“A dor não nos define. Mas a forma como escolhemos atravessá-la, sim.”
Depois do banho, o cheiro de grelhado capturou a atenção de Helena. O apetite começava a dar sinais de retorno. Quando se sentaram à mesa — agora com uma cadeira a mais para que coubessem os cinco — encontraram, além de uma travessa de peixe perfeitamente dourado, outra generosa de salada, colorida e convidativa.
— Preparei algo leve, pensando em você — disse Marcelo, lançando-lhe um olhar atento.
Helena sorriu, sincera.
— Está com uma cara ótima.
Começaram a comer, mas não demorou para que Helena percebesse algo fora do lugar. Lívia estava quieta demais.
— Desembucha — ordenou, sem rodeios.
Lívia engasgou com a comida, tossindo enquanto Marcelo lhe estendia um copo d’água.
— Por que você acha que eu tenho algo pra falar? — perguntou, fingindo inocência.
— Talvez porque eu te conheça?
— Essa sua mania de ler a gente às vezes é irritante, sabia?
— Anda logo.
Lívia suspirou, vencida.
— Tá. Eu só não queria te estressar e te fazer passar mal de novo.
O estômago de Helena se contraiu, não de enjoo, mas de antecipação. Santiago, Pedro e Marcelo também ficaram atentos, os olhares voltados para Lívia.
— Quando fui ao fórum hoje cedo para solicitar a suspeição do juíz — continuou — aproveitei pra verificar como estava o processo das nove coleções. Depois de te ver tão abalada, pensei em esperar pra contar quando você estivesse melhor. — Fez uma pausa. — O juiz já deu andamento. Autorizou a citação do réu. Cássio será notificado em breve.
— Ah… é só isso? — Helena riu, aliviando a tensão, e segurou a mão da amiga. — Eu estou bem. E isso é uma coisa boa. Quanto mais cedo resolvermos tudo, mais rápido isso acaba.
Lívia soltou o ar que prendia.
— Ainda bem. Porque, já que você está tranquila… — inclinou-se um pouco para frente — eu aproveitei e juntei ao processo aquilo que combinamos. Ele certamente vai ficar furioso quando receber a notificação.
Santiago franziu o cenho, a mandíbula se contraindo.
— Foi ele quem procurou por isso, não foi? — ralhou.
Helena assentiu com calma.
Pedro apoiou os cotovelos na mesa.
— E agora?
Lívia sorriu de lado. Um sorriso profissional. Afiado.
— Agora, ele vai ter que responder por tudo o que tentou se apropriar dela.
Marcelo observou Helena com atenção.
— E você? Como está com isso tudo?
Helena respirou fundo. Passou a mão pela barriga quase sem perceber.
— Eu não estou com medo do que vem. — disse com honestidade —Estou cansada, sim. Mas em paz.
Santiago apertou de leve sua mão sobre a mesa.
Lívia terminou de mastigar e continuou.
— E tem mais. A tia Lelo e o tio Rogério estão voltando amanhã. Parece que vão resolver aquela outra questão.
Helena ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— Desde quando você sabe mais da agenda dos meus pais do que eu?
— Pra que esse ciúme todo? — Lívia rebateu, rindo. — Eu só liguei pra tia Lelo pra contar como as coisas foram hoje, enquanto você estava no banho.
Helena franziu o cenho, apreensiva.
— Você não contou que eu passei mal, contou?
— Não! — Lívia respondeu de imediato, quase ofendida. — Acha que eu sou tão linguaruda assim? Eu tenho filtro, sabia?
Os quatro riram, zombando do suposto “filtro” da advogada e o clima à mesa voltou a se acomodar, mais leve.
...
Silvia acompanhou a noite se render aos primeiros raios do dia. Permanecia sentada na poltrona do quarto, imóvel, observando Cássio dormir.
Fora preciso pedir ajuda ao marido da faxineira para levá-lo até ali. Sozinha, ela não teria conseguido. Depois, com movimentos mecânicos, retirara-lhe as roupas sujas e, usando uma toalha úmida, limpara o sangue já seco da pele. Não houve carinho naquele gesto — apenas necessidade. Como quem organiza um cenário antes de seguir em frente.
Depois que a avalanche de lembranças cruéis emergiu, Silvia as empurrou de volta para o fundo de si. Uma a uma. Ergueu um muro alto, sólido, em torno delas. Era assim que sobrevivia.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio