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Quadros de um divórcio romance Capítulo 126

“Há momentos em que não se vence fugindo, mas ficando. E dizendo não sem pedir desculpas.”

Helena levantou-se e, acompanhada de Lívia, deixou a sala sem olhar para trás. Deu alguns passos pelo corredor, sentindo um alívio quase físico — até que, de repente, alguém segurou seu punho com força excessiva.

Virou-se no susto.

Deu de cara com Cássio, os olhos vermelhos, inflamados de ódio puro.

Riviera surgiu correndo logo atrás, tentando contê-lo pelos braços, mas Cássio o empurrou com brutalidade, fazendo o advogado cambalear e quase cair.

— Me deixa! — ele gritou.

O corredor estava vazio. Só os quatro.

Lívia estreitou os olhos, fria, calculando instintivamente a distância. O notebook firme na mão — pronta para usá-lo como arma se fosse preciso.

— Me solta — Helena ordenou, a voz baixa, controlada.

— Me diz por quê… — começou Cássio, a voz oscilando entre fúria e desespero. — Por que você não pode voltar? Você me ama! Eu sei disso!

Era inimaginável para Helena estar vivendo aquilo. À sua frente estava um homem que ela mal reconhecia — uma versão distorcida, grotesca, daquele com quem dividira cinco anos da vida.

— Amor? — ela repetiu, com um riso curto e incrédulo. — Você sequer sabe o que isso significa?

A voz dela não tremeu.

— Foram mais de cinco anos. Cinco malditos anos em que eu vivi por você. Em que me apaguei por você. Isso hoje me envergonha. Você faz ideia do quão idiota eu fui? Idiota. Cega. Burra.

— Não fala assim… — ele tentou, desesperado. — Nós… a gente era feliz!

— Feliz? — Helena riu, sem humor. — Quem se anula é feliz? Eu não duvido que você fosse. Ter alguém vivendo em função de você, criando para que você recebesse os créditos e brilhasse… isso deve ser confortável. Mas eu?

Ela abaixou a cabeça por um segundo, balançando-a em negação — não por ele, mas por si mesma.

— Você realmente nunca se importou, não é?

Fez uma pausa.

Cássio vasculhou o rosto dela em busca de qualquer sinal de fragilidade — uma lágrima, um arrependimento, uma brecha. Não encontrou nada. Só lucidez. E autocrítica.

— Todas as vezes que sua mãe me humilhou na sua frente, o que você fez? — continuou Helena, firme. — Quando aquela sua irmãzinha arrogante me desprezava diante de você, o que você fez? Você me defendeu?

Ela respirou fundo.

— Deixa que eu respondo... Nunca. Pelo contrário, ainda me fazia pedir desculpas para elas.

— Eu não… — ele tentou negar, mas as memórias vinham rápidas demais. — Você devia ter me dito isso antes.

Helena gargalhou. Um som seco, incrédulo.

— Você é doente. — disse devagar. — Eu falei. Em todas às vezes.

O olhar dela se tornou ainda mais afiado.

— Mas sabe por que você nunca me defendeu? Porque todas as farpas, as indiretas cruéis, a segurança que elas tinham para me tratar assim… foi você quem deu. Quando dizia que eu era fútil, interesseira, inútil… e tantos outros adjetivos “carinhosos” que usou para me diminuir.

Ela se aproximou mais.

— Não só para elas. Para seus amigos. Funcionários. E até para aquela sua amantezinha que você acha que conhece. Até ela você deixou que me humilhasse. Você chegou a me agredir por ela.

Cássio cerrou a mandíbula. Cada palavra o atingia como um golpe direto.

— O fato é que você nunca aceitou que eu fosse melhor do que você.

A frase o atingiu em cheio. Era ali. Sempre fora ali.

Helena aproximou o rosto do dele.

— Você tentou me manter na sua sombra para esconder que a sombra sempre foi você.

Ela permanecia firme. Cássio, por outro lado, tremia — dividido entre raiva e medo.

— Eu não te amo — disse ela, com clareza cruel. — Nunca te amei. Eu pensei ter amado um homem que inventei, que projetei em você. E foi por essa invenção ridícula que eu me rebaixei.

Soltou um riso breve, amargo.

— Não posso nem te culpar. Fui eu quem permitiu que você fizesse isso comigo.

Balançou a cabeça, enfática.

— Mas acabou. E já passou da hora de você aceitar isso e arcar com as consequências de tudo o que fez.

— Você ainda vai se arrepender — ele cuspiu. — Vai voltar rastejando.

Ela o encarou por um último segundo.

— Você acha mesmo que me conhece? — disse, fria. — Aquela versão medíocre que eu me permiti ser por você morreu.

O tom final veio como sentença:

— Agora me solta — disse ela, a voz baixa e firme. — Antes que eu te mostre quem eu sou de verdade.

— Não — ele rosnou, apertando ainda mais o pulso dela. — Não até você confessar que ainda pensa em mim.

