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Quadros de um divórcio romance Capítulo 130

"A única coisa que controlamos é a ilusão de achar que controlamos tudo."

Na manhã seguinte, depois do café, Marcelo seguiu para a agência com Mabe, enquanto Pedro levou Helena e Santiago até o laboratório.

Helena era um emaranhado de sensações: a ansiedade e o medo disputavam espaço com a expectativa e a esperança. Santiago permanecia firme ao seu lado, segurando-lhe a mão com constância, como um ponto de ancoragem.

No laboratório, o profissional colocou o garrote em seu braço, interrompendo o fluxo sanguíneo. As veias logo se tornaram mais salientes. Ele então fez a punção com precisão, retirando um pequeno tubo de sangue.

Helena desviou o olhar no instante da agulha, respirando fundo. Aquilo era rápido, técnico — mas o peso do que aquele exame poderia significar tornava tudo maior do que o gesto simples.

Santiago apertou de leve sua mão.

O futuro parecia suspenso em alguns mililitros de sangue.

Pedro os aguardava do lado de fora, encostado no carro, atento como sempre. Seu senso de responsabilidade gritava que, se Helena estivesse mesmo grávida, precisaria redobrar a vigilância.

O resultado do exame só ficaria pronto no período da tarde, então combinaram de buscá-lo após o expediente. Até lá, a ansiedade teria que ser suportada.

Antes de saírem, Santiago parou e virou Helena para si. Os olhos dele brilhavam com uma ternura que acolhia, que acalmava.

— Independente do resultado… — começou, a voz baixa, firme — nada vai mudar entre a gente.

Ele levou a mão ao rosto dela, o polegar desenhando um carinho lento na bochecha.

— Se for positivo, a gente aprende junto. Passo a passo. Se não for… — sorriu de leve — a gente pode continuar praticando.

Helena sentiu o nó na garganta se desfazer aos poucos.

— Sem vergonha. — Repreendeu-o com os olhos marejados, e se inclinou para encostar a testa na dele.

Pedro deixou Santiago na galeria primeiro, antes de seguir com Helena para a Orsini Design.

Diogo, seu amigo cabeleireiro, já a aguardava em uma salinha improvisada. Helena havia solicitado seus serviços, já que passaria o dia inteiro em gravação para o relançamento da coleção.

Cerca meia depois, um funcionário bateu à porta e a abriu em seguida, espiando dentro.

— Vamos começar em dez minutos.

Helena agradeceu e se levantou. Parou diante do espelho por um instante mais longo do que o necessário.

Diogo havia reforçado as ondas naturais de seu cabelo com o babyliss, prendendo levemente as laterais e deixando algumas mechas soltas, moldando o rosto. A maquiagem leve realçava a delicadeza de seus traços; o rímel alongava os cílios e destacava o olhar. O vestido preto lhe conferia uma elegância segura, quase arquitetônica — como se dialogasse em silêncio com a própria coleção: linhas limpas, força contida, beleza que não implora atenção.

As mangas em babado se moviam suavemente, lembrando que, apesar do controle, havia sensibilidade. Helena passou os dedos pelo cinto, conferindo o ajuste, e então ergueu o olhar — não para checar a própria imagem, mas para se reconhecer.

Não era mais a mulher escondida atrás de projetos assinados por outros.

Era a criadora.

A mente por trás das formas, das cores, da emoção traduzida em madeira, vidro, tecido e espaço.

— Você é mesmo minha fada madrinha — disse, sorrindo para Diogo.

— Uma fada madrinha teria tido muito mais trabalho — ele respondeu, divertido. — Eu nem precisei de uma abóbora.

— Obrigada mais uma vez.

Helena deu um abraço em Diogo, inspirou fundo e seguiu para o set.

O frio na barriga não era medo. Era consciência do alcance daquele momento.

...

O set improvisado ocupava parte do galpão principal da Orsini Design. Câmeras sobre tripés, refletores ajustados às pressas, fios cruzando o chão como raízes expostas. Havia um burburinho contido no ar — aquele nervosismo típico de início de gravação, misturado à curiosidade.

Quando Helena entrou, a conversa diminuiu sem que ninguém precisasse pedir silêncio. Como se sua presença reorganizasse o ambiente ao redor. A produtora contratada foi a primeira a se aproximar.

— Bom dia, Helena. — Estendeu a mão, cordial. — Ouvi maravilhas sobre você e estou ansiosa para trabalharmos juntas.

— Bom dia — ela respondeu com um sorriso tranquilo. — Faço minhas suas palavras.

Helena observava o espaço com atenção genuína, caminhando entre as peças da coleção como quem revisita algo íntimo — passando a mão de leve por uma superfície, testando a luz sobre um acabamento, inclinando a cabeça para avaliar um ângulo.

Posicionaram-na diante de uma das peças centrais da coleção. Quando as luzes se acenderam, o reflexo suave destacou ainda mais a firmeza do seu olhar. Não havia pose. Havia pertencimento.

— Quando quiser — avisou o diretor.

Ela respirou fundo uma única vez e começou.

Como Orsini já havia antecipado, o lançamento da coleção no evento do Studio Cassiani despertara grande atenção. Agora, Helena precisava apenas reproduzir, de forma mais leve, a apresentação que fizera naquela ocasião.

