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Quadros de um divórcio romance Capítulo 129

“A dor não nos define. Mas a forma como escolhemos atravessá-la, sim.”

Depois do banho, o cheiro de grelhado capturou a atenção de Helena. O apetite começava a dar sinais de retorno. Quando se sentaram à mesa — agora com uma cadeira a mais para que coubessem os cinco — encontraram, além de uma travessa de peixe perfeitamente dourado, outra generosa de salada, colorida e convidativa.

— Preparei algo leve, pensando em você — disse Marcelo, lançando-lhe um olhar atento.

Helena sorriu, sincera.

— Está com uma cara ótima.

Começaram a comer, mas não demorou para que Helena percebesse algo fora do lugar. Lívia estava quieta demais.

— Desembucha — ordenou, sem rodeios.

Lívia engasgou com a comida, tossindo enquanto Marcelo lhe estendia um copo d’água.

— Por que você acha que eu tenho algo pra falar? — perguntou, fingindo inocência.

— Talvez porque eu te conheça?

— Essa sua mania de ler a gente às vezes é irritante, sabia?

— Anda logo.

Lívia suspirou, vencida.

— Tá. Eu só não queria te estressar e te fazer passar mal de novo.

O estômago de Helena se contraiu, não de enjoo, mas de antecipação. Santiago, Pedro e Marcelo também ficaram atentos, os olhares voltados para Lívia.

— Quando fui ao fórum hoje cedo para solicitar a suspeição do juíz — continuou — aproveitei pra verificar como estava o processo das nove coleções. Depois de te ver tão abalada, pensei em esperar pra contar quando você estivesse melhor. — Fez uma pausa. — O juiz já deu andamento. Autorizou a citação do réu. Cássio será notificado em breve.

— Ah… é só isso? — Helena riu, aliviando a tensão, e segurou a mão da amiga. — Eu estou bem. E isso é uma coisa boa. Quanto mais cedo resolvermos tudo, mais rápido isso acaba.

Lívia soltou o ar que prendia.

— Ainda bem. Porque, já que você está tranquila… — inclinou-se um pouco para frente — eu aproveitei e juntei ao processo aquilo que combinamos. Ele certamente vai ficar furioso quando receber a notificação.

Santiago franziu o cenho, a mandíbula se contraindo.

— Foi ele quem procurou por isso, não foi? — ralhou.

Helena assentiu com calma.

Pedro apoiou os cotovelos na mesa.

— E agora?

Lívia sorriu de lado. Um sorriso profissional. Afiado.

— Agora, ele vai ter que responder por tudo o que tentou se apropriar dela.

Marcelo observou Helena com atenção.

— E você? Como está com isso tudo?

Helena respirou fundo. Passou a mão pela barriga quase sem perceber.

— Eu não estou com medo do que vem. — disse com honestidade —Estou cansada, sim. Mas em paz.

Santiago apertou de leve sua mão sobre a mesa.

Lívia terminou de mastigar e continuou.

— E tem mais. A tia Lelo e o tio Rogério estão voltando amanhã. Parece que vão resolver aquela outra questão.

Helena ergueu as sobrancelhas, surpresa.

— Desde quando você sabe mais da agenda dos meus pais do que eu?

— Pra que esse ciúme todo? — Lívia rebateu, rindo. — Eu só liguei pra tia Lelo pra contar como as coisas foram hoje, enquanto você estava no banho.

Helena franziu o cenho, apreensiva.

— Você não contou que eu passei mal, contou?

— Não! — Lívia respondeu de imediato, quase ofendida. — Acha que eu sou tão linguaruda assim? Eu tenho filtro, sabia?

Os quatro riram, zombando do suposto “filtro” da advogada e o clima à mesa voltou a se acomodar, mais leve.

...

Silvia acompanhou a noite se render aos primeiros raios do dia. Permanecia sentada na poltrona do quarto, imóvel, observando Cássio dormir.

Fora preciso pedir ajuda ao marido da faxineira para levá-lo até ali. Sozinha, ela não teria conseguido. Depois, com movimentos mecânicos, retirara-lhe as roupas sujas e, usando uma toalha úmida, limpara o sangue já seco da pele. Não houve carinho naquele gesto — apenas necessidade. Como quem organiza um cenário antes de seguir em frente.

Depois que a avalanche de lembranças cruéis emergiu, Silvia as empurrou de volta para o fundo de si. Uma a uma. Ergueu um muro alto, sólido, em torno delas. Era assim que sobrevivia.

Cássio puxou a cadeira e se sentou com um suspiro pesado.

— Dá pra baixar a guarda um pouco? — pediu, a voz cansada, estranha, respirando pela boca. — Você estava certo… está bem?

Renato ergueu uma sobrancelha, genuinamente surpreso.

— Pelo visto, as coisas não saíram como você esperava ontem — comentou, cauteloso, sondando.

Cássio passou a mão pelo rosto, demorando mais do que o necessário. Quando voltou a encará-lo, havia algo novo ali. Vergonha.

— Foi um desastre — admitiu.

Renato recostou-se na cadeira, cruzando os braços.

— Engraçado — disse, seco. — Você esperava um resultado diferente?

— Eu… — Cássio respirou fundo. — Eu não sei no que estava pensando. Eu fiz muita merda.

— Você finalmente percebeu? — disse, sem suavizar. — Eu te avisei. Mais de uma vez.

— Eu sei — Cássio assentiu. — E ignorei todas. Eu achei que, se ela voltasse… tudo se ajeitaria — continuou, a voz mais baixa. — Agora eu estou sozinho e não faço ideia do que fazer.

Renato o observou por alguns segundos antes de falar:

— Você ainda tem a Silvia. E seu filho.

Cássio balançou a cabeça, um gesto lento, cansado.

— Silvia… — suspirou. — Eu não sei explicar. No começo era conveniente, fácil. — Franziu o cenho. — Mas agora… não consigo me sentir à vontade perto dela. Parece... errado.

Renato também sentia que havia algo fora do lugar naquela mulher — algo que nunca soara genuíno —, mas escolheu não dizer nada sobre isso.

— Agora que você reconheceu seus erros, pare de correr atrás do que já acabou. — Fez uma pausa. — Se você realmente quer fazer algo certo… comece assumindo as consequências. Todas elas.

— E se eu não conseguir?

Renato se levantou, recolhendo alguns papéis da mesa.

— Então você vai continuar destruindo tudo o que tocar. — Olhou-o uma última vez. — Inclusive esse filho que ainda nem nasceu.

A frase ficou suspensa no ar.

E Cássio entendeu que não havia mais como fugir — nem de si mesmo, nem do que havia causado.

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