“Há momentos em que não se trata de vencer — mas de saber onde parar o traço.”
Cássio acordou com o corpo pesado, como se tivesse dormido sob concreto. Cada movimento exigia esforço. Abriu os olhos devagar, sentindo o latejar familiar no nariz e uma pressão incômoda atrás dos olhos.
Pegou o celular sobre o criado-mudo. Uma notificação piscava na tela.
Riviera: “Reunião confirmada para hoje à tarde. Helena e a Dra. Lívia aceitaram conversar.”
Ele fechou os olhos por um instante mais longo do que o necessário. Levantou-se e seguiu até o banheiro, caminhando como quem atravessa um terreno instável. Diante do espelho, parou. Os hematomas sob os olhos estavam ainda mais evidentes — um degradê feio de roxo, verde e amarelo denunciando a violência recente. Tocou o curativo no nariz com cuidado; a dor respondeu imediata, viva.
Engoliu um analgésico a seco, sem água, como se merecesse o desconforto. Tomou banho rápido, vestiu-se mecanicamente, sem se reconhecer nos próprios gestos. Tudo nele parecia funcionar no automático, enquanto a mente se ocupava do que aquele dia ainda tomaria dele.
Ao descer, encontrou Silvia na cozinha. Já estava pronta para o trabalho, postura impecável, o celular apoiado na bancada enquanto aguardava a cafeteira terminar seu ciclo. O cheiro de café recém passado enchia o ambiente.
Seu destino com aquela mulher estava selado. Não havia mais motivo para resistência.
— Bom dia — disse, a voz baixa.
Ela se virou com um sorriso suave, ensaiado na medida certa.
— Bom dia, querido. Acordou melhor?
Ele assentiu de leve, aproximando-se da bancada.
— Um pouco.
Silvia observou seu rosto com atenção calculada, como quem avalia um objeto delicado.
— Você devia ir com calma hoje — comentou. — Seu corpo ainda está cobrando.
Cássio serviu-se de café, evitando o olhar dela.
— Tenho uma reunião importante à tarde.
— Imagino — respondeu ela. Fez uma pausa breve e calculada. — Vai me contar como conseguiu esses ferimentos?
Ele levou a xícara aos lábios, bebeu um gole pequeno para ganhar tempo.
— Não foi nada — disse por fim. — Só um acidente.
Silvia arqueou levemente a sobrancelha, mas não sorriu.
— Isso foi por causa da audiência? Foi o Santiago?
Cássio pousou a xícara com um pouco mais de força do que pretendia. O som seco ecoou na cozinha.
— Não. E não quero falar sobre isso.
Ela o observou em silêncio, observando-o como quem avalia o terreno antes de dar o próximo passo. Depois assentiu, compreensiva demais.
— Claro — disse suavemente. — Me desculpe.
Ele respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
— Já está pronta? Tenho muita coisa pra resolver na empresa.
— Sim, vamos.
Foram juntos para a empresa. O trajeto seguiu sem palavras. Depois que o motorista estacionou na garagem, subiram lado a lado até o último andar. Quando as portas do elevador se abriram, Silvia entrelaçou os dedos aos de Cássio.
O corpo dele enrijeceu no mesmo instante.
Fitou as mãos unidas, tomado por uma estranheza incômoda. A memória o puxou para outro tempo — ele e Helena caminhando diversas vezes assim, de mãos dadas, durante o primeiro ano de casamento, quando tudo ainda parecia leve. Agora aquilo estava distante demais. Nos últimos quatro anos, mal saíram juntos. E agora, justamente o que ele mais desejava recuperar… era o que jamais teria de volta.
Cássio balançou a cabeça de leve, expulsando o pensamento, e permitiu-se seguir até a sala com a mão presa à de Silvia.
A nova demonstração de proximidade não passou despercebida. Olhares se cruzaram. Vozes baixas surgiram aqui e ali. Os murmúrios se espalharam pelos corredores como uma praga silenciosa — dessas que não fazem barulho ao chegar, mas devastam tudo por onde passam.
— Eles estão mesmo juntos agora? — sussurrou uma assistente ao passar pela copa, fingindo atenção no celular.
— Ué… não era boato então? — respondeu outra, inclinando-se levemente para enxergar melhor. — Estão até de mãos dadas.
— Depois de tudo que saiu na internet, era questão de tempo — murmurou alguém mais atrás. — Traição, gravidez, escândalo… casamento resolve a imagem.
— Resolve pra quem? — rebateu uma voz baixa. — Ele tá com cara de quem perdeu uma guerra.
Cumprimentou um por um com simpatia, trocando apertos de mão, comentários rápidos, elogios sinceros aos esboços espalhados sobre a mesa. Não demorou para que o clima, já animado, ficasse ainda mais leve com sua presença.
— Dá vontade de ficar — comentou ela, observando os desenhos. — Mas infelizmente vou precisar roubar a mentora de vocês.
Helena riu, já se levantando.
— Pessoal, vou precisar me ausentar um pouco. Continuem com o trabalho.
Depois se virou para a amiga.
— Vamos para a minha sala.
— Sala própria? Que chique — brincou Lívia. — Já gostei.
— Eu nem a uso. — disse Helena rindo.
As duas seguiram, deixando para trás o burburinho criativo. A sala era um espaço elegante, organizado, mas claramente pouco vivido — a mesa quase intacta, poucas coisas pessoais, denunciavam que Helena preferia estar onde a criação pulsava, e não isolada atrás de uma porta fechada.
— E então? O que fazemos agora? — perguntou Helena, com a voz calma demais para quem sabia que talvez estivesse prestes a encerrar um capítulo inteiro da própria vida.
Lívia não respondeu de imediato. Puxou uma das cadeiras destinadas a visitantes e a posicionou ao lado da de Helena. Abriu a bolsa, retirou o notebook e o apoiou sobre a mesa com precisão. Em poucos cliques, acessou a plataforma de reuniões, digitou uma senha, conferiu a câmera. Depois abriu uma pasta física, espalhando alguns documentos cuidadosamente alinhados. Por fim, consultou o relógio no pulso.
— Ainda temos cinco minutos — disse, só então erguendo o olhar para a amiga.
Helena assentiu em silêncio. Inspirou fundo, sentindo o ar preencher os pulmões sem dificuldade. Era curioso como, depois de uma manhã inteira mergulhada em criação, ideias e traços novos, aquela reunião já não pesava como imaginara. O trabalho tinha feito o que sempre fazia: reorganizado seu mundo por dentro.
Não havia mais raiva. Nem ansiedade. Só uma firmeza tranquila.
— Seremos objetivas — completou Lívia pousando a mão sobre a de Helena. — Você não precisa se explicar, nem justificar nada. Esse acordo é mais importante para ele do que para você.
Helena sorriu tranquila. Grata por ter uma amiga tão boa com ela.
O aviso sonoro da plataforma piscou na tela. Um minuto restante.
Lívia ajeitou-se na cadeira e assumiu seu modo profissional — postura reta, olhar afiado, voz pronta. Helena, ao lado, apenas cruzou as mãos sobre a mesa, consciente de que não estava ali para se defender. Estava ali para decidir.

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