“A máscara sempre cai. O tempo se encarrega disso. O que é superficial se desfaz — e sobra apenas a essência: aquilo que você realmente é.”
Riviera pigarreou, recompôs-se e pediu a palavra novamente.
— Excelência, a parte autora ainda possui um elemento probatório relevante.
Laura ergueu o olhar, impassível.
— Prossiga.
— Temos um vídeo — disse ele, medindo cada palavra — que demonstra a requerida conduzindo meu cliente a assinar o documento sem a devida leitura, sob pretexto de se tratar de um contrato de prestação de serviço para um evento. A assinatura ocorreu de forma precipitada, induzida e dolosa.
Cássio endireitou-se na cadeira. Aquela era a carta. A última. A que, em sua cabeça, encerraria a discussão.
— Exibição autorizada — determinou a juíza. — Que conste em ata.
O advogado virou o notebook em direção à mesa e deu play no vídeo.
A imagem tremida mostrava Cássio sentado à mesa, com uma mulher ao seu lado, quando Helena entrava na sala. Aproximava-se com um papel nas mãos, dizia algo inaudível. Em seguida, Cássio pegava o documento, distraído, caneta em punho. Assinava sem ler. O vídeo se encerrava ali.
O silêncio que se seguiu foi espesso.
Cássio manteve o olhar fixo à frente, convicto. Para ele, aquilo era prova suficiente.
Laura voltou-se para Lívia.
— Defesa?
Lívia falou devagar. Não havia pressa alguma em seus gestos.
— Excelência, antes de qualquer coisa, é importante registrar que o vídeo comprova apenas uma assinatura sem leitura. Ele não demonstra indução dolosa nem incapacidade. E vale ressaltar que a mulher que aparece ao lado do autor trata-se de sua amante e...
— Contesto, meritíssima — interrompeu Riviera, apressado. — A referida mulher é funcionária da empresa e estava em reunião com meu cliente naquele momento.
A juíza percorreu os rostos à mesa com um olhar atento. Não era alguém que acompanhasse notícias, mas aquele caso havia ganhado notoriedade suficiente — tanto pelo viés psicológico da violência emocional quanto pela complexidade jurídica — para que alguns detalhes já lhe fossem conhecidos.
Cássio estava fazendo o máximo para se segurar. Riviera já o havia advertido sobre se manter em silêncio enquanto não fosse solicitado que se manifestasse, mas estava sendo difícil demais não gritar contra tudo aquilo.
— Dra. Macedo, prossiga — disse Laura, firme. — Dr. Riviera, evite novas interrupções.
Lívia assentiu, sem tirar os olhos de Cássio.
— Como eu dizia, excelência, a mulher ao lado do autor é sua amante. Temos provas diversas: fotografias, registros e vídeos de ambos trocando intimidades em público, inclusive no bar de um hotel em outro estado.
— Exibição autorizada — determinou a juíza.
Lívia girou o próprio notebook, advertindo antes de apertar o play:
— Este vídeo foi amplamente divulgado na internet, em razão da posição pública do autor.
Na tela, a imagem de Cássio e Silvia se beijando de forma íntima demais para qualquer ambiente público começou a rodar.
Laura voltou o olhar diretamente para Cássio.
— O senhor confirma envolvimento com outra mulher durante o casamento?
Cássio sentiu o corpo gelar. Praguejou em silêncio por ter bebido demais naquele dia, por ter se deixado expor.
— Não, excelência — respondeu, tenso. — Fui dopado naquela ocasião. Fui induzido a uma situação vexatória fora das minhas condições normais.
Laura pareceu ponderar. Lívia pediu a palavra.
— Além deste vídeo, excelência, há diversas fotografias que mostram o autor com a mesma mulher em momentos distintos: ela segurando seu braço em locais públicos, sentada de forma íntima ao seu lado em bares, e ambos frequentemente no mesmo veículo. Não me parece conduta compatível com a de um homem casado.
Cássio não esperou autorização.
— Ela é minha funcionária! — explodiu. — Exerce uma função importante na minha empresa. É óbvio que me acompanhava em eventos. Mas nada ultrapassou a cordialidade. A senhora está criando injúrias para manchar minha imagem!
Riviera tocou-lhe o braço com firmeza, num pedido silencioso para que se calasse.
A juíza não demonstrou qualquer simpatia.
— Senhor Cássio, o senhor só falará quando for autorizado — advertiu, seca. — Caso contrário, considerarei desobediência ao juízo.
Voltou-se para Lívia.
— Concluiu?
— Ainda não, excelência. — A voz de Lívia saiu mais tranquila ainda. — A referida mulher não é apenas amante do autor. Ela carrega um filho dele.
O sangue pareceu desaparecer do rosto de Cássio.
— Isso é mentira! — gritou, erguendo-se da cadeira.
Laura bateu levemente a caneta sobre a mesa.
— Senhor Cássio, esta é a última advertência. Não tolerarei mais interrupções e nem explosões emocionais nesta sala.
Virou-se para Riviera.
— Controle seu cliente imediatamente.
Riviera inclinou-se para Cássio, a voz baixa, urgente:
— Cássio, sente-se agora. Se continuar assim, a situação vai piorar. Muito.
Laura voltou-se para Lívia.
— Dra. Macedo, a senhora possui provas dessa alegação?
Lívia lançou a Cássio um olhar de puro deleite antes de responder:
— Sim, excelência. O próprio vídeo apresentado pela parte autora. O que vimos aqui foi apenas um recorte conveniente. Eu possuo o original, integral.
— Contesto! — Riviera reagiu, alarmado. — Isso configura invasão de privacidade!
Lívia não se alterou.


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