E com a tranquilidade de quem reconhece o próprio trabalho, ela começou:

Falava da inspiração, do diálogo entre linhas e função, da busca por equilíbrio entre estética e emoção. Usava as mãos com naturalidade, como quem já explicara aquilo muitas vezes — não para convencer, mas para compartilhar.

— Ela realmente entende do que está falando — murmurou alguém perto da câmera.

— Não parece alguém que decorou texto — respondeu outro.

O diretor de fotografia ajustou o enquadramento e fez um gesto discreto para o operador.

— Vamos manter planos mais longos — decidiu. — Ela sustenta.

A equipe esqueceu as pranchetas por alguns segundos.

— Corta — disse o diretor, após a primeira tomada. — Excelente.

Não houve correção. Apenas aprovação.

Um sorriso correu discreto entre os técnicos. Alguém assentiu, outro murmurou um “é isso”. Helena agradeceu com a cabeça, simples, sem comemorar.

Enquanto ajustavam a próxima cena, a produtora se aproximou dela.

— Confesso que achei que você ficaria mais nervosa.

Helena sorriu, sincera.

— Eu fiquei. Só não conta pra ninguém.

A mulher assentiu, visivelmente impressionada.

Diogo retocou a maquiagem dela e quando a gravação seguiu, já não havia curiosidade. Havia respeito.

...

Tudo o que Cássio queria era se esconder e esperar que tudo aquilo acabasse — ainda mais com o curativo no rosto que denunciava que seu orgulho havia sido ferido. Ainda assim, precisava trabalhar. Precisava manter algo de pé antes que até o pouco que restara também ruísse.

Depois de sair do Grupo Ferreira, seguiu para a própria empresa. Por onde passava, sua aparência chamava atenção e despertava murmúrios. Olhares curiosos, cochichos mal disfarçados. Diferente de como sempre fora, caminhava agora de cabeça baixa, levemente inclinada, tentando esconder o rosto.

Ao chegar à própria sala, foi surpreendido. Seu pai e sua mãe estavam ali, à sua espera.

As palavras atingiram Carlos em cheio. Doeram porque eram verdadeiras — e ambos sabiam disso.

— E agora, além de tudo… — Cássio continuou, passando a mão pelo rosto — vocês querem controlar a minha vida também?

Esther percebeu o perigo imediatamente. O medo de perder o conforto, o padrão de vida, falou mais alto do que o orgulho.

— Não é isso, meu filho — apressou-se em dizer. — Só queremos o que é melhor pra você.

Cássio soltou um riso curto, sem humor.

— Só quem sabe o que é melhor pra mim sou eu.

Carlos respirou fundo e mudou de estratégia, adotando um tom mais brando.

— Meu filho… Helena se foi. — disse, com firmeza calculada. — Se ainda restava alguma dúvida, a audiência acabou com ela. E agora você tem uma mulher ao seu lado. Uma mulher que te apoia na empresa, que gosta de você e que está esperando um filho seu.

Aquela frase foi o golpe final.

Cássio se deixou cair na cadeira. Apoiou os cotovelos na mesa e envolveu a cabeça com as mãos, derrotado. O corpo todo parecia pesado demais para sustentar qualquer reação.

Carlos percebeu a brecha e avançou.

— Você sabe que a empresa não está bem. Toda essa exposição, essa história de autoria das coleções… isso foi um golpe enorme. — inclinou-se para a frente. — E sua relação com a Silvia já veio à tona. A gravidez também. Se você não assumir isso publicamente, que tipo de imagem acha que vai conseguir sustentar?

O silêncio se espalhou pela sala.

Cássio fechou os olhos, sentindo o peso das escolhas se acumularem sobre ele como um teto prestes a desabar. Não havia mais espaço para desejo, arrependimento ou dúvida.

Havia apenas consequência.

— Vocês não estão preocupados comigo — murmurou, enfim. — Estão preocupados com o que sobra de mim.

Nenhum dos dois respondeu.

Cássio entendeu algo que talvez fosse ainda mais doloroso do que perder Helena: Nunca fora amor o que o mantivera ali. Para os pais, sempre fora utilidade.

Ainda assim, Cássio não conseguia apontar um único erro no que Carlos havia dito. Tudo aquilo era consequência direta de suas próprias escolhas. Ele mesmo cavara a própria cova.

A frase “colhemos o que plantamos” nunca lhe parecera tão literal.

— Está bem — disse, por fim, derrotado, a voz mais baixa que um sussurro. — Prepare o casamento.

Esther conteve o impulso imediato de comemorar. Limitou-se a respirar fundo, como quem vence uma batalha sem alarde. Carlos, por sua vez, endireitou a postura, satisfeito, e tratou de reafirmar o controle.

— Você vai ver que isso é o melhor a fazer, meu filho.

Cássio não respondeu.

Manteve o olhar fixo em um ponto indefinido da mesa, sentindo algo se fechar dentro de si — não como aceitação, mas como desistência. Não havia paz naquela decisão. Apenas cansaço.

E, enquanto seus pais já começavam a falar em datas, listas e aparências, um pensamento atravessou sua mente com clareza incômoda:

Casamentos podem ser arranjados.

Mas verdades… sempre encontram um jeito de vir à tona.

E, em algum lugar fora daquela sala, o futuro já se movia — silencioso, implacável — preparando o próximo golpe.

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