“Quando a vida cobra, ela não pergunta se você está pronto. Ela só apresenta a conta e chama isso de justiça.”
Riviera estava visivelmente tenso enquanto ajustava o notebook ao lado de Cássio, na sala ampla e silenciosa. O chefe havia exigido discrição — e ele entendia o motivo. Aquela reunião teria impacto direto na empresa. Ainda assim, Riviera sabia que insistir num julgamento poderia ser devastador, talvez irreversível. Não era correto esconder nada de acionistas e investidores, mas, no fim, a hierarquia falava mais alto. Mandava quem podia; obedecia quem tinha juízo.
Quando puxou a cadeira para mais perto, Cássio o interrompeu, seco:
— Não quero aparecer na transmissão.
Riviera ergueu os olhos. Ao notar novamente os hematomas ainda marcados no rosto do chefe, compreendeu sem precisar perguntar.
— Tudo bem. Acredito que não será um problema — respondeu.
Reposicionou o computador, ajustando o enquadramento para que apenas ele aparecesse na tela. Em seguida, revisou seus arquivos.
De lado, Cássio observava em silêncio. A tela exibiu a contagem regressiva para o início da chamada. Sem desviar os olhos, ele levou o copo aos lábios e virou a dose de uísque que segurava de uma vez. O líquido queimou a garganta — precisava daquilo para atravessar o que vinha a seguir.
Quando a contagem chegou ao fim, a imagem do outro lado da tela carregou lentamente.
Lívia surgiu primeiro, impecável em um terninho bem cortado, postura firme, expressão segura. Mas Cássio mal registrou a presença dela. Seu olhar travou na mulher sentada ao lado.
Helena.
Ela parecia… serena. Radiante até. Vestia um chemise de laise em tom bege claro, o tecido leve acompanhando um corpo que agora carregava uma calma que ele não reconhecia mais. O rosto estava tranquilo, os olhos atentos, sem vestígios do caos que o consumia por dentro. Aquilo o atingiu com força. Como ela podia estar tão bem depois de tudo?
Mas o que realmente doía não era a imagem dela — era a certeza silenciosa por trás dela. Helena não o queria mais. Não havia dúvida, não havia retorno possível. O que existira entre os dois tinha, enfim, acabado.
Cássio desviou o olhar para o ambiente ao redor delas. Não reconhecia o lugar, mas era impossível não notar a elegância sóbria, as linhas limpas, a luz bem pensada. Talvez fosse o escritório daquela advogada irritante. Pensou, amargo, que se ela não tivesse orientado Helena a registrar as coleções, nada daquilo estaria acontecendo. Talvez não estivesse ali, encurralado. Talvez não tivesse perdido a mulher que amava.
Sabia que errara. Já aceitara isso. Ainda assim, vê-la inteira, firme, seguindo em frente enquanto a ausência dela o corroía por dentro despertava um ressentimento que ele não conseguia conter.
— Boa tarde — Lívia iniciou, direta, sem rodeios. — Onde está o seu cliente?
— Boa tarde — respondeu Riviera. — Ele está presente, mas prefere não aparecer na chamada, se isso não for um problema para vocês.
Lívia conteve um sorriso enviesado. Era fácil imaginar o motivo: os estragos ainda recentes da surra que Helena lhe dera certamente não eram algo que Cássio quisesse exibir. Lançou um olhar rápido à amiga. Helena apenas fez um leve gesto de indiferença. Não fazia questão alguma de vê-lo.
— Tudo bem — assentiu Lívia. — Apenas registro que esta reunião está sendo gravada.
— Sim — confirmou Riviera prontamente. — Estamos de acordo.
O desdém silencioso de Helena atingiu Cássio de um jeito inesperado. Deixava claro que ele já não ocupava lugar algum na vida dela.
— Helena… — começou ele, a voz mais baixa do que de costume.
— Não — interrompeu Lívia, sem elevar o tom. — Essa conversa é comigo.
O maxilar de Cássio se contraiu. Riviera lançou-lhe um olhar duro, um aviso mudo sobre o que estava em jogo.
— Claro — respondeu o advogado por ele. — Pedimos desculpas.
Lívia cruzou as mãos sobre a mesa.
— Vamos ao ponto. Seu advogado nos encaminhou uma proposta de acordo no valor de trinta milhões, com cláusula de confidencialidade e a extinção de todas as ações em curso.
— Exatamente — confirmou Riviera. — Entendemos que seja um valor justo, considerando o desgaste enfrentado por ambas as partes.
Helena manteve os olhos fixos na tela, impassível.
— Justo para quem? — questionou Lívia.
Riviera respirou fundo.
— Para evitar uma exposição prolongada. E… — hesitou por um instante — permitir que todos sigam em frente.
Lívia inclinou a cabeça de leve.
— Interessante — disse, após uma breve pausa. — Porque, pelo que vejo, essa proposta apenas reduz o impacto para o seu cliente. O valor que vocês oferecem é uma ofensa ao trabalho feito pela minha cliente por anos.
Cássio se mexeu na cadeira, incapaz de permanecer calado.
— Eu estou tentando resolver isso — disse, enfim. — Não quero mais conflitos.
Foi então que Helena falou, pela primeira vez.
— Resolver… — repetiu, com voz serena. — Não é o mesmo que reparar.
Ele engoliu em seco.
— Eu sei que errei — começou. — Eu…
Helena não reagiu. Nenhuma mudança no rosto. Nenhuma concessão.
— Se sabe — continuou ela, com a mesma calma firme —, então sabe também que essa proposta não chega nem perto do que foi tirado de mim.
Lívia retomou:
— Nós avaliamos os riscos. — Disse, objetiva. — Se os processos seguirem, não estamos falando apenas de indenização. Estamos falando de danos morais, revisão patrimonial e impacto direto na credibilidade da empresa.
O silêncio que se instalou do outro lado da tela foi denso, quase opressor. Cássio entrelaçou os dedos com força, os nós dos dedos esbranquiçando.
— Qual é o valor que vocês propõem? — perguntou Riviera, com cautela medida.


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