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Quadros de um divórcio romance Capítulo 127

“O pior tipo de perda é quando ninguém te tira nada — você só percebe tarde demais o que jogou fora.”

Cássio deixou o fórum escoltado. Assim que cruzaram a porta, os seguranças o empurraram sem qualquer delicadeza.

Os olhares curiosos se voltaram para ele sem pudor — alguns de espanto, outros de reconhecimento silencioso. Com as mãos ainda trêmulas, puxou um lenço do bolso interno do paletó e tentou estancar o sangue que escorria do nariz, ao mesmo tempo em que escondia o rosto.

— Me tire daqui — ordenou a Riviera, a voz carregada de raiva e humilhação.

O advogado o acompanhou até o carro e o acomodou no banco traseiro. O simples ato de se sentar arrancou-lhe um gemido baixo; a respiração veio irregular. As costas protestavam pela queda, e bastou lembrar do que Helena fizera para algo ferver dentro dele.

“Como ela pôde fazer isso comigo?

E quando foi que aprendeu a se defender assim?”

O corpo inteiro se tensionou. Ao afastar o lenço do rosto, o sangue fresco lhe trouxe outra imagem — Helena caída no chão da empresa após seu tapa, o sangue escorrendo pelas têmporas. Depois, a lembrança dele batendo a porta na mão dela no Scarlet Bar, no mesmo dia em que Santiago surgira.

Se não a tivesse ferido… talvez aquele homem nunca tivesse se aproximado. Talvez ela ainda fosse sua. Talvez tudo fosse, de fato, culpa dele.

A memória avançou, cruel. Fora Silvia quem chamara Helena ao bar, passando-se por ele. Depois, junto dos amigos, humilhara-a diante de todos. E o que ele fizera para defendê-la?

Nada. Pior: ferira-a outra vez.

As palavras que Helena jogara em seu rosto minutos antes retornaram, uma a uma. Todas verdadeiras. Não que ele não tivesse percebido antes — percebera. Mas, enquanto ela permanecia ao seu lado, suportando tudo em silêncio, ele simplesmente ignorara. Porque precisava se sentir superior. Porque sustentara para o mundo uma imagem que diminuía Helena para engrandecê-lo.

Conviver com tantos homens que mantinham amantes lhe dera a falsa certeza de que aquilo era normal. Aceitável.

Agora, perdera a única pessoa que o amara de verdade.

Silvia podia ser afetuosa, cobri-lo de elogios, carregar um filho seu no ventre… ainda assim, algo nele sempre resistira a se aproximar demais. Um desconforto vago. Uma sensação incômoda. Talvez fosse apenas a intuição de que tudo ruiria.

E ruiu.

Ele via com clareza agora. Perdera Helena. E não havia ninguém a culpar além de si mesmo. Renato estivera certo o tempo todo. Ele fora longe demais.

A dor no peito superava qualquer dor física.

A voz de Riviera, pedindo ao motorista que os levassem para o hospital, arrancou-o do torpor.

— Não. — Cássio foi categórico. — Me leve para casa.

— Mas, senhor… o seu nariz — tentou ponderar Riviera.

— Eu disse que não. — A voz saiu mais firme. — O que pode acontecer agora?

Riviera assumiu o tom profissional.

— O que aconteceu hoje não foi apenas uma derrota processual. Foi um acúmulo grave de condutas que podem te custar muito caro.

Cássio manteve o olhar fixo na janela. O maxilar rígido. O nariz latejando a cada batida do coração.

— A juíza determinou apuração por falsificação documental, má-fé processual e sinalizou medidas cautelares — continuou o advogado. — Qualquer contato com Helena, direto ou indireto, pode gerar consequências criminais. Prisão preventiva não está fora de cogitação se você insistir.

Cássio fechou os olhos por um instante, sentindo o peso real do estrago finalmente se impor.

— E a agressão no corredor — acrescentou Riviera —, as imagens de segurança… tudo isso j**a contra você.

O carro fez uma curva brusca.

