"Às vezes, tudo que precisamos é uma frase certa, no momento certo.”
Assim que deixaram o fórum, seguiram direto para o bairro antigo. Marcelo os aguardava ansioso por notícias.
Mal atravessaram a porta e Helena foi direto para o sofá, largando o corpo como quem finalmente se permite cair. Santiago sentou-se ao seu lado no mesmo instante. Mabe correu até ela, apoiou uma pata em sua perna e recebeu um carinho automático, quase distraído.
Lívia começou a relatar tudo, sem poupar detalhes: o andamento da audiência, a troca de argumentos, a postura da juíza, as implicações jurídicas, o momento em que Helena se defendeu — tudo.
Marcelo foi o primeiro a se manifestar.
— Essa medida protetiva é uma coisa boa — disse, aliviado. — Ele não pode mais se aproximar dela.
Pedro, no entanto, permanecia pensativo, a mão apoiada no queixo.
— Talvez — ponderou. — Mas e se isso o deixar ainda mais descontrolado? Ele não respeitou a ordem nem dentro do próprio fórum.
Santiago ouvia tudo em silêncio, atento, com o braço firme em torno de Helena, enquanto ela descansava a cabeça no ombro.
Ela, por sua vez, estava quieta demais. Tinha uma das mãos pousadas sobre a barriga, os olhos perdidos em algum ponto invisível.
Lívia percebeu primeiro. Aproximou-se com o cenho franzido.
— Amiga… está tudo bem? — tocou-lhe o braço. — Você está gelada.
— Eu só… não estou me sentindo muito… — Helena começou, mas a frase morreu no meio.
Ela se levantou abruptamente, levou a mão à boca e saiu correndo em direção ao banheiro.
Santiago foi atrás dela imediatamente, com Lívia logo atrás.
Helena já estava ajoelhada diante do vaso sanitário, o corpo curvado enquanto expelia o conteúdo do estômago. Santiago se aproximou sem hesitar, segurou seus cabelos para trás com cuidado e passou a mão firme, compassada, pelas costas dela.
— Respira… eu estou aqui — murmurou, baixo, como se o mundo tivesse encolhido até aquele banheiro.
Lívia parecia aflita sem saber o que fazer para ajudar. Correu até a cozinha para pegar um copo d’água, e quando retornou encontrou Helena já sentada no chão, encostada na parede fria, os joelhos dobrados. Santiago estava ajoelhado à sua frente, segurando-lhe o rosto com as duas mãos, atento a cada reação.
— Devagar — disse ele, levando o copo até os lábios dela. — Só um gole.
Helena obedeceu, ainda ofegante. O rosto estava pálido demais, os olhos marejados não de choro, mas de exaustão.
— Me desculpa… — sussurrou, a voz fraca.
— Não pede desculpa — respondeu Santiago de imediato. — Seu corpo passou por coisa demais hoje.
Lívia se agachou ao lado dela, tocando-lhe o joelho.
— Você sente dor? Tontura? — perguntou, já no modo prática.
Helena fechou os olhos por um instante, tentando organizar as sensações.
— Enjoo… e uma fraqueza estranha — disse levando a mão ao baixo ventre.
Santiago e Lívia trocaram um olhar rápido.
— Quando foi a última vez que você comeu? — perguntou Lívia.
— No almoço… — respondeu Helena.
Santiago respirou fundo, controlando a própria ansiedade.
— Vamos levantar devagar — disse ele. — Te levo pra cama. Você precisa deitar.
— Não — Helena negou com a cabeça. — Se eu deitar agora, acho que volto a vomitar.
Lívia pensou por alguns segundos.
— Então vamos ficar aqui um pouco. — Apoiou-lhe melhor as costas na parede.
Helena assentiu, os olhos fechados.
Mabe apareceu na porta do banheiro, hesitante, e se aproximou choramingando, deitando-se ao lado dela. Helena passou a mão pela cabeça da cadela quase sem perceber.
O corpo começou a relaxar aos poucos. A respiração desacelerou.
Foi então que Lívia, observando com atenção, franziu o cenho.
— Helena… — chamou, com cuidado. — Quando foi a última vez que você menstruou?
Helena abriu os olhos devagar. A mente logo entendendo onde a amiga estava tentando chegar.
— Eu uso o implante — murmurou. — Não menstruo a muito tempo.
Lívia ainda parecia pensativa, sem descartar a própria suposição.
— E faz quanto tempo que você está com ele? — insistiu. — O implante tem validade…
Helena tentou se lembrar. Optara pelo pequeno bastão hormonal quando já não suportava mais os enjoos e as oscilações que as pílulas lhe causavam. Mas aquilo havia sido há muito tempo. Há Anos.
Pensou na última consulta com a ginecologista. E então a lembrança veio inteira.
Helena levou a mão à boca, os olhos se arregalando.
— O que foi? — Santiago perguntou de imediato, o tom carregado de preocupação.
— Acho que já era pra eu ter feito a substituição… — a voz dela falhou.
Santiago sentiu o coração dar um salto involuntário.
Pai.
A palavra atravessou sua mente sem pedir licença, pesada e inesperadamente doce. Casar, construir uma vida com a mulher à sua frente, tê-la ao seu lado para sempre — esse desejo já era antigo, enraizado. Filhos… viriam naturalmente. E, mesmo não estando nos planos para aquele momento, ao pensar nisso não sentiu medo.

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