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Quadros de um divórcio romance Capítulo 138

“Quando a vida cobra, ela não pergunta se você está pronto. Ela só apresenta a conta e chama isso de justiça.”

Riviera estava visivelmente tenso enquanto ajustava o notebook ao lado de Cássio, na sala ampla e silenciosa. O chefe havia exigido discrição — e ele entendia o motivo. Aquela reunião teria impacto direto na empresa. Ainda assim, Riviera sabia que insistir num julgamento poderia ser devastador, talvez irreversível. Não era correto esconder nada de acionistas e investidores, mas, no fim, a hierarquia falava mais alto. Mandava quem podia; obedecia quem tinha juízo.

Quando puxou a cadeira para mais perto, Cássio o interrompeu, seco:

— Não quero aparecer na transmissão.

Riviera ergueu os olhos. Ao notar novamente os hematomas ainda marcados no rosto do chefe, compreendeu sem precisar perguntar.

— Tudo bem. Acredito que não será um problema — respondeu.

Reposicionou o computador, ajustando o enquadramento para que apenas ele aparecesse na tela. Em seguida, revisou seus arquivos.

De lado, Cássio observava em silêncio. A tela exibiu a contagem regressiva para o início da chamada. Sem desviar os olhos, ele levou o copo aos lábios e virou a dose de uísque que segurava de uma vez. O líquido queimou a garganta — precisava daquilo para atravessar o que vinha a seguir.

Quando a contagem chegou ao fim, a imagem do outro lado da tela carregou lentamente.

Lívia surgiu primeiro, impecável em um terninho bem cortado, postura firme, expressão segura. Mas Cássio mal registrou a presença dela. Seu olhar travou na mulher sentada ao lado.

Helena.

Ela parecia… serena. Radiante até. Vestia um chemise de laise em tom bege claro, o tecido leve acompanhando um corpo que agora carregava uma calma que ele não reconhecia mais. O rosto estava tranquilo, os olhos atentos, sem vestígios do caos que o consumia por dentro. Aquilo o atingiu com força. Como ela podia estar tão bem depois de tudo?

Mas o que realmente doía não era a imagem dela — era a certeza silenciosa por trás dela. Helena não o queria mais. Não havia dúvida, não havia retorno possível. O que existira entre os dois tinha, enfim, acabado.

Cássio desviou o olhar para o ambiente ao redor delas. Não reconhecia o lugar, mas era impossível não notar a elegância sóbria, as linhas limpas, a luz bem pensada. Talvez fosse o escritório daquela advogada irritante. Pensou, amargo, que se ela não tivesse orientado Helena a registrar as coleções, nada daquilo estaria acontecendo. Talvez não estivesse ali, encurralado. Talvez não tivesse perdido a mulher que amava.

Sabia que errara. Já aceitara isso. Ainda assim, vê-la inteira, firme, seguindo em frente enquanto a ausência dela o corroía por dentro despertava um ressentimento que ele não conseguia conter.

— Boa tarde — Lívia iniciou, direta, sem rodeios. — Onde está o seu cliente?

— Boa tarde — respondeu Riviera. — Ele está presente, mas prefere não aparecer na chamada, se isso não for um problema para vocês.

Lívia conteve um sorriso enviesado. Era fácil imaginar o motivo: os estragos ainda recentes da surra que Helena lhe dera certamente não eram algo que Cássio quisesse exibir. Lançou um olhar rápido à amiga. Helena apenas fez um leve gesto de indiferença. Não fazia questão alguma de vê-lo.

— Tudo bem — assentiu Lívia. — Apenas registro que esta reunião está sendo gravada.

— Sim — confirmou Riviera prontamente. — Estamos de acordo.

O desdém silencioso de Helena atingiu Cássio de um jeito inesperado. Deixava claro que ele já não ocupava lugar algum na vida dela.

— Helena… — começou ele, a voz mais baixa do que de costume.

— Não — interrompeu Lívia, sem elevar o tom. — Essa conversa é comigo.

O maxilar de Cássio se contraiu. Riviera lançou-lhe um olhar duro, um aviso mudo sobre o que estava em jogo.

— Claro — respondeu o advogado por ele. — Pedimos desculpas.

Lívia cruzou as mãos sobre a mesa.

— Vamos ao ponto. Seu advogado nos encaminhou uma proposta de acordo no valor de trinta milhões, com cláusula de confidencialidade e a extinção de todas as ações em curso.

— Exatamente — confirmou Riviera. — Entendemos que seja um valor justo, considerando o desgaste enfrentado por ambas as partes.