Helena o encarou por um segundo.

— Foi você quem pediu.

Os ensinamentos de Pedro vieram nítidos à mente, quase automáticos. O corpo reagiu antes mesmo do pensamento. Ela abriu levemente as pernas para ganhar estabilidade, girou o pulso com precisão, aproximando-se dele em vez de recuar. Pivotou o quadril, baixou o centro de gravidade e usou o próprio corpo como alavanca. Não era raiva. Era sobrevivência.

PLAFT.

O som do corpo de Cássio atingindo o chão ecoou alto pelo corredor.

Ele gritou de dor ao cair, enquanto Lívia e Riviera observavam a cena, paralisados pelo choque.

Cássio piscou algumas vezes, os olhos cheios de incredulidade, e tentou se levantar com dificuldade.

— Você nunca mais vai relar em mim — disse Helena, a expressão dura, inegociável.

— Você… — ele murmurou, tomado pela fúria, avançando novamente.

Helena foi mais rápida.

O chute foi certeiro, preciso, atingindo-o entre as pernas. O corpo dele cedeu num reflexo instintivo, e antes que pudesse se projetar para frente, o punho dela encontrou seu nariz com força suficiente para jogar-lhe a cabeça para trás.

O estalo seco foi imediato.

Cássio cambaleou, levando a mão ao rosto. O sangue começou a escorrer quase no mesmo instante, confirmando o que o som já anunciara.

Helena não se moveu. Apenas segurou a mão que usou para soca-lo com a outra. Não imaginou que quebrar o nariz de alguém pudesse doer tanto.

— Merda! — Ela soltou baixinho.

Passos apressados surgiram de ambos os lados do corredor.

Pedro deu um passo à frente, posicionando-se instintivamente entre Helena e o restante do ambiente.

— Nós vamos com ela — disse. Não era um pedido.

Helena respirou fundo. Só então percebeu o quanto o corpo começava a ceder. O tremor fino nas mãos denunciava tudo o que fora contido até ali — medo, raiva, adrenalina.

Santiago passou o braço ao redor dela, firme, protetor.

— Acabou — murmurou, para que só ela ouvisse.

Helena fechou os olhos por um segundo, sentindo algo novo se instalar no peito: a liberdade recém-conquistada. Não suave. Não delicada. Mas imposta. Definitiva.

...

A sala reservada era pequena, neutra demais para qualquer emoção. Helena sentou-se enquanto um agente anotava os dados, descrevendo o ocorrido com a objetividade burocrática de quem já vira de tudo.

— Ele segurou meu braço — Helena explicou, apontando o pulso ainda avermelhado. — Eu pedi para soltar. Ele não soltou.

O agente assentiu, registrando cada palavra.

Pedro apareceu logo depois com uma bolsa de gelo improvisada.

— Aqui — disse, ajoelhando-se à frente dela com cuidado. — Vai ajudar.

Helena agradeceu com um aceno e apoiou o gelo na mão, sentindo a ardência diminuir aos poucos.

Depois de recolher todos os dados e registrar os fatos necessários, o agente finalmente os dispensou e deixou a sala.

Antes mesmo de alcançarem a saída do prédio, Lívia já não conseguiu se conter.

— Vocês precisavam ver a cara dele quando o vídeo passou inteiro — começou, empolgada. — Ele simplesmente derreteu na cadeira.

Santiago ouvia atento, mas o alívio era evidente ao ver Helena ali, ao seu lado, inteira.

— Tentou negar tudo — continuou Lívia, gesticulando. — Disparou acusações, perdeu completamente a compostura… a juíza quase engoliu o sujeito vivo. Aquilo não foi uma audiência, foi uma aula.

Helena escutava em silêncio, o gelo ainda pressionado contra o punho. Não precisava reviver cada detalhe. Aquilo já estava encerrado dentro dela.

— E depois, no corredor… — Lívia abriu um sorriso largo, teatral. — Aquilo foi o gran finale. Vocês acham que foi só um soco no nariz daquele idiota? Que nada! Ela primeiro jogou o canalha no chão e depois ainda acertou as bolas dele.

Lívia ria, satisfeita.

Pedro voltou o olhar para Helena, sério.

— Você reagiu certo.

Ela assentiu devagar.

— Graças a você.

O silêncio que ela fez depois não foi pesado, era exausto. Um silêncio de quem atravessara algo grande demais para ser comentado naquele momento.

Helena apoiou a cabeça no ombro de Santiago e fechou os olhos por um instante.

Havia vencido aquela batalha, mas a guerra ainda não havia terminado. Ainda havia muito a provar. Muito a reconquistar — principalmente o direito sobre tudo o que havia criado… e que ele usurpara dela.

Mas daquele ponto em diante seria diferente.

Cássio já não a tocaria. Já não a dobraria. Já não a alcançaria.

Ela estava pronta. Pronta para fazê-lo entender que ela não era mais a mulher que ele acreditava ainda poder manipular.

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