“O pior tipo de perda é quando ninguém te tira nada — você só percebe tarde demais o que jogou fora.”
Cássio deixou o fórum escoltado. Assim que cruzaram a porta, os seguranças o empurraram sem qualquer delicadeza.
Os olhares curiosos se voltaram para ele sem pudor — alguns de espanto, outros de reconhecimento silencioso. Com as mãos ainda trêmulas, puxou um lenço do bolso interno do paletó e tentou estancar o sangue que escorria do nariz, ao mesmo tempo em que escondia o rosto.
— Me tire daqui — ordenou a Riviera, a voz carregada de raiva e humilhação.
O advogado o acompanhou até o carro e o acomodou no banco traseiro. O simples ato de se sentar arrancou-lhe um gemido baixo; a respiração veio irregular. As costas protestavam pela queda, e bastou lembrar do que Helena fizera para algo ferver dentro dele.
“Como ela pôde fazer isso comigo?
E quando foi que aprendeu a se defender assim?”
O corpo inteiro se tensionou. Ao afastar o lenço do rosto, o sangue fresco lhe trouxe outra imagem — Helena caída no chão da empresa após seu tapa, o sangue escorrendo pelas têmporas. Depois, a lembrança dele batendo a porta na mão dela no Scarlet Bar, no mesmo dia em que Santiago surgira.
Se não a tivesse ferido… talvez aquele homem nunca tivesse se aproximado. Talvez ela ainda fosse sua. Talvez tudo fosse, de fato, culpa dele.
A memória avançou, cruel. Fora Silvia quem chamara Helena ao bar, passando-se por ele. Depois, junto dos amigos, humilhara-a diante de todos. E o que ele fizera para defendê-la?
Nada. Pior: ferira-a outra vez.
As palavras que Helena jogara em seu rosto minutos antes retornaram, uma a uma. Todas verdadeiras. Não que ele não tivesse percebido antes — percebera. Mas, enquanto ela permanecia ao seu lado, suportando tudo em silêncio, ele simplesmente ignorara. Porque precisava se sentir superior. Porque sustentara para o mundo uma imagem que diminuía Helena para engrandecê-lo.
Conviver com tantos homens que mantinham amantes lhe dera a falsa certeza de que aquilo era normal. Aceitável.
Agora, perdera a única pessoa que o amara de verdade.
Silvia podia ser afetuosa, cobri-lo de elogios, carregar um filho seu no ventre… ainda assim, algo nele sempre resistira a se aproximar demais. Um desconforto vago. Uma sensação incômoda. Talvez fosse apenas a intuição de que tudo ruiria.
E ruiu.
Ele via com clareza agora. Perdera Helena. E não havia ninguém a culpar além de si mesmo. Renato estivera certo o tempo todo. Ele fora longe demais.
A dor no peito superava qualquer dor física.
A voz de Riviera, pedindo ao motorista que os levassem para o hospital, arrancou-o do torpor.
— Não. — Cássio foi categórico. — Me leve para casa.
— Mas, senhor… o seu nariz — tentou ponderar Riviera.
— Eu disse que não. — A voz saiu mais firme. — O que pode acontecer agora?
Riviera assumiu o tom profissional.
— O que aconteceu hoje não foi apenas uma derrota processual. Foi um acúmulo grave de condutas que podem te custar muito caro.
Cássio manteve o olhar fixo na janela. O maxilar rígido. O nariz latejando a cada batida do coração.
— A juíza determinou apuração por falsificação documental, má-fé processual e sinalizou medidas cautelares — continuou o advogado. — Qualquer contato com Helena, direto ou indireto, pode gerar consequências criminais. Prisão preventiva não está fora de cogitação se você insistir.
Cássio fechou os olhos por um instante, sentindo o peso real do estrago finalmente se impor.
— E a agressão no corredor — acrescentou Riviera —, as imagens de segurança… tudo isso j**a contra você.
O carro fez uma curva brusca.
