“A liberdade é o quadro mais caro que uma mulher pode pintar.”
Pedro estacionou o carro no estacionamento público ao lado do edifício e seguiu ao lado de Helena até a entrada do fórum. Santiago ocupava o outro lado dela, a mão firmemente entrelaçada à dela, como um apoio silencioso.
Lívia já os aguardava à porta. Pastas organizadas sob o braço, um terno impecável, exalando profissionalismo — diferente da mulher expansiva, cheia de piadas e comentários afiados, que costumava ser fora dali. Ainda assim, a essência permanecia.
Ela abraçou Helena com força e segurança.
— Vai dar tudo certo. Hoje a gente encerra, pelo menos, essa etapa.
Helena encarou a amiga com tranquilidade.
— Eu sei.
Lívia voltou-se então para Pedro e Santiago e avisou:
— Vocês vão ter que esperar aqui na recepção.
— Tudo bem — respondeu Santiago prontamente, antes de se aproximar de Helena.
Ele segurou o rosto dela com as duas mãos.
— Vou te esperar bem aqui.
Inclinou-se e lhe deu um beijo rápido nos lábios. Helena o olhou com carinho e assentiu.
Pedro tocou de leve seu ombro, em um gesto solidário.
— Boa sorte.
— Obrigada — respondeu ela, sincera.
Lívia observou a cena e não resistiu:
— Por que vocês estão com essa cara de preocupação? — ralhou, divertida. — Ele já está acabado.
Os olhos dela brilhavam em antecipação.
Lívia gostava daquilo. Gostava talvez até demais. Derrubar pessoas prepotentes e arrogantes de seus pedestais era seu prazer particular — e o melhor... ela ainda era paga para isso.
Os três riram, compartilhando aquele instante ao perceberem a sede de justiça estampada no olhar da advogada.
— Então vamos lá dar uma lição nele — disse Helena, segurando o braço da amiga.
E seguiu com ela para dentro do fórum, confiante.
...
O fórum cheirava a desinfetante antigo e papel acumulado. Um lugar onde histórias inteiras eram reduzidas a números de processo.
Chegaram alguns minutos adiantadas e, quando o oficial as conduziu até a sala de audiência, ela ainda estava vazia.
Ocuparam as cadeiras em uma das laterais da mesa. Por um instante, Helena percebeu algo diferente em Lívia. Quietude demais. O maxilar rígido. Aquele silêncio específico que ela conhecia bem — sinal claro de raiva contida.
— O que foi? — perguntou, em voz baixa.
— Aquele canalha — Lívia bufou, sem rodeios. — Não sei exatamente como, mas ele conseguiu que o juiz designado para presidir essa audiência fosse um velho amigo dele.
Helena arregalou os olhos, sentindo o alerta se espalhar pelo corpo. Aquilo mudava tudo. Um magistrado influenciado por amizade — ou algo pior — podia facilmente pender a balança. O pensamento ameaçou virar desespero.
Mas Lívia não deixou.
— Fica tranquila — completou, firme. — Cheguei mais cedo justamente para cuidar disso.
— Como? — Helena perguntou, confusa.
Lívia abriu um meio sorriso afiado, prestes a responder…
…quando a porta da sala se abriu.
Cássio entrou, acompanhado de seu advogado.
E o ar pareceu pesar instantaneamente.
...
Cássio chegou ao fórum ao lado de Riviera com a aparência de quem havia dormido pouco — e pensado demais. Mas ostentando uma arrogância revigorada.
Passara quase toda a noite em claro, sentado no escritório de casa, cercado por seus rascunhos enquanto repassava mentalmente seus planos.
Havia tomado todo o cuidado para garantir que tivesse o controle absoluto do tabuleiro.
O juiz que conduziria a audiência era um velho conhecido. Um amigo — satisfeito, inclusive, com seu gesto de cortesia. Um laudo médico cuidadosamente encomendado, que lhe custara uma pequena fortuna, e o vídeo de Helena o enganando para assinar o divórcio, editado para contar apenas a versão que interessava.
Provas suficientes para moldar a narrativa que ele precisava. Na mente de Cássio, o desfecho era inevitável. Não havia espaço para falhas.
Ele se permitiu um breve sorriso ao imaginar o rosto de Santiago perdendo toda aquela confiança. Precisava mostrar a ele — e a todos — a quem Helena realmente pertencia.
Tudo já estava decidido. Helena sairia com ele. Já havia, inclusive, entrado em contato com uma clínica para interná-la. Quando ela voltasse a si — quando voltasse a ser quem era antes, quando deixasse de resistir —, ele a levaria de volta para casa.
Era apenas uma questão de horas.
Em breve, sua vida retornaria ao normal.
Ao que sempre fora.
Ao que jamais deveria ter deixado de ser.
...
Ao atravessar a porta, Cássio deu de cara com Santiago, acompanhado do brutamontes que o havia perseguido no beco. Lançou-lhes um olhar rápido, desdenhoso, como se fossem irrelevantes demais para merecer atenção. Ajustou a lapela do paletó com um gesto preciso e seguiu adiante, cabeça erguida, lado a lado com o advogado, rumo à sala de audiência.
O ambiente era pequeno, funcional, impessoal.
Cássio entrou com a postura impecável de sempre, um sorriso quase malicioso nos lábios. A confiança parecia pulsar em cada passo, embora uma inquietação sutil insistisse em se infiltrar. Ocupou o assento do lado oposto da mesa, junto ao advogado.
Seus olhos se fixaram imediatamente em Helena a sua frente.
Ela estava linda. A camisa branca lhe dava um ar fresco, leve. Parte do cabelo preso destacava-lhe o rosto, mais jovem, descansado, emoldurado por uma maquiagem discreta. Fazia muito tempo que ele não a observava assim, detalhe por detalhe, tão de perto. Tão perfeita.
Helena lançou-lhe apenas com um olhar indiferente antes de virar o rosto, como se qualquer coisa naquele ambiente frio fosse mais digna de atenção. Ao lado dela, a advogada o fuzilava com os olhos — o que arrancou de Cássio um riso breve e debochado.
Elas não faziam ideia do que estava por vir.
⋯
Helena não reagiu. Sentiu a presença dele como uma pedra pesada no estômago, mas não permitiu que isso transparecesse. Buscou o olhar de Lívia e, naquele breve encontro silencioso, ambas compartilharam a certeza de que aquele momento seria decisivo. Não importava o quanto Cássio tivesse planejado — ele não fazia ideia de com quem estava lidando.


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