, o relógio já se aproximava do horário do almoço. Despediu-se de Diogo com carinho e também de todos no salão, arrancando sorrisos sinceros pela simpatia espontânea que sempre levava consigo.
— Me desculpa por te fazer esperar tanto — disse a Pedro, já do lado de fora.
— Não se preocupe. Esse é o meu trabalho — respondeu ele com naturalidade. — E você está ainda mais linda. Para onde vamos agora?
— Que tal levarmos comida para o Santiago?
— Você quem manda. Vamos lá!
⋯
Ao saírem do elevador na Galeria Villar, Helena percebeu a diferença imediata na expressão dos funcionários. Antes, os olhares carregavam curiosidade; agora, eram abertamente simpáticos e receptivos. Caminhou tranquila pelo corredor, retribuindo os cumprimentos com um sorriso fácil.
Parou diante da sala, deu duas batidinhas leves na porta antes de empurrá-la e espiar para dentro.
— Posso entrar?
Santiago levantou os olhos do computador e abriu um sorriso largo ao vê-la ali — ainda mais bonita do que quando a deixara no salão naquela manhã.
— Claro.
Helena entrou, com Pedro logo atrás. Santiago se levantou de imediato e a envolveu em um abraço apertado, como se fizesse dias que não se viam.
— Se quiser, posso esperar lá fora — sugeriu Pedro, educado.
— Se você for lá pra fora, como vai almoçar com a gente? — perguntou Helena, erguendo a sacola com a comida.
O sorriso de Santiago se alargou ainda mais.
Após um almoço tranquilo, deixaram para trás a leveza daquele intervalo e seguiram juntos para o fórum.

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