Cássio respirou fundo, tentando conter o que ameaçava transbordar — desespero, incredulidade, um orgulho ferido que já não encontrava onde se apoiar.
O trânsito engoliu o carro até que pararam em frente à casa do empresário.
Cássio abriu a porta com dificuldade e deu ordens ao motorista:
— Leve-o de volta à empresa.
Depois voltou-se para Riviera, o olhar duro, cansado.
— Contenha os danos ao máximo.
Entrou em casa mancando levemente.
O silêncio que o recebeu não parecia um refúgio, mas sim o começo de um acerto de contas inevitável.
Deixou o paletó sujo cair no chão, sem se dar ao trabalho de pendurá-lo. Pegou a garrafa de uísque sobre o aparador e se deixou afundar no sofá — exatamente no mesmo lugar onde Helena costumava esperá-lo chegar em casa.
O peso da ausência ali era quase físico.
Repassou, um a um, os anos que vivera ao lado dela. Cada gesto, cada escolha, cada silêncio. Compreendeu, tarde demais, que tudo começara na disputa constante entre o amor que sentia por Helena e o orgulho que jamais soube controlar. Sempre que precisou escolher, escolheu a si mesmo.
Vê-la renascer depois de deixá-lo — voltar a ser quem era antes dele — escancarava o quanto a havia apagado. O quanto ferira alguém que só soube amá-lo. E agora, vê-la brilhar novamente ao lado de outro homem dizia ainda mais sobre ele. Sobre sua incapacidade de permitir que ela florescesse sem sentir a própria imagem ameaçada.
Ele fechou os olhos, engolindo em seco.
Era isso.
Não fora falta de amor. Fora medo de ser menor do que ela.
— Eu sou um monstro… — murmurou para o vazio.
Os olhos que antes o admiravam agora só lhe devolviam desprezo. E não por crueldade — mas por exaustão. Por ele nunca ter sabido corresponder àquele amor.
“Você tentou me manter na sua sombra para esconder que a sombra sempre foi você.”
A frase ecoava na mente como um martelo, repetida, implacável.
A garrafa foi esvaziando enquanto a noite se instalava do lado de fora, e a mente, embriagada, se voltava contra ele sem piedade. Nenhuma defesa restava. Nenhuma narrativa salvadora.
Pegou o celular com os dedos pesados e apertou o contato de Renato. Gravou uma mensagem de voz, a fala arrastada pela bebida e pela verdade que já não conseguia negar:
— Você… você estava… — fez uma pausa, respirando com dificuldade. — Você estava certo.
O celular caiu sobre o sofá.
Não havia mais justificativas e nem outro alguém para culpar.
Não havia como se salvar de suas próprias escolhas.
A casa permaneceu em silêncio. E ele também.
...
Silvia observava escondida atrás de um muro de cerca viva, o olhar afiado enquanto aguardava por algo que lhe desse alguma pista do resultado da audiência.
Quando os seguranças surgiram, arrastando Cássio para fora do fórum, ela sentiu o estômago revirar.
O rosto dele estava desfigurado. O sangue escorria do nariz, manchando a camisa clara, o lenço pressionado de forma inútil. Não havia autoridade em seus gestos, apenas a humilhação exposta.
Silvia levou a mão à boca, num reflexo instintivo.
Aquele homem… sempre tão imponente, agora era conduzido como um problema.
Quando o carro de Cássio desapareceu, ela ainda estava tentando processar a cena.
Então viu Helena.
Ela surgiu logo depois, amparada, mas foi o gesto seguinte que fez algo se quebrar dentro de Silvia. Helena inclinou a cabeça e a apoiou no ombro de Santiago, num movimento simples e íntimo — um gesto de quem se permite descansar porque sabe que está segura.
Santiago passou o braço ao redor dela com naturalidade, protegendo-a do burburinho, do mundo, de tudo.
