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Quadros de um divórcio romance Capítulo 131

“Há perdas que não chegam com estrondo.

Elas se instalam devagar, enquanto acreditamos ter tempo.

Quando percebemos, não é mais sobre recuperar —

é apenas sobre reconhecer o que foi deixado para trás.

Algumas coisas não se perdem porque alguém as tomou,

mas porque foram ignoradas até não restar nada para salvar.”

Cássio não se sentiu aliviado quando os pais finalmente foram embora. O silêncio que ficou parecia ainda mais pesado. Usou o grande fluxo de trabalho como refúgio, escondendo-se atrás de planilhas, prazos e números para não encarar as próprias frustrações.

Permaneceu fechado em sua sala o dia inteiro. Não queria chamar mais atenção do que já havia chamado ao chegar — o curativo no rosto, os olhares curiosos, os cochichos ainda ecoavam.

De tempos em tempos, algum funcionário entrava para tratar de detalhes urgentes do lançamento da Coleção Inércia.

Inércia.

O nome da coleção lhe pareceu irônico demais naquele momento.

Já no meio da tarde, enquanto revisava os custos da campanha publicitária, dois toques firmes soaram na porta.

— Pode entrar! — gritou, sem erguer os olhos da tela, imaginando que fosse apenas mais alguém trazendo problemas para resolver.

A porta se abriu. Ele escutou passos, mas nenhuma palavra.

Antes mesmo de levantar o olhar, Cássio sentiu que aquela presença não fazia parte da rotina que ele tentava desesperadamente manter intacta naquele dia. Alguém acabara de atravessar a inércia que ele se esforçava tanto para sustentar.

Quando finalmente ergueu o olhar, Cássio encontrou Rogério e Consuelo parados a alguns metros da mesa, observando-o de cima com frieza.

Franziu o cenho — não por raiva, mas por genuína confusão ao reconhecer os antigos sogros.

— Vocês? — perguntou. — O que estão fazendo aqui?

— Viemos te lembrar de uma coisinha — respondeu Rogério, seco, sem rodeios.

Os pais de Helena aguardavam por aquele momento havia muito tempo. Estar frente a frente com o homem a quem haviam confiado a filha, certos de que ele cuidaria dela, era quase um ajuste de contas silencioso. O mesmo homem que, em vez disso, a apagara aos poucos. Que sugara a força vital da menina luminosa que criaram com tanto amor.

Agora, estavam ali para cobrar.

Vê-lo naquele estado — machucado, abatido, menor do que a imagem que sempre projetara — lhes causava uma satisfação agridoce. Saber que fora a própria filha quem o colocara naquela posição tornava a sensação ainda melhor.

Cássio já imaginava do que se tratava, mas preferiu ouvir da boca deles. Endireitou-se na cadeira, tentando recuperar algum controle que já não possuía.

— O quê?

Rogério deu um passo à frente e lançou uma pasta sobre a mesa. O som seco ecoou pela sala. Cássio não precisou abri-la para saber do que se tratava. Reconhecia aquele documento melhor do que gostaria: o antigo contrato de doação que recebera deles para abrir a empresa. O mesmo que continha a cláusula de ressarcimento caso ele traísse a filha deles.

Naquela época, amava Helena com uma convicção quase ingênua. Jamais se imaginara capaz de algo que pudesse feri-la. Nenhuma mulher chegava aos pés dela. A cláusula lhe parecera apenas uma formalidade exagerada, algo que nunca precisaria ser acionado.

E, ainda assim, ali estava ele.

Carregava o mesmo amor — intacto, insistente —, mas agora acompanhado da prova irrefutável de sua incapacidade de honrá-lo. Não decepcionara apenas Helena. Nem apenas as duas pessoas à sua frente.

Decepcionara o próprio Cássio de cinco anos atrás. Aquele que acreditava ser melhor do que realmente foi.

— Naquele evento — começou Rogério, a voz controlada — eu havia te dado um prazo de sete dias para arcar com a responsabilidade da cláusula de fidelidade descumprida. — Soltou um riso curto, carregado de ironia. — Mas, como você resolveu montar um circo com aquele pedido de anulação patético, preferi esperar. Esperei até você quebrar a cara com mais uma tentativa vil de controlar a nossa filha.

Cássio cerrou os dentes. O movimento tensionou os músculos do rosto ferido, fazendo o curativo repuxar.

— Vocês sempre foram contra o nosso casamento, não é? — perguntou, sem elevar a voz.

Havia tristeza ali. Um resquício de algo quebrado. Mas não despertou piedade alguma neles.

— Se éramos a favor ou contra, isso nunca foi o ponto — respondeu Consuelo, firme. — Helena, como qualquer pessoa, sempre teve o direito de fazer as próprias escolhas. E ela escolheu você.

Ela fez uma breve pausa, o olhar duro.

— Nós respeitamos essa escolha. Mesmo com o pressentimento de que você não seria bom para ela.

Capítulo 131 - Inércia 1

Capítulo 131 - Inércia 2

Capítulo 131 - Inércia 3

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