“A vida não pede permissão para começar.
Ela nasce mesmo quando o mundo ainda está em ruínas.
E, às vezes, é exatamente isso que a torna inevitável.”
O advogado pigarreou, a voz saindo mais baixa do que o habitual.
— Cássio… o que acabou de acontecer aqui?
Ele não respondeu. Apenas se recostou na cadeira, os olhos vazios, como alguém que já não tinha mais energia para lutar.
Riviera respirou fundo, fechou a porta com cuidado e avançou alguns passos.
Cássio desviou o olhar da passagem agora fechada.
— Fala — disse, seco.
Riviera hesitou por um segundo a mais do que o necessário.
— Helena… bem… recebemos a notificação oficial da ação referente às coleções.
— Nós já não esperávamos por isso? — Cássio respondeu, sem emoção.
— Não… quer dizer, sim. Mas...
— Anda — ele o interrompeu. — Arranca o curativo de uma vez. Não há nada que você possa dizer que possa deixar meu dia pior.
Riviera inspirou fundo.
— Eu já acessei o processo online. — Fez uma pausa curta, estratégica. — As provas apresentadas por ela são numerosas. Há pareceres de especialistas respeitados em diversas áreas, todos consultados durante o processo de criação e dispostos a depor como testemunhas. Há e-mails, registros de reuniões, trocas de mensagens… inclusive conversas diretas com o senhor, em que você cobra o andamento do trabalho.
Cássio fechou os olhos por um instante.
— A advogada dela não poupou esforços — continuou Riviera. — Enquanto isso, o que temos… — engoliu em seco — é basicamente a sua palavra.
O silêncio caiu pesado.
Cássio abriu os olhos devagar.
— Parece que menosprezei minha falta de sorte. Sempre tem como piorar.
— Há indícios fortes de apropriação indevida de autoria. — Riviera escolheu cada palavra. — Se o juiz entender que houve má-fé continuada, podemos estar falando não apenas de uma indenização astronômica… mas de sanções que atingem diretamente a empresa. A credibilidade. O direito de uso do próprio nome em novos projetos.
A cadeira rangeu quando Cássio se inclinou para frente, os cotovelos apoiados na mesa.
— Não é só isso… — Riviera disse, escolhendo as palavras com extremo cuidado.
Cássio soltou um riso amargo, sem humor algum.
— Nunca é, né? O que mais?
— Ela entrou com um pedido de revisão de bens.
Cássio ergueu a cabeça num sobressalto.
— Mas ela não pode fazer isso. — A voz saiu mais firme do que ele realmente se sentia. — Fomos casados em regime de separação total. Está tudo em meu nome.
Riviera assentiu, mas o gesto não trouxe alívio algum.
— Sim. Em tese. — Fez uma pausa curta. — Mas se um cônjuge comprovar que colaborou diretamente para os ganhos do outro, isso pode ser revisto judicialmente.
Cássio sentiu o estômago afundar.
— E nesse caso… — Riviera continuou — o próprio processo das coleções se torna peça-chave. Se o juiz reconhecer que a autoria é dela, isso automaticamente demonstra que parte substancial do patrimônio foi construída a partir do trabalho da Helena.
O corpo de Cássio perdeu a sustentação. A mente começou a refazer caminhos, cifras, imóveis, contratos, marcas — tudo agora sob uma luz diferente.
— Então… — murmurou, a voz quase inaudível — não é só dinheiro. Não é só imagem.
Riviera sustentou o olhar dele.
— É tudo. Inclusive a empresa.
Cássio fechou os olhos. Soltou um riso curto, sem humor.
— Então é isso. — Passou a mão pelo rosto. — Eu perdi a mulher, dinheiro… e agora vou perder tudo o que construí.
— Ainda temos uma opção — disse Riviera, com cautela. — Podemos tentar propor um acordo na audiência de mediação. Ou, se você concordar, tentar um acordo por fora. Se ela aceitar, pode desistir da ação, o que ao menos preservaria a imagem da empresa.
— O problema é que eu não tenho mais dinheiro suficiente pra negociar com ela. — Passou a mão pelos cabelos, o gesto nervoso. — Fui burro demais. Devia ter aceitado a proposta que ela fez naquele evento.
De repente, se perguntou se a visita dos ex-sogros naquele mesmo dia não havia sido proposital. O desespero começava a se enraizar no peito, sufocante.
