Um nome conhecido em todas as rodas de arte e colecionismo, galerista e mecenas de renome, Santiago Villar era um homem cuja presença sempre impunha respeito.
Helena não era uma estranha para ele.
Bons anos antes, quando ainda estudavam na mesma faculdade, Santiago já havia notado aquela linda jovem de olhar atento e mãos que pareciam compreender o mundo através das cores.
Ela era alguns anos mais nova, mas havia nela uma força criativa rara, dessas que iluminam até mesmo os trabalhos mais simples.
E, embora tivesse vontade de se aproximar, conteve-se: havia em Helena uma reserva serena, uma muralha discreta que ele jamais ousou ultrapassar.
E ele se arrependeu amargamente disso.
O tempo passou, e a vida o levou para longe — para a frente das Galerias Villar, um império de arte e talento que herdara da família.
Ainda assim, Helena nunca lhe saiu da memória.
Acompanhou de longe seus passos, o sucesso do Studio Cassiani, e, principalmente, o homem com quem ela se casara: Cássio Amaral.
Santiago o conhecia bem — desde os tempos de juventude. Arrogante, presunçoso, sempre disposto a ocupar o centro das atenções, mas desprovido de qualquer talento real.
Sabia, com amarga clareza, que o verdadeiro brilho daquela empresa vinha das mãos e da mente de Helena.
E agora, vê-la ali — machucada, exposta à humilhação pública — despertou nele uma fúria contida, uma indignação silenciosa que fervia como um vulcão prestes a romper.
Helena virou-se, surpresa. O tempo pareceu congelar por um instante. Santiago.
Mais maduro, ainda mais bonito do que ela lembrava. O olhar sereno, o porte seguro... um homem que exalava controle, mas cuja calma escondia algo intensamente vivo, quase incendiário.
Ela não o via desde os tempos da escola. Jamais imaginara que o destino o traria de volta — e muito menos naquele cenário de humilhação, diante de todos.
Santiago deu alguns passos entre os vidros que dividiam os reservados, aproximando-se lentamente.
— Nunca imaginei que o famoso designer Cássio Amaral gostasse desse tipo de espetáculo em público.
Cássio virou-se, a surpresa mesclada com desconforto:
— Ora, ora... Santiago Villar. Que honra. Não sabia que andava frequentando lugares tão... populares. — O tom irônico soou como uma tentativa desesperada de recuperar o controle da situação.
Santiago sorriu de canto.
— Às vezes é preciso sair do pedestal para ver o que realmente acontece no chão. — E então, voltando-se para Helena, deu alguns passos firmes, envolvendo-a suavemente pelo ombro, transmitindo proteção sem invadir seu espaço. Suavizou a voz: — Você está bem?
Helena assentiu, mas sua voz falhou.
— Estou — respondeu, por fim, a voz serena. — Ou pelo menos… vou ficar.
Cássio, orgulhoso, pensava que poderia controlar tudo: Helena, os amigos, a amante, o ego inflado.
Mas a entrada de Santiago mudava o equilíbrio da cena.
E agora, vendo-o ali, envolvendo Helena de forma protetora, enquanto ela o olhava com o semblante impassível, frio como gelo, seu controle parecia se perder.
Retrucou de forma fria:
— Isso é assunto entre marido e mulher, não sei o que isso tem a ver com você!
Santiago quase riu com a tentativa pífia de Cássio de soar superior.
— Qualquer homem de verdade que presencia uma mulher sendo atacada covardemente por outro tem o dever de intervir — disse Santiago, com a voz firme, mas calma, cada palavra sendo lançada como uma faca contra o orgulho de Cássio.


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