Cássio respirou fundo, tentando conter o que ameaçava transbordar — desespero, incredulidade, um orgulho ferido que já não encontrava onde se apoiar.

O trânsito engoliu o carro até que pararam em frente à casa do empresário.

Cássio abriu a porta com dificuldade e deu ordens ao motorista:

— Leve-o de volta à empresa.

Depois voltou-se para Riviera, o olhar duro, cansado.

— Contenha os danos ao máximo.

Entrou em casa mancando levemente.

O silêncio que o recebeu não parecia um refúgio, mas sim o começo de um acerto de contas inevitável.

Deixou o paletó sujo cair no chão, sem se dar ao trabalho de pendurá-lo. Pegou a garrafa de uísque sobre o aparador e se deixou afundar no sofá — exatamente no mesmo lugar onde Helena costumava esperá-lo chegar em casa.

O peso da ausência ali era quase físico.

Repassou, um a um, os anos que vivera ao lado dela. Cada gesto, cada escolha, cada silêncio. Compreendeu, tarde demais, que tudo começara na disputa constante entre o amor que sentia por Helena e o orgulho que jamais soube controlar. Sempre que precisou escolher, escolheu a si mesmo.

Vê-la renascer depois de deixá-lo — voltar a ser quem era antes dele — escancarava o quanto a havia apagado. O quanto ferira alguém que só soube amá-lo. E agora, vê-la brilhar novamente ao lado de outro homem dizia ainda mais sobre ele. Sobre sua incapacidade de permitir que ela florescesse sem sentir a própria imagem ameaçada.

Ele fechou os olhos, engolindo em seco.

Era isso.

Não fora falta de amor. Fora medo de ser menor do que ela.

— Eu sou um monstro… — murmurou para o vazio.

Os olhos que antes o admiravam agora só lhe devolviam desprezo. E não por crueldade — mas por exaustão. Por ele nunca ter sabido corresponder àquele amor.

“Você tentou me manter na sua sombra para esconder que a sombra sempre foi você.”

A frase ecoava na mente como um martelo, repetida, implacável.

A garrafa foi esvaziando enquanto a noite se instalava do lado de fora, e a mente, embriagada, se voltava contra ele sem piedade. Nenhuma defesa restava. Nenhuma narrativa salvadora.

Pegou o celular com os dedos pesados e apertou o contato de Renato. Gravou uma mensagem de voz, a fala arrastada pela bebida e pela verdade que já não conseguia negar:

— Você… você estava… — fez uma pausa, respirando com dificuldade. — Você estava certo.

O celular caiu sobre o sofá.

Não havia mais justificativas e nem outro alguém para culpar.

Não havia como se salvar de suas próprias escolhas.

A casa permaneceu em silêncio. E ele também.

...

Silvia observava escondida atrás de um muro de cerca viva, o olhar afiado enquanto aguardava por algo que lhe desse alguma pista do resultado da audiência.

Quando os seguranças surgiram, arrastando Cássio para fora do fórum, ela sentiu o estômago revirar.

O rosto dele estava desfigurado. O sangue escorria do nariz, manchando a camisa clara, o lenço pressionado de forma inútil. Não havia autoridade em seus gestos, apenas a humilhação exposta.

Silvia levou a mão à boca, num reflexo instintivo.

Aquele homem… sempre tão imponente, agora era conduzido como um problema.

Quando o carro de Cássio desapareceu, ela ainda estava tentando processar a cena.

Então viu Helena.

Ela surgiu logo depois, amparada, mas foi o gesto seguinte que fez algo se quebrar dentro de Silvia. Helena inclinou a cabeça e a apoiou no ombro de Santiago, num movimento simples e íntimo — um gesto de quem se permite descansar porque sabe que está segura.

Santiago passou o braço ao redor dela com naturalidade, protegendo-a do burburinho, do mundo, de tudo.

Capítulo 127 - Pigmento Negro 1

Capítulo 127 - Pigmento Negro 2

Capítulo 127 - Pigmento Negro 3

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