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Quadros de um divórcio romance Capítulo 123

“Nem todo silêncio é rendição; às vezes, é apenas a cor sendo preparada.”

Silvia desviava o olhar, depois voltava. Sentia-se diminuída, deslocada.

Cássio observava tudo sem conseguir evitar. Cada gesto de Helena parecia confirmar algo que ele relutava em aceitar: ela estava bem. Inteira. Viva.

O que mais o corroía não era vê-la feliz — era perceber que aquela felicidade não precisava mais dele para existir. Ela ria sem olhar em sua direção, comia com prazer, tocava e era tocada com uma intimidade tranquila. Santiago, ao seu lado, a observava com pertencimento.

Mas, no fundo, uma ideia doentia insistia: “Ela era dele. Como Santiago ousava?”

Cássio sentiu o maxilar endurecer, os dedos se fecharem involuntariamente sobre a mesa. O orgulho tentou reagir, mas foi abafado por um incômodo surdo e persistente, que crescia a cada gargalhada vinda da mesa à frente.

Quando Helena se levantou e passou por ele, não conseguiu mais se conter. As palavras escaparam antes mesmo que ele pudesse pensar. E a única coisa que recebeu em resposta foi um olhar vazio, desprovido de qualquer sentimento — como se ele já não valesse nada. Nem uma reação, nem sua atenção, nem seu tempo.

Ela simplesmente foi embora, sem dizer uma única palavra.

Cássio baixou os olhos para a pizza intacta à sua frente. A lembrança, antes convidativa, agora lhe embrulhava o estômago. Sem dizer nada, tirou a carteira do bolso, puxou algumas notas altas e as lançou sobre a mesa — o gesto brusco demais para ser casual.

— Vamos embora — disse, seco. — Eu perdi a fome.

Levantou-se sem esperar resposta.

Silvia o acompanhou em silêncio, carregando consigo toda a amargura acumulada naquela noite.

Cássio saiu como um furacão. O rosto tão vermelho que parecia prestes a explodir a qualquer momento. Entrou no carro e bateu a porta com força suficiente para fazer o veículo estremecer. Atirou-se no banco do motorista e deu a partida, arrancando com o carro em um canto de pneus que rasgou o silêncio da rua.

As mãos apertavam o volante com força excessiva, os nós dos dedos esbranquiçados. O olhar seguia fixo à frente, vibrando, perdido em pensamentos que se atropelavam sem ordem. Ao lado dele, Silvia permanecia em silêncio — distraída demais tentando arquitetar algo que pudesse dizer, alguma frase que quebrasse aquele clima e, quem sabe, transformasse o ocorrido em uma oportunidade a seu favor.

Foi só alguns minutos depois que percebeu. O caminho não levava para casa.

O reconhecimento veio como um soco lento. A confirmação, inevitável, quando Cássio reduziu a velocidade e parou em frente ao prédio do apartamento que ele havia comprado para ela — e onde ela morara antes.

O silêncio se adensou à medida que o motor esfriava.

— A partir de hoje, você volta para cá — disse ele, sem olhá-la. — As coisas do bebê já estão encaixotadas no quarto de hóspedes.

Foi ali que os olhos de Silvia se encheram de verdade. A humilhação no restaurante já havia sido demais. Mas aquilo… aquilo era ser descartada. Empurrada para fora da vida dele como um erro inconveniente. E tudo por causa de Helena.

Por que ele não podia olhá-la com a mesma devoção? Por que não podia ser ela a destinatária daquela atenção absoluta, daquele amor?

O que Helena tinha que ela não tinha?

Depois de tudo o que passara, de tudo o que enfrentara para chegar até ali, por que o mundo parecia sempre lhe negar exatamente o que mais desejava?

A frustração transbordou.

— Por quê? — a voz saiu trêmula, quebrada. — Por que não podemos criar nosso filho juntos? Por que não podemos ser uma família?

Cássio finalmente virou o rosto para ela.

Ver Silvia chorar daquele jeito despertou nele um incômodo inesperado. Não pena — reconhecimento. A imagem se sobrepunha à memória de Helena, tantas vezes sentada diante dele, pedindo atenção, reclamando da ausência, tentando ser vista.

