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Quadros de um divórcio romance Capítulo 134

“Toda tela tem um ponto em que a tinta ainda está fresca demais para suportar outra camada.”

Cássio mal podia esperar para chegar em casa e deixar aquele dia para trás. A cabeça latejava; o analgésico da manhã já perdia o efeito. Riviera o informara que havia contatado a advogada de Helena e que aguardava resposta. O trabalho seguia dentro do prazo — não havia muito mais a fazer.

Ao entrar no elevador para ir embora, uma mão surgiu entre as portas em movimento, impedindo que se fechassem. Quando se abriram novamente, Silvia estava do outro lado.

Ela fingiu constrangimento pela interrupção, sorriu de leve e pediu desculpas antes de entrar. Permaneceu quieta ao lado dele enquanto as portas tornavam a se fechar.

Para Cássio, ela parecia diferente — talvez triste. Provavelmente pelo modo como ele a vinha tratando nos últimos dias. Afinal, que mulher suportaria ficar ao lado de alguém enquanto ele corre atrás de outra?

Uma pontada de culpa e vergonha o alcançou.

— Sobre ontem… obrigada por cuidar de mim — disse ele, sem graça.

— Não se preocupe com isso — respondeu ela, num sussurro.

O elevador descia.

— Vem para casa comigo hoje?

Silvia hesitou, ensaiando o tom exato.

— Acho que não seria correto. Não quero ir para lá hoje para ter que recolher minhas coisas e sair amanhã.

A autopiedade saiu perfeita, atingindo-o onde pretendia.

— Me desculpa, eu…

Antes que completasse, o elevador se abriu na garagem. Silvia deu alguns passos para fora, afastando-se dele, a mão pousando instintivamente sobre o ventre.

— Eu estava errado, está bem? — ele disse, apressado. — Não deveria ter te tratado assim. Apenas… vem comigo. Precisamos conversar.

Ela se virou, o olhar indeciso calculado com cuidado. Deixou o silêncio trabalhar por um segundo a mais — e então cedeu.

— Está bem.

A viagem seguiu sem ruídos. Cássio manteve a cabeça apoiada no encosto, os olhos fechados, enquanto o motorista conduzia o carro pelas ruas. O cansaço pesava no corpo, mas a mente não encontrava descanso.

Silvia, ao seu lado, parecia indiferente. Por dentro, sorria. A vida enfim seguia para o fim queria, embora não fosse da maneira que havia almejado.

Assim que entraram em casa, foi ela quem quebrou falou primeiro, adotando um tom contido, quase defensivo.

— Sobre o que você queria conversar?

Cássio a conduziu até o sofá, pedindo com um gesto para que se sentasse. Ela obedeceu sem resistência. Ele acomodou-se ao seu lado, respirou fundo, como quem ainda buscava as palavras certas — ou a coragem para dizê-las.

— Olha… — ele começou, passando a mão pelo rosto, exausto — vou tentar ser o mais sincero possível. Aprendi da pior maneira que qualquer coisa diferente disso só torna tudo mais difícil.

Silvia manteve a cabeça baixa, o olhar fixo no chão, como se estivesse absorvendo cada palavra com humildade.

— Eu não amo você — ele continuou, a frase pesada demais para o ambiente. — Mas sei que tenho responsabilidades a assumir com você. E com essa criança.

Por mais que já tivesse definido que amor não importava, ouvi-lo dizer em voz alta que não a amava ainda ardia.

— Conversei com meus pais hoje — prosseguiu ele. — E… se você ainda estiver disposta, podemos nos casar. Criar essa criança juntos.

Ele finalmente a olhou.

— Mas vou deixar a decisão em suas mãos.

Silvia inspirou devagar, como se estivesse lutando contra uma emoção forte. Quando ergueu o rosto, os olhos brilhavam — não de alegria plena, mas de algo que parecia coragem.

— Nem todo amor é um conto de fadas que acontece à primeira vista — disse ela, em tom suave, quase reconfortante. — Alguns nascem da convivência.

Ele se manteve em silêncio mesmo sabendo que isso nunca aconteceria.

Silvia pousou a mão sobre o ventre.

— Eu quero dar ao nosso filho uma família. E, se esse é o caminho que você está disposto a seguir… eu aceito.

Cássio fechou os olhos por um instante, atravessado por uma sensação incômoda que não soube nomear.

Silvia aproximou-se um pouco mais no sofá, apoiando a cabeça em seu ombro.

— Vamos fazer isso dar certo — murmurou.

Ele assentiu.

— Já que estamos resolvidos, vou tomar um banho e me deitar. O dia foi longo demais.

Subiu as escadas resignado. Se era aquela vida que lhe restara, então teria que aceitar.

...

Assim que Santiago desligou a ligação, Helena percebeu de imediato a sombra que atravessara seu rosto.

— O que houve?

Antes que ele pudesse responder, batidas firmes ecoaram na porta. Marcelo e Pedro entraram logo em seguida, trazendo consigo uma energia completamente diferente.

— Parabéns, papais! — disse Marcelo, sorrindo largo enquanto abraçava primeiro Santiago e depois Helena.

Pedro repetiu o gesto e, antes de se afastar dela totalmente, falou em tom sério, quase protetor:

— Agora, dona mocinha, você vai ter que se cuidar ainda mais.

Helena assentiu, mas havia algo fora do lugar. Seu semblante estava tenso — e o de Santiago também.

Marcelo foi o primeiro a notar.

— Ei… cadê o sujeito que estava gritando agorinha pela janela que ia ser pai? O que aconteceu?

Santiago respirou fundo, deixando o tempo se alongar. Não queria macular aquele momento. Sabia que Helena precisava de paz. Ainda assim, prometera a si mesmo não esconder mais nada dela. Ela tinha o direito de saber.

— Recebi uma ligação da delegacia — disse por fim. — Eles identificaram o dono das digitais encontradas na mangueira do gás.

Capítulo 134 - Pigmento instável 1

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