Helena manteve os olhos fixos na tela, impassível.

— Justo para quem? — questionou Lívia.

Riviera respirou fundo.

— Para evitar uma exposição prolongada. E… — hesitou por um instante — permitir que todos sigam em frente.

Lívia inclinou a cabeça de leve.

— Interessante — disse, após uma breve pausa. — Porque, pelo que vejo, essa proposta apenas reduz o impacto para o seu cliente. O valor que vocês oferecem é uma ofensa ao trabalho feito pela minha cliente por anos.

Cássio se mexeu na cadeira, incapaz de permanecer calado.

— Eu estou tentando resolver isso — disse, enfim. — Não quero mais conflitos.

Foi então que Helena falou, pela primeira vez.

— Resolver… — repetiu, com voz serena. — Não é o mesmo que reparar.

Ele engoliu em seco.

— Eu sei que errei — começou. — Eu…

Helena não reagiu. Nenhuma mudança no rosto. Nenhuma concessão.

— Se sabe — continuou ela, com a mesma calma firme —, então sabe também que essa proposta não chega nem perto do que foi tirado de mim.

Lívia retomou:

— Nós avaliamos os riscos. — Disse, objetiva. — Se os processos seguirem, não estamos falando apenas de indenização. Estamos falando de danos morais, revisão patrimonial e impacto direto na credibilidade da empresa.

O silêncio que se instalou do outro lado da tela foi denso, quase opressor. Cássio entrelaçou os dedos com força, os nós dos dedos esbranquiçando.

— Qual é o valor que vocês propõem? — perguntou Riviera, com cautela medida.

— Se eu aceitar… — escolheu as palavras com cuidado — manteremos a cláusula de confidencialidade?

— Não — respondeu Lívia imediatamente, sem deixar qualquer espaço para negociação.

Cássio franziu o cenho, surpreso.

— Se aceitássemos isso — continuou ela, firme —, a empresa seguiria produzindo os móveis, lucrando com eles, enquanto a imagem da minha cliente continuaria manchada. Você realmente acha justo que Helena não seja reconhecida como autora, nem sequer possa falar sobre o próprio trabalho, enquanto o Studio Cassiani continua agindo como se nada tivesse acontecido? Como se você ainda fosse o grande criador por trás de tudo?

Havia um deboche contido na última frase, afiado o suficiente para ferir.

Do outro lado da tela, embora invisível, o rubor de vergonha parecia inevitável.

— No entanto — Lívia completou, retomando o tom técnico —, minha cliente se compromete a não expor nada além do que já é objeto do processo. Desde que o Studio Cassiani — ou o senhor Amaral — não volte a denegrir seu nome ou a reivindicar qualquer autoria que não lhe pertença.

Helena manteve-se em silêncio. Não precisava acrescentar nada.

Riviera percebeu que aquela decisão não poderia ser tomada no impulso. Precisava orientar Cássio — e rápido.

— Precisamos de um tempo para analisar — pediu, com cautela profissional. — Retornamos em, no máximo, uma hora.

Lívia abriu a boca para responder, mas antes que o fizesse, a porta diante dela se abriu. Uma voz feminina atravessou o ambiente, baixa e respeitosa:

— Senhorita Helena, estamos com um impasse em um dos itens. Você pode nos ajudar um instante?

A frase caiu como uma lâmina do outro lado da tela.

Cássio franziu o cenho, o coração dando um solavanco seco. Senhorita Helena. O tom não era de alguém pedindo um favor — era de alguém recorrendo a uma autoridade. Uma chefe.

Ela estava trabalhando. Mas onde?

A mente dele correu rápido demais. Santiago. A galeria. A reportagem recente sobre o quadro dela na exposição. A possibilidade começou a se desenhar com um gosto amargo: Helena não apenas seguira em frente — ela ocupava espaço. Tinha voz. Tinha lugar.

A raiva veio quente. Até onde Santiago tinha ido para conquistá-la? Teria dado a ela um cargo, um nome, um palco? Algo que ele jamais fizera?

Antes que a especulação ganhasse forma, Lívia foi rápida.

— Certo, doutor. Vocês têm uma hora — respondeu, já estendendo a mão para encerrar.

A chamada foi finalizada sem cerimônia.

A tela escureceu.

Do lado de cá, Cássio permaneceu imóvel, olhando para o reflexo apagado no visor. Não era apenas o valor do acordo que o aterrorizava.

Era perceber que Helena provavelmente orbitava a vida de outro homem como uma vez orbitou a sua.

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