“Quem escapa do perigo vive a vida com outra intensidade.” Machado de Assis
Quando voltaram para dentro, Helena parecia um pouco mais calma.
Desde o divórcio, vinha se mostrando cada vez mais forte. Ainda assim, nos últimos dias, aquela segurança inabalável dava sinais de cansaço. Talvez fossem os hormônios da gravidez. Talvez fosse apenas o peso de tudo o que havia vivido. E, mesmo que não fosse nada disso, quem poderia julgá-la?
Helena atravessara um inferno. E, embora tivesse decidido se libertar dele, a sombra ainda insistia em segui-la.
Lívia se ajoelhou à sua frente, pousando a cabeça em seu colo e envolvendo-a num abraço apertado.
— Ô, minha amiga… vai ficar tudo bem. Você vai ver!
Santiago se levantou para dar espaço às duas.
Helena passou a mão pelos cabelos de Lívia num gesto quase maternal, como se fosse a amiga quem precisasse de amparo — e não ela.
Lívia ergueu o rosto para encará-la.
— Pensa pelo lado positivo. Pelo menos agora a polícia tem por onde começar a investigar.
— Você tem razão — Helena respondeu, assentindo devagar.
Lívia inclinou a cabeça, os olhos ainda brilhando com a curiosidade que não conseguia conter.
— Você ainda não me contou o resultado do exame…
Helena deixou escapar um sorriso verdadeiro, daqueles que vinham do fundo do peito. Conhecia Lívia melhor do que ninguém. Sabia que, muito provavelmente, a amiga passara o dia inteiro mais ansiosa com o resultado do que ela própria.
Levou a mão ao ventre num gesto instintivo e, antes de responder, deixou o silêncio provocar.
— Você vai ser titia.
Lívia piscou uma vez. Duas.
— O quê?
No segundo seguinte, o peso que pairava no ambiente simplesmente se estilhaçou.
— NÃO! — ela gritou, pulando do chão como se tivesse levado um choque. — MENTIRA! VOCÊ TÁ GRÁVIDA?!
Antes que Helena pudesse responder qualquer coisa, Lívia já estava de pé, rindo, chorando e falando tudo ao mesmo tempo. A reação da amiga também fez seus olhos marejarem.
— EU SABIA! — Lívia apontou para o ventre de Helena. — EU SABIA! Meu sexto sentido nunca falha! Eu vou ser a tia mais maravilhosa desse planeta, entendeu? A tia que compra presentes barulhentos, ensina palavrão escondido e ainda defende na escola se precisar!
Helena riu, sentindo o nó no peito afrouxar de vez.
Lívia se jogou ao lado dela abraçou-a com força.
— Ai, Helena… — a voz saiu embargada, mas feliz. — Depois de tudo o que você passou, a vida te mandou um milagre. Um do tamanho do universo.
Ela se afastou um pouco, enxugando o rosto às pressas.
O riso voltou a circular pela sala, leve, quase curativo. Até Helena ir silenciando aos poucos, o olhar se perdendo em algum ponto invisível.
— Eu só queria que toda essa confusão acabasse logo — disse, baixa.
Lívia aproveitou a fresta.
— Sobre isso… — começou já mudando o tom. — O Riviera me ligou hoje.
Helena franziu o cenho enquanto Lívia caminhava até a mesa onde deixara a bolsa. Tirou de dentro alguns papéis dobrados e voltou, estendendo-os à amiga.
— Como eu previa, eles foram notificados hoje. O que eu não esperava é que o Cássio fosse propor um acordo.
Helena desdobrou as folhas, passando os olhos rapidamente pelo conteúdo. Antes mesmo que dissesse algo, Santiago bufou, irritado.
— Claro. Ele quer estancar a exposição antes que isso vire um escândalo ainda maior.
— Exatamente — concordou Lívia. — O problema é que a proposta é ridícula. Trinta milhões. Se seguirmos com o processo, temos margem real para chegar a um valor dez vezes maior.
