“Mesmo cercada de sombras, a vida encontra um jeito de crescer em direção à luz.”
Já deitados, Helena se aninhou contra o peito de Santiago. A mão desenhava círculos lentos sobre a barriga ainda lisa, como se tentasse assimilar aquela novidade.
— É surpreendente pensar que tem um serzinho crescendo aqui — murmurou.
Santiago beijou-lhe a testa, demorando um pouco mais do que o necessário.
— Uma pena não termos conseguido comemorar isso direito.
Helena suspirou, o ar saindo pesado.
— Será que tudo isso vai acabar algum dia?
— Vai, sim — respondeu ele, com a calma de quem precisa acreditar no que diz. — Não existe tempestade que dure para sempre.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, depois deixou escapar o que realmente a inquietava.
— Eu só não consigo entender… quem poderia querer me fazer mal assim? E por quê?
Santiago perdeu o olhar em algum ponto qualquer. Não fazia muito tempo que era parte da vida dela, mas já a conhecia o suficiente para saber: Helena não era alguém que provocasse ódio, muito menos a ponto de alguém desejar sua morte.
— A gente vai descobrir — disse por fim, também acariciando a barriga dela com cuidado. — E, se Deus quiser, tudo isso vai ficar para trás. Vamos criar esse feijãozinho livre, seguro… e feliz.
— Eu preciso contar para os meus pais — disse Helena, ainda com a mão sobre a barriga. — Eles vão surtar.
— Quando você pretende fazer isso? — perguntou Santiago.
— Já mandei mensagem pra minha mãe. Combinei com eles de virem tomar café amanhã. Preciso ser mais rápida do que a linguaruda da Lívia pelo menos nisso.
Santiago pensou por um instante.
— Você acha que eles podem ficar chateados? Quer dizer… um filho fora do casamento…
— Não — respondeu ela com segurança. — Eles sempre quiseram um netinho. E não é como se a gente fosse namorar pro resto da vida.
— Senhora Duarte… — ele disse, fingindo-se ofendido. — Mesmo depois que nos casarmos, você vai ser minha eterna namorada.
Helena riu.
— Bobo. Você entendeu o que eu quis dizer! — Depois ficou pensativa. — E seus pais? Eu nem cheguei a conhecê-los ainda… e ser apresentada já grávida… — a ansiedade escapou na voz.
— Não se preocupa — ele respondeu, tranquilo. — Eles vão amar você.
— Como você pode ter tanta certeza?
— Porque você me faz feliz — disse, simples, antes de roubar-lhe um beijo. — Que pais não amam alguém que faz o filho se sentir tão feliz quanto você me faz?
Ela ainda parecia um pouco insegura.
— Eles estão em Paris agora — continuou Santiago. — Foram para o Art Basel e acabaram ficando para outros eventos. A verdade é que desde que assumi os negócios, passam mais tempo viajando, sempre com a desculpa de descobrir novos artistas para a empresa. — Ele sorriu de lado. — Mas acho que agora eles vão ter um ótimo motivo para voltar.
Helena começou a sorrir, mas o gesto foi interrompido por um bocejo involuntário.
— Vamos dormir. Você precisa descansar. _ disse Santiago vendo o cansaço estampado no rosto dela.
Ela não resistiu. Apenas acomodou a cabeça no ombro dele e, em poucos instantes, o corpo relaxou por completo, rendido ao sono.
...
Na manhã seguinte, já sentados à mesa, Helena segurava um copo de suco enquanto observava os pais, que tomavam café com tranquilidade, alheios à tensão que crescia dentro dela.
Santiago, por outro lado, estava visivelmente nervoso. Quando Consuelo pediu que ele passasse a manteiga, esticou o braço rápido demais e acabou esbarrando na cesta de pão de queijo. As bolinhas douradas rolaram pela mesa — uma delas despencou no chão.
A expressão que ele fez foi, no mínimo, engraçada. Olhou sem jeito do pão de queijo caído para os sogros, como se tivesse cometido um crime grave.
— Está tudo bem com você? — perguntou Rogério, curioso com o comportamento estranho.
— Sim! Está… está sim. Aqui, coma mais um.
Empurrou a cesta na direção de Consuelo com um sorriso tenso, enquanto Helena mordia o lábio para não rir.
Ela segurou a mão dele por baixo da mesa. A palma estava levemente suada. Era curioso — e até encantador — vê-lo daquele jeito. Parecia o mesmo Santiago nervoso que, no alto do mirante da fazenda, confessara ter a protegido em segredo.
Helena lançou-lhe um olhar demorado, carregado de admiração e ternura.
Os pais finalmente percebendo que estava acontecendo alguma coisa, trocaram um olhar entre si.
— Por que vocês dois estão tão estranhos hoje? — perguntou Consuelo, desconfiada.
Helena respirou fundo, apertou a mão de Santiago e ergueu o olhar.
— Pai… mãe… temos uma coisa pra contar pra vocês.
Rogério pousou a xícara com cuidado sobre o pires. Consuelo inclinou levemente a cabeça, atenta.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou a mãe, já num tom mais sério.
— Eu estou grávida. — Ela confessou sem anestesia.
Por um instante, ninguém reagiu.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio