“Quando o amor já não é possível,
as pessoas chamam de escolha aquilo que é apenas rendição.”
Silvia estava sentada em sua sala, o computador ligado à sua frente, mas a atenção não estava ali. Carregava um vazio estranho no peito, oco, como uma casca de ovo sem nada dentro.
Helena, ao que tudo indicava, havia saído definitivamente do jogo. Ainda assim, permanecia como uma ameaça constante. Mesmo sem possibilidade de retorno, continuava impregnada na mente e no coração de Cássio. O estado em que ele ficara na noite anterior — largado, ferido, quebrado — era prova disso.
Silvia não suportou ficar mais tempo. Não preparou café, não encenou o papel de esposa dedicada naquela manhã. Estava cansada demais de repetir uma performance que já sabia não funcionar.
Pegou o celular, desejando pela primeira vez que ele vibrasse com uma ligação de Dante.
A batida na porta a arrancou da inércia.
— Entre! — gritou, sem se levantar, já erguendo o rosto.
Esther entrou, e o cansaço de Silvia se aprofundou. Não tinha a menor paciência para aquela mulher naquele momento. Ainda assim, forçou um sorriso frágil, pouco convincente.
— Esther… bom dia. O que faz aqui?
A mais velha reparou no semblante abatido da mulher, mas atribuiu aquilo aos acontecimentos recentes. Para ela, suportar tudo aquilo só reforçava a imagem de uma mulher resiliente.
— Silvia, minha querida. Bom dia.
O excesso de bom humor soou deslocado. Antes que Silvia pudesse dizer qualquer coisa, Esther continuou, animada demais para notar o desconforto alheio.
— Cássio finalmente concordou.
Silvia franziu levemente o cenho. Não entendeu.
— Eu e Carlos acabamos de conversar com ele — explicou Esther, aproximando-se. — Finalmente conseguimos trazê-lo à realidade. Ele aceitou se casar com você.
Disse isso batendo palminhas, satisfeita.
A informação atingiu Silvia de surpresa. Ela ficou imóvel por um instante, a boca entreaberta, sem qualquer reação exuberante. Durante toda a noite, havia tentado traçar seus próximos passos enquanto observava aquele homem embriagado e patético dormir. Não conseguira planejar nada. E agora, aquela mulher surgia ali anunciando que o que ela queria aconteceria sem que precisasse mover mais uma peça.
Era… conveniente.
Silvia engoliu o desgosto ao compreender a verdade por trás da decisão. Ele não aceitara por amor. Aceitara porque Helena se tornara inalcançável. O casamento era apenas uma obrigação — pelo bebê, pela exposição pública, pela manutenção das aparências.
Não por ela.
Silvia forçou-se a lembrar que não precisava de amor. Cássio seria apenas um degrau. Um meio para alcançar o que acreditava merecer. E quando estivesse onde queria, ele deixaria de ser necessário.
Após alguns segundos de silêncio, forçou um sorriso. Levantou-se e foi até Esther, segurando-lhe as mãos.
— É mesmo? — pediu, como se precisasse confirmar.
— Sim. Pode ficar tranquila — Esther respondeu, satisfeita. — Conheço meu filho. Ele só precisava de tempo… e de um empurrãozinho nosso.
— Não sei nem como agradecer.
Esther fez um gesto displicente.
— Não precisa. Agora temos que organizar tudo antes que sua barriga comece a aparecer.
— Obrigada — respondeu Silvia, com doçura ensaiada.
— Eu é que agradeço — completou Esther, bufando ao pensar em Helena. — Nos livrar daquela mulher sonsa foi o melhor favor que você podia nos ajudar a fazer.
Silvia manteve o sorriso no rosto. Por dentro, já contava os passos seguintes.
Silvia delegou o trabalho aos subordinados de seu setor, como sempre fazia. Raramente colocava a mão na massa — havia quem trabalhasse por ela — e dar ordens era outra coisa que descobrira gostar muito. Quase tanto quando o dinheiro, status e mordomias.
Saiu da empresa acompanhada de Esther, para tratar dos preparativos do casamento. Foram a uma empresa pomposa de eventos e passaram horas discutindo local, decoração, buffet. Silvia pouco precisou opinar. Esther, empolgada demais, escolhia tudo sozinha — sempre o mais caro, o mais vistoso, o mais luxuoso.
Mesmo sem amor, teria o casamento que julgava merecer. Seria vista. Admirada. Todos a enxergariam ocupando o lugar que acreditava ser seu por direito.
Após saírem de lá, combinaram visitar o local da cerimônia na manhã seguinte e seguiram para almoçar.
Esther falava sem parar, tomada por uma empolgação quase juvenil, como se o casamento fosse dela. Silvia limitou-se a sorrir, assentindo nos momentos certos, fingindo atenção.
Mas, por dentro, sua mente estava longe dali — presa à imagem de Cássio. Tentava antecipar cada gesto, cada palavra, cada mudança de postura. Queria entender como ele passaria a tratá-la a partir daquele momento.
Ao retornar à empresa no meio da tarde, Silvia se viu parada diante da porta da sala dele. Por um instante, teve o impulso de entrar, de confirmar com os próprios olhos se aquela decisão havia mesmo sido tomada. Mas recuou. Ainda não era hora de confrontos. Precisava ser paciente. Submissa.
— Meu cliente gostaria de fazer uma proposta à senhora Helena para encerrarmos de vez essa situação.
Lívia inclinou levemente a cabeça, o tom imediatamente afiado.
— Pelo que me lembro, minha cliente já fez uma proposta bastante generosa durante o evento — e foi recusada.
Riviera hesitou. A resposta demorou um segundo a mais do que deveria.
— Aquilo… aquilo foi um erro, doutora. Meu cliente consegue ver isso agora.
Lívia soltou um riso curto, quase divertido.
— Que pena. Eu avisei naquele dia que ele não teria outra chance.
Riviera retomou o tom técnico, mas havia algo de quase suplicante por baixo da formalidade.
— Dra. Lívia, hoje conseguimos compreender a dimensão do gesto que sua cliente fez naquela ocasião. Reconheço que deixamos isso se arrastar, mas acredito que um acordo entre as partes ainda seja o caminho mais sensato. Uma exposição pública prolongada pode ser prejudicial — não apenas ao meu cliente, mas também à sua.
Lívia ficou em silêncio por alguns segundos. Pensou na audiência do dia anterior, no quanto Helena saíra exausta, drenada. Tudo o que a amiga queria era virar a página. Seguir. Se levasse o processo adiante, poderia arrancar muito mais do que um acordo. Mas a que custo? E se Helena estivesse mesmo grávida…
— O que você propõe? — perguntou, finalmente.
Do outro lado da linha, Riviera soltou o ar que parecia prender desde o início da ligação.
— Um acordo financeiro robusto, confidencial, com quitação total das ações em curso — respondeu com cuidado. — Sem novas audiências. Sem novos desgastes.
Lívia apoiou-se na mesa, os dedos tamborilando de leve.
— Envie a proposta por escrito — disse, firme. — Eu avalio e levo à minha cliente. Mas já adianto: não será nos termos que ele gostaria. Será nos termos que ela aceitar.
— Entendo — respondeu Riviera rapidamente. — Farei isso ainda hoje.
Lívia desligou sem se despedir. Pegou a bolsa, já se dirigindo à porta.
Enquanto caminhava pelo corredor do escritório, uma coisa estava clara em sua mente: se aquele acordo acontecesse, não seria por conveniência de Cássio — seria por proteção a Helena. E, se ele tentasse jogar sujo mais uma vez, ela faria questão de lembrar por que sua fama vinha sendo tão bem construída.

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