Riviera hesitou.
— Na verdade… o valor referente ao processo das coleções não sairia do seu patrimônio pessoal.
Cássio ergueu o olhar.
— Como assim?
— As coleções foram registradas pelo CNPJ da empresa — explicou. — E a ação está sendo movida contra a pessoa jurídica, não contra você como pessoa física. Ou seja — completou Riviera — qualquer indenização, cessão de direitos ou restituição financeira sairia diretamente da empresa.
Cássio sentiu um frio percorrer-lhe a espinha.
— Então… — murmurou — se ela ganhar…
Riviera assentiu, grave.
— A empresa é quem paga.
A ficha começou a cair de verdade.
Inércia.
O lançamento.
Os investidores.
Tudo agora pendia por um fio.
Cássio se levantou devagar, caminhou até a janela e encarou a cidade novamente.
Riviera permaneceu em silêncio, esperando uma decisão do chefe.
Depois de um longo tempo em silêncio, ele finalmente falou:
— Veja com o financeiro quanto temos em ativos disponíveis em caixa. — A voz saiu baixa, quase sem cor. — Depois, entre em contato com a advogada dela e solicite uma reunião. Tente resolver isso o mais rápido possível.
— Sim, senhor. — respondeu Riviera prontamente, já se movendo para fora da sala.
Cássio permaneceu imóvel.
Mabe veio recebê-los abanando o rabo. Helena se agachou para acariciá-la, buscando naquele gesto simples um pouco de normalidade.
Ela então retirou o envelope da bolsa e sentou-se no sofá, segurando-o com apreensão. Santiago acomodou-se ao seu lado, alisando-lhe as costas num gesto calmo, quase cerimonial, e fez um leve aceno de incentivo.
Os dedos de Helena tremeram ao rasgar o lacre. O papel saiu devagar. O mundo pareceu suspender a respiração com ela.
— Certo… vamos lá então.
Santiago já não conseguia esconder a ansiedade que lutara tanto para conter.
Helena leu. Por um segundo infinito, não disse nada. Depois, levou a mão ao ventre e se virou para ele. Os olhos marejados e o sorriso trêmulo já diziam tudo — mas Santiago precisava ouvir.
— Eu vou ser pai?
Helena assentiu, as lágrimas finalmente transbordando.
— Vai.
O corpo dele ficou imóvel por um instante, assimilando a realidade.
— Eu vou ser pai — repetiu, em um sussurro incrédulo.
Então segurou o rosto dela e a cobriu de beijos, as palavras saindo misturadas às lágrimas compartilhadas.
— Eu vou ser pai… vamos ser pais. Você vai ser mãe. Você… você vai ser uma mãe incrível.
Helena ria em meio ao choro, enquanto ele continuava espalhando beijos por seu rosto.
Por fim, Santiago parou, segurou-lhe as bochechas e a encarou com intensidade.
— Você me faz o homem mais feliz do mundo, todos os dias. Eu amo você. Eu AMO você.
Abraçou-a com força.
— Como eu te amo…
— Eu também te amo — respondeu ela, a voz abafada contra o pescoço dele.
Santiago a ergueu do sofá e girou com ela no ar, tomado por uma alegria quase infantil. Quando finalmente a colocou de volta no chão, correu até a janela lateral que dava para o sobrado e gritou, sem se importar com quem pudesse ouvir:
— Eu vou ser pai!
Marcelo e Pedro, à janela do andar superior, trocaram um sorriso largo diante da empolgação contagiante do amigo.
Helena levou a mão ao ventre outra vez, ainda tentando compreender a nova vida que começava ali dentro. O riso foi se aquietando aos poucos, dando lugar a uma emoção funda, quase reverente.
Foi então que o celular de Santiago vibrou no bolso.
Ele ignorou no primeiro instante. Depois, o aparelho vibrou de novo. E mais uma vez.
Santiago franziu o cenho, pegando o telefone. O sorriso ainda estava ali — até seus olhos descerem para a tela.
O nome que aparecia fez algo gelar em sua espinha.
Ele levantou o olhar lentamente para Helena, o entusiasmo sendo atravessado por uma sombra súbita.
— Amor… — começou, a voz já diferente.
E, naquele segundo exato, Helena entendeu que, apesar da felicidade recém-nascida, o mundo não tinha terminado de cobrar o que ainda estava por vir.

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