Márcio tentou abraçá-la. Ela não permitiu. Descobriu naquela noite que o amor não protegia de nada. Passou a ver a vida como ela realmente era, onde o poder ditava a vida de todos. E Márcio não tinha poder algum. Ele não era ninguém. Mas ela seria.
Dante passou a dar-lhe tarefas — seduzir homens e arrastá-los para a teia dele.
Com o tempo, ela ficava cada vez melhor nisso. Mas nada nunca era o suficiente para pagar sua dívida.
Até que um dia ele deu a ordem que poderia mudar tudo: “Quero você perto de Cássio Amaral. A empresa dele envia móveis pro país inteiro. Madeira oca carrega mais do que pregos.”
Ela hesitou. Mas entrou. Na verdade, não tinha opção.
Quando conheceu Cássio, esperava apenas cumprir ordens. Mas viu nele aquilo que mais queria: poder. E decidiu que não seria apenas espiã. Seria indispensável.
E foi tão fácil... bastou algumas massagens certeira no ego somadas a decotes um pouco reveladores demais para que ele cedesse a ela.
Logo Cássio começou a se abrir sobre sua vida, sobre sua esposa recatada e submissa.
Não precisou de muito tempo vivendo em meio a todo o luxo que ele lhe proporcionava para começar a desejar o lugar de Helena em sua vida.
Não queria mais apenas participar do jogo. Queria ser dona do tabuleiro.
Cássio começou a dar-lhe mais espaço, mais autonomia. Foi então que ela conseguiu infiltrar Márcio na empresa, no setor de logística, para abrir as portas da fábrica à noite e os homens de Dante encaixarem drogas nas estruturas ocas dos móveis.
No início, Márcio recusou veemente a ideia — mas Silvia chorou, suplicou, disse que Dante a mataria se ele não a ajudasse. Por amor, ele cedeu. Por dinheiro, ela continuou.
Com o sucesso dos envios, Dante começou a recompensá-la, o que aumentou ainda mais sua ambição. Quanto mais ganhava, mais ela queria. Tudo seria dela.
Então, veio a gravidez. Ficou desorientada quando descobriu. Achou-se uma burra, idiota demais ao permitir que isso acontecesse. Mas depois, mais calma, entendeu que poderia usar aquilo a seu favor.
Para Márcio, disse: “Nosso filho vai crescer livre quando eu tiver o controle de tudo.”
Para Cássio, disse: “É seu.”
Para Dante: nada.
Esconderia dele o máximo que conseguisse.
Tudo ia bem até perceber que Helena não era nada do que Cássio lhe dizia. Ela não era recatada e nem submissa. Era o único obstáculo que a impedia de chegar aonde queria.
...
Ela se aproximou de Cássio com o olhar repleto de desprezo.
O pai alcoólatra tornara-se um símbolo de abandono e impotência, gerando nela um ódio visceral à fragilidade — decidiu que nunca mais seria fraca.
E Cássio ali, entregue as suas dores medíocres, não passava de um reflexo caricato daquele homem.
Ajoelhou-se diante dele e deslizou os dedos pelo sangue seco em seu rosto. O gesto era lento, quase íntimo — os olhos, porém, completamente inexpressivos.
Ela não nascera má.
Fora moldada por tragédias.
A vida lhe cobrara além da conta, e agora era a vez de cobrar de volta tudo o que acreditava ser seu por direito.
Diferente do que pensara quando o conheceu, via com clareza: Cássio era apenas mais um homem fraco. Ainda assim, serviria. Homens assim sempre serviam como degraus.
Mesmo com Helena ainda viva, o resultado daquele dia deixara claro que ela não voltaria.
Cássio, enfim, seria dela. Quisesse ou não.
E quando ele a colocasse onde ela acreditava merecer — casados, com o filho já nos braços —, ele deixaria de ser necessário.
Afinal, ela não precisava de um homem ao seu lado. O que ela precisava era nunca mais ser obrigada a recolher os próprios cacos.

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