Helena ergueu o olhar, surpresa.
— Dez vezes?
— Sim — confirmou Lívia, didática. — Ele começou abaixo do que pedimos no evento para ter espaço de negociação. É estratégia. E, sendo bem honesta, ele sabe que, se isso for até o fim, perde muito mais — financeiramente e em imagem. Por isso, é bem provável que aceite pagar mais.
Helena respirou fundo, sentindo o peso da decisão se instalar novamente.
— E o que você acha? — perguntou, por fim.
Lívia a encarou com seriedade, mas sem dureza.
— Eu acho que você tem duas opções legítimas. Ganhar muito mais dinheiro… ou ganhar paz mais rápido. A escolha não é jurídica. É sua.
— E como negociamos isso? — perguntou Helena, ainda com os olhos nos papéis.
— Podemos marcar uma reunião… — começou Lívia.
— De jeito nenhum! — Santiago interrompeu, aflito. — Não depois do que aconteceu na audiência. Se dentro de um fórum ele teve coragem de fazer o que fez, imagina numa reunião.
— Calma — respondeu Lívia, já antecipando a reação. — Eu pensei nisso. Podemos fazer a reunião por videochamada.
A proposta pareceu aliviar o futuro pai.
Helena permaneceu em silêncio por longos segundos, pesando as opções. Queria lutar por seus direitos, por anos de trabalho roubado. Mas também queria virar a página. Agora carregava uma vida dentro de si — e tinha pressa de proteger o que vinha pela frente.
Havia ainda a empresa. Embora levasse o nome dele, não era sobre Cássio. Era sobre o que ela construíra. Sobre os funcionários, pais e mães de família que não tinham culpa de nada. Ver tudo ruir seria doloroso demais.
Helena sentiu um frio subir pela espinha.
A ameaça, até então difusa, começava finalmente a ganhar contornos reais.
— Consegue descobrir mais alguma coisa? — perguntou Santiago.
— Por enquanto, pouco — respondeu Marcelo. — Pelo que me disseram, sexta-feira é o lançamento da nova coleção deles, e a fábrica só volta a operar na segunda. Aí sim fica mais fácil levantar informações. Até lá, estamos de mãos atadas… a menos que a polícia avance antes.
Pedro, que permanecera quieto, atento a cada detalhe, finalmente se manifestou:
— Você disse que ele mandava quase todo mundo sair — enfatizou. — Quase todo mundo não é todo mundo. Se esse Márcio desapareceu, talvez o caminho seja investigar quem ficava com ele à noite. Quem participava do que quer que estivesse acontecendo ali.
Marcelo arregalou os olhos por um segundo — e então abriu um sorriso curto, elétrico.
— Como é que eu não pensei nisso antes?
Ele já estava pegando o telefone outra vez, a mente funcionando a mil.
— Se alguém sabe o que ele fazia, são essas pessoas. E gente que ajuda a esconder coisas… quase sempre acaba falando quando percebe que pode sobrar para ela.
Todos finalmente sentiram que estavam começando a puxar o fio certo.
No meio da conversa, um ronco alto vindo da barriga de Helena chamou a atenção de todos.
Pedro arqueou uma sobrancelha, divertindo-se.
— Parece que tem alguém com fome de novo.
— Ei, nem começa — defendeu-se Helena, já rindo. — Agora eu preciso comer por dois.
Passou a mão pela barriga tentando reafirmar sua justificativa.
— E o que você deseja? — perguntou Santiago, puxando-a para mais perto de si.
Ela fingiu pensar por um segundo.
— Hummm… que tal pedirmos uns calzones?
Mabe latiu imediatamente, como se estivesse votando a favor.
— Pra você não, mocinha — repreendeu Santiago, apontando para a cadela.
A pastora se encolheu, soltando um choramingo indignado, arrancando risadas de todos.
Por alguns instantes, o peso que pairava sobre a casa se dissipou.
Entre risos, fome e planos simples, a vida lembrava — gentilmente — que ainda havia espaço para normalidade.

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