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Quadros de um divórcio romance Capítulo 128

"Às vezes, tudo que precisamos é uma frase certa, no momento certo.”

Assim que deixaram o fórum, seguiram direto para o bairro antigo. Marcelo os aguardava ansioso por notícias.

Mal atravessaram a porta e Helena foi direto para o sofá, largando o corpo como quem finalmente se permite cair. Santiago sentou-se ao seu lado no mesmo instante. Mabe correu até ela, apoiou uma pata em sua perna e recebeu um carinho automático, quase distraído.

Lívia começou a relatar tudo, sem poupar detalhes: o andamento da audiência, a troca de argumentos, a postura da juíza, as implicações jurídicas, o momento em que Helena se defendeu — tudo.

Marcelo foi o primeiro a se manifestar.

— Essa medida protetiva é uma coisa boa — disse, aliviado. — Ele não pode mais se aproximar dela.

Pedro, no entanto, permanecia pensativo, a mão apoiada no queixo.

— Talvez — ponderou. — Mas e se isso o deixar ainda mais descontrolado? Ele não respeitou a ordem nem dentro do próprio fórum.

Santiago ouvia tudo em silêncio, atento, com o braço firme em torno de Helena, enquanto ela descansava a cabeça no ombro.

Ela, por sua vez, estava quieta demais. Tinha uma das mãos pousadas sobre a barriga, os olhos perdidos em algum ponto invisível.

Lívia percebeu primeiro. Aproximou-se com o cenho franzido.

— Amiga… está tudo bem? — tocou-lhe o braço. — Você está gelada.

— Eu só… não estou me sentindo muito… — Helena começou, mas a frase morreu no meio.

Ela se levantou abruptamente, levou a mão à boca e saiu correndo em direção ao banheiro.

Santiago foi atrás dela imediatamente, com Lívia logo atrás.

Helena já estava ajoelhada diante do vaso sanitário, o corpo curvado enquanto expelia o conteúdo do estômago. Santiago se aproximou sem hesitar, segurou seus cabelos para trás com cuidado e passou a mão firme, compassada, pelas costas dela.

— Respira… eu estou aqui — murmurou, baixo, como se o mundo tivesse encolhido até aquele banheiro.

Lívia parecia aflita sem saber o que fazer para ajudar. Correu até a cozinha para pegar um copo d’água, e quando retornou encontrou Helena já sentada no chão, encostada na parede fria, os joelhos dobrados. Santiago estava ajoelhado à sua frente, segurando-lhe o rosto com as duas mãos, atento a cada reação.

— Devagar — disse ele, levando o copo até os lábios dela. — Só um gole.

Helena obedeceu, ainda ofegante. O rosto estava pálido demais, os olhos marejados não de choro, mas de exaustão.

— Me desculpa… — sussurrou, a voz fraca.

— Não pede desculpa — respondeu Santiago de imediato. — Seu corpo passou por coisa demais hoje.

Lívia se agachou ao lado dela, tocando-lhe o joelho.

— Você sente dor? Tontura? — perguntou, já no modo prática.

Helena fechou os olhos por um instante, tentando organizar as sensações.

— Enjoo… e uma fraqueza estranha — disse levando a mão ao baixo ventre.

Santiago e Lívia trocaram um olhar rápido.

— Quando foi a última vez que você comeu? — perguntou Lívia.

— No almoço… — respondeu Helena.

Santiago respirou fundo, controlando a própria ansiedade.

— Vamos levantar devagar — disse ele. — Te levo pra cama. Você precisa deitar.

— Não — Helena negou com a cabeça. — Se eu deitar agora, acho que volto a vomitar.

Lívia pensou por alguns segundos.

— Então vamos ficar aqui um pouco. — Apoiou-lhe melhor as costas na parede.

Helena assentiu, os olhos fechados.

Mabe apareceu na porta do banheiro, hesitante, e se aproximou choramingando, deitando-se ao lado dela. Helena passou a mão pela cabeça da cadela quase sem perceber.

O corpo começou a relaxar aos poucos. A respiração desacelerou.

Foi então que Lívia, observando com atenção, franziu o cenho.

— Helena… — chamou, com cuidado. — Quando foi a última vez que você menstruou?

