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Quadros de um divórcio romance Capítulo 137

“Há momentos em que não se trata de vencer — mas de saber onde parar o traço.”

Cássio acordou com o corpo pesado, como se tivesse dormido sob concreto. Cada movimento exigia esforço. Abriu os olhos devagar, sentindo o latejar familiar no nariz e uma pressão incômoda atrás dos olhos.

Pegou o celular sobre o criado-mudo. Uma notificação piscava na tela.

Riviera: “Reunião confirmada para hoje à tarde. Helena e a Dra. Lívia aceitaram conversar.”

Ele fechou os olhos por um instante mais longo do que o necessário. Levantou-se e seguiu até o banheiro, caminhando como quem atravessa um terreno instável. Diante do espelho, parou. Os hematomas sob os olhos estavam ainda mais evidentes — um degradê feio de roxo, verde e amarelo denunciando a violência recente. Tocou o curativo no nariz com cuidado; a dor respondeu imediata, viva.

Engoliu um analgésico a seco, sem água, como se merecesse o desconforto. Tomou banho rápido, vestiu-se mecanicamente, sem se reconhecer nos próprios gestos. Tudo nele parecia funcionar no automático, enquanto a mente se ocupava do que aquele dia ainda tomaria dele.

Ao descer, encontrou Silvia na cozinha. Já estava pronta para o trabalho, postura impecável, o celular apoiado na bancada enquanto aguardava a cafeteira terminar seu ciclo. O cheiro de café recém passado enchia o ambiente.

Seu destino com aquela mulher estava selado. Não havia mais motivo para resistência.

— Bom dia — disse, a voz baixa.

Ela se virou com um sorriso suave, ensaiado na medida certa.

— Bom dia, querido. Acordou melhor?

Ele assentiu de leve, aproximando-se da bancada.

— Um pouco.

Silvia observou seu rosto com atenção calculada, como quem avalia um objeto delicado.

— Você devia ir com calma hoje — comentou. — Seu corpo ainda está cobrando.

Cássio serviu-se de café, evitando o olhar dela.

— Tenho uma reunião importante à tarde.

— Imagino — respondeu ela. Fez uma pausa breve e calculada. — Vai me contar como conseguiu esses ferimentos?

Ele levou a xícara aos lábios, bebeu um gole pequeno para ganhar tempo.

— Não foi nada — disse por fim. — Só um acidente.

Silvia arqueou levemente a sobrancelha, mas não sorriu.

— Isso foi por causa da audiência? Foi o Santiago?

Cássio pousou a xícara com um pouco mais de força do que pretendia. O som seco ecoou na cozinha.

— Não. E não quero falar sobre isso.

Ela o observou em silêncio, observando-o como quem avalia o terreno antes de dar o próximo passo. Depois assentiu, compreensiva demais.

— Claro — disse suavemente. — Me desculpe.

Ele respirou fundo, passando a mão pelo rosto.

— Já está pronta? Tenho muita coisa pra resolver na empresa.

— Sim, vamos.

Foram juntos para a empresa. O trajeto seguiu sem palavras. Depois que o motorista estacionou na garagem, subiram lado a lado até o último andar. Quando as portas do elevador se abriram, Silvia entrelaçou os dedos aos de Cássio.

O corpo dele enrijeceu no mesmo instante.

Fitou as mãos unidas, tomado por uma estranheza incômoda. A memória o puxou para outro tempo — ele e Helena caminhando diversas vezes assim, de mãos dadas, durante o primeiro ano de casamento, quando tudo ainda parecia leve. Agora aquilo estava distante demais. Nos últimos quatro anos, mal saíram juntos. E agora, justamente o que ele mais desejava recuperar… era o que jamais teria de volta.

Cássio balançou a cabeça de leve, expulsando o pensamento, e permitiu-se seguir até a sala com a mão presa à de Silvia.

A nova demonstração de proximidade não passou despercebida. Olhares se cruzaram. Vozes baixas surgiram aqui e ali. Os murmúrios se espalharam pelos corredores como uma praga silenciosa — dessas que não fazem barulho ao chegar, mas devastam tudo por onde passam.

— Eles estão mesmo juntos agora? — sussurrou uma assistente ao passar pela copa, fingindo atenção no celular.

— Ué… não era boato então? — respondeu outra, inclinando-se levemente para enxergar melhor. — Estão até de mãos dadas.

— Depois de tudo que saiu na internet, era questão de tempo — murmurou alguém mais atrás. — Traição, gravidez, escândalo… casamento resolve a imagem.

— Resolve pra quem? — rebateu uma voz baixa. — Ele tá com cara de quem perdeu uma guerra.

Cumprimentou um por um com simpatia, trocando apertos de mão, comentários rápidos, elogios sinceros aos esboços espalhados sobre a mesa. Não demorou para que o clima, já animado, ficasse ainda mais leve com sua presença.

— Dá vontade de ficar — comentou ela, observando os desenhos. — Mas infelizmente vou precisar roubar a mentora de vocês.

Helena riu, já se levantando.

— Pessoal, vou precisar me ausentar um pouco. Continuem com o trabalho.

Depois se virou para a amiga.

— Vamos para a minha sala.

— Sala própria? Que chique — brincou Lívia. — Já gostei.

— Eu nem a uso. — disse Helena rindo.

As duas seguiram, deixando para trás o burburinho criativo. A sala era um espaço elegante, organizado, mas claramente pouco vivido — a mesa quase intacta, poucas coisas pessoais, denunciavam que Helena preferia estar onde a criação pulsava, e não isolada atrás de uma porta fechada.

— E então? O que fazemos agora? — perguntou Helena, com a voz calma demais para quem sabia que talvez estivesse prestes a encerrar um capítulo inteiro da própria vida.

Lívia não respondeu de imediato. Puxou uma das cadeiras destinadas a visitantes e a posicionou ao lado da de Helena. Abriu a bolsa, retirou o notebook e o apoiou sobre a mesa com precisão. Em poucos cliques, acessou a plataforma de reuniões, digitou uma senha, conferiu a câmera. Depois abriu uma pasta física, espalhando alguns documentos cuidadosamente alinhados. Por fim, consultou o relógio no pulso.

— Ainda temos cinco minutos — disse, só então erguendo o olhar para a amiga.

Helena assentiu em silêncio. Inspirou fundo, sentindo o ar preencher os pulmões sem dificuldade. Era curioso como, depois de uma manhã inteira mergulhada em criação, ideias e traços novos, aquela reunião já não pesava como imaginara. O trabalho tinha feito o que sempre fazia: reorganizado seu mundo por dentro.

Não havia mais raiva. Nem ansiedade. Só uma firmeza tranquila.

— Seremos objetivas — completou Lívia pousando a mão sobre a de Helena. — Você não precisa se explicar, nem justificar nada. Esse acordo é mais importante para ele do que para você.

Helena sorriu tranquila. Grata por ter uma amiga tão boa com ela.

O aviso sonoro da plataforma piscou na tela. Um minuto restante.

Lívia ajeitou-se na cadeira e assumiu seu modo profissional — postura reta, olhar afiado, voz pronta. Helena, ao lado, apenas cruzou as mãos sobre a mesa, consciente de que não estava ali para se defender. Estava ali para decidir.

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