Silvia não percebeu a mudança no olhar dele e continuou, a voz embargada:

— Eu fiz tudo por você. Eu me entreguei. E o que aquela… aquela mulher fez? — cuspiu, sem conseguir conter o veneno. — Ela te apunhalou pelas costas. Te menosprezou. E agora já está por aí, pendurada em outro como uma vadia.

O estalo foi imediato.

— Não fale dela — disse Cássio, baixo demais para ser calmo.

Silvia se encolheu, surpresa.

— Você não tem esse direito — ele continuou, a voz endurecendo. — Nunca teve.

As palavras pairaram entre eles como uma sentença.

Silvia sentiu o chão ceder sob os pés. Não porque ele a estivesse mandando embora. Mas porque, naquele instante, compreendeu algo pior: mesmo agora, mesmo ali, era Helena quem ele ainda defendia.

E sempre seria.

O apartamento estava exatamente como ela havia deixado.

Silvia fechou a porta atrás de si sem fazer barulho, como se aquele cuidado pudesse evitar que a realidade a alcançasse. Caminhou alguns passos, largou a bolsa sobre o aparador e foi até o quarto de hóspedes.

As caixas estavam empilhadas como Cássio havia dito. Etiquetadas. Práticas. Frias. Até o futuro do bebê havia sido reduzido a papelão e fita adesiva.

Ela sentou-se no sofá devagar, sentindo o corpo finalmente ceder. As lágrimas vieram em silêncio, escorrendo sem soluços, sem drama. Não havia mais energia para isso. Apenas um cansaço profundo… e algo mais escuro se formando por baixo.

Silvia enxugou o rosto com o dorso da mão e respirou fundo. Uma vez. Duas. Três.

Aquilo não podia ser o fim.

Levantou-se e foi até o quarto. Abriu uma das caixas, remexeu roupas pequenas demais, delicadas demais. Tudo aquilo era real. O bebê era real. E Helena… Helena continuava sendo um obstáculo.

O nome surgiu em sua mente sem que ela o chamasse. Helena.

Silvia fechou a caixa com força. Andou até o espelho do banheiro e se encarou. Os olhos ainda vermelhos, o rosto marcado, mas ali — por trás do desgaste — estava a mulher que sempre soubera fazer escolhas difíceis quando precisava sobreviver.

Ela não precisava que Cássio a amasse.

Se Helena tinha algo que ela jamais tivera, Silvia ainda tinha uma coisa que Helena nunca usaria: disposição para ir até o fim.

...

Na manhã seguinte, Helena e Santiago foram acordados antes mesmo do despertador por uma Mabe elétrica, latindo e pulando na cama com entusiasmo exagerado. Helena tentou se proteger, cobrindo a cabeça com o travesseiro, numa tentativa inútil de barrar o barulho.

— Mabe… não — murmurou, abafada.

Santiago abriu os olhos ainda pesados, rindo.

— O que foi, garota? — estendeu a mão para acariciar o topo da cabeça da cadela. — Tá querendo sair do quarto, é?

Ao abrir a porta e sentir o cheiro vindo da cozinha, entendeu imediatamente a empolgação da pastora. Marcelo, sem dúvida, já estava preparando o café da manhã.

— Bicha interesseira! — repreendeu Santiago.

Mas Mabe já havia passado por ele, abanando o rabo, empolgada demais para se importar.

Helena, vencida tanto pela animação da cadela quanto pelo próprio estômago, descobriu o rosto quando a barriga roncou.

— Você pode mesmo culpá-la? Olha esse cheiro!

Santiago balançou a cabeça, rendido, e se jogou na cama sobre ela, prendendo-a contra o colchão.

— Não me diga que já está com fome. Pra onde foram todos aqueles pedaços de pizza que você comeu ontem?

— Do que você está falando? Ontem foi outro dia.

Ele riu, enchendo o rosto dela de beijos. Quando a boca tentou capturar a dela, Helena o empurrou de leve.

— Ei! Eu nem escovei os dentes ainda.

— Eu não me importo — provocou ele, insistindo.

Capítulo 123 - Impressionismo 1

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