Helena abriu os olhos devagar. A mente logo entendendo onde a amiga estava tentando chegar.

— Eu uso o implante — murmurou. — Não menstruo a muito tempo.

Lívia ainda parecia pensativa, sem descartar a própria suposição.

— E faz quanto tempo que você está com ele? — insistiu. — O implante tem validade…

Helena tentou se lembrar. Optara pelo pequeno bastão hormonal quando já não suportava mais os enjoos e as oscilações que as pílulas lhe causavam. Mas aquilo havia sido há muito tempo. Há Anos.

Pensou na última consulta com a ginecologista. E então a lembrança veio inteira.

Helena levou a mão à boca, os olhos se arregalando.

— O que foi? — Santiago perguntou de imediato, o tom carregado de preocupação.

— Acho que já era pra eu ter feito a substituição… — a voz dela falhou.

Santiago sentiu o coração dar um salto involuntário.

Pai.

A palavra atravessou sua mente sem pedir licença, pesada e inesperadamente doce. Casar, construir uma vida com a mulher à sua frente, tê-la ao seu lado para sempre — esse desejo já era antigo, enraizado. Filhos… viriam naturalmente. E, mesmo não estando nos planos para aquele momento, ao pensar nisso não sentiu medo.

— Sim — Lívia foi quem respondeu. — Ela só está um pouco enjoada. Vamos dar um pouco de espaço para os dois.

Marcelo assentiu em silêncio e junto com Livia recuou deixando-os sozinhos.

Santiago permaneceu ali, ao lado de Helena. Não havia pressa, nem palavras necessárias. Apenas presença.

...

Depois de algum tempo, Santiago ajudou Helena a tomar banho. A água quente escorria lenta enquanto ele aproveitava a espuma do sabão para massagear-lhe as costas com cuidado. Helena fechou os olhos e deixou escapar um gemido baixo, involuntário, rendida à sensação.

— Você é tão bom pra mim… — murmurou Helena, a voz baixa, quase dissolvida no vapor.

O enjoo já havia diminuído, restando apenas um cansaço suave.

Santiago sorriu de leve, sem responder de imediato. A água escorria lenta pelas costas dela enquanto suas mãos continuavam firmes, cuidadosas.

— E por que eu não seria bom com a mulher que amo? — ele sussurrou junto ao ouvido dela. — Na verdade… eu sou um homem de muita sorte.

Santiago a virou de frente, segurando-lhe o rosto com as mãos molhadas, o olhar sério e inteiro.

— Escuta bem — falou, baixo. — Eu vou estar aqui. Para tudo. Seja o que for. Você nunca mais vai passar por nada sozinha.

Helena sentiu o nó subir à garganta. Encostou a testa na dele.

— Você não está com medo? — perguntou num sussurro. — Se eu estiver mesmo grávida… com tudo o que está acontecendo…

— Shiu… — ele interrompeu, pousando a mão com cuidado sobre a barriga dela. — Eu não vou deixar nada acontecer com você. Nem com o bebê... se existir mesmo um aí.

Ela respirou fundo, a culpa atravessando-lhe o peito.

— Eu fui irresponsável… — confessou. — Nem lembrei de trocar o implante. Me desculpa.

— Ei! Não! — Santiago ergueu-lhe o queixo com delicadeza, obrigando-a a encará-lo. — Ninguém faz nada desse tipo sozinho. — Sorriu de leve. — Ter filhos com você já estava nos meus planos. Pode ser que a gente tenha adiantado as coisas… mas confesso que fiquei ansioso só de imaginar uma mini você correndo pela casa, pintando as paredes e devorando tudo o que vê pela frente.

Helena riu alto, o som leve quebrando qualquer resquício de tensão.

— E se vier um mini você?

Santiago pensou por um instante, fingindo ponderar.

— Então eu vou sentir pena de você — respondeu sério demais para não ser brincadeira. — Porque, em vez de um, você vai ter dois homens extremamente protetores e pegajosos.

Helena sorriu, os olhos brilhando.

— Pra mim parece ótimo.

Ela o beijou sem pressa.

A água continuava a cair ao redor deles, constante, morna — como se o mundo lá fora tivesse ficado distante o suficiente para não alcançar aquele momento.

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