"Adoro ver a colheita alheia. Principalmente quando sei que a pessoa plantou veneno e agora quer reclamar do sabor."
Quando Helena ergueu o olhar, reconheceu Júlia, uma das colaboradoras do setor de criação, parada à porta com a expressão levemente apreensiva.
— Desculpe, não queria atrapalhar.
Como a chamada já havia sido encerrada e ainda teriam uma hora de espera, Helena levantou-se sem hesitar.
— Não tem problema. Vamos ver do que precisam— disse com naturalidade, seguindo a jovem.
Lívia caminhou atrás das duas, em silêncio. Observava a cena com um contentamento quase orgulhoso. Helena se movia naquele espaço com uma segurança tranquila, ouvindo, opinando, sugerindo ajustes como alguém que pertencia ali — e pertencia de verdade. Não havia esforço, nem pose. Apenas competência reconhecida.
As pessoas a escutavam. Concordavam. Anotavam. Respondiam com respeito.
Lívia sempre soubera da capacidade da amiga, mas testemunhar aquilo — ver outros olhos enxergando o que ela sempre enxergara — tinha um gosto especial. Era a confirmação silenciosa de que Helena não apenas sobrevivera a tudo o que lhe fora tirado.
...
Do outro lado da chamada encerrada, o silêncio se instalou pesado, quase físico.
Riviera ainda mantinha o notebook aberto, os dedos suspensos sobre o mouse, como se houvesse a possibilidade absurda de desfazer o que acabara de acontecer. Nenhum dos dois se mexeu por alguns segundos. O ar parecia comprimido dentro da sala.
Cássio foi o primeiro a reagir.
Levantou-se de forma abrupta, empurrando a cadeira para trás com força demais. O estalo seco ecoou pelo ambiente. Caminhou até a janela em passos largos, descompassados, e apoiou as duas mãos no vidro frio.
A cidade estava ali — viva, funcionando, indiferente.
— Noventa milhões… — balbuciou, mais para si do que para o advogado.
Riviera pigarreou, assumindo o tom técnico que sempre surgia quando o pânico ameaçava virar caos.
— Uma retirada desse valor não tem como passar despercebida — disse com cuidado. — Além disso, pode configurar abuso da personalidade jurídica. As consequências seriam graves nas esferas cível, criminal e fiscal.
Cássio fechou os olhos por um instante.
— E agora?
— Talvez seja possível vender algumas propriedades, injetar parte do valor… com alguém certo no financeiro, dá para ganhar tempo. Encobrir, ao menos temporariamente.
— Mesmo vendendo tudo o que é meu, não chega a isso — rebateu, sem virar o rosto.
Riviera hesitou.
— Então talvez seja o momento de ser transparente com o conselho.
Cássio girou sobre os calcanhares, o rosto vermelho, a voz explodindo:
— Você acha mesmo que eles me manteriam se soubessem de tudo? É claro que não! Eu seria descartado no mesmo dia!
O advogado sustentou o impacto e prosseguiu, firme:
— Mas se você retirar esse dinheiro do caixa, não vai sobrar o suficiente para cobrir os compromissos do mês. Fornecedores, produção, logística… como pretende manter a empresa funcionando?
Cássio passou a mão pelos cabelos, andando pela sala como um animal encurralado.
— Não tem outro jeito. — Respirou fundo. — Ainda temos tempo até o fechamento do balanço. Posso hipotecar a casa, fazer empréstimos, empurrar dívidas. Amanhã o lançamento da nova coleção entra em vigor, os pedidos começam a cair… vamos tapando o buraco enquanto isso.
Ele parou diante de Riviera, o olhar duro.
— Arrume alguém de confiança no financeiro. Agora. Não temos escolha. Ou fazemos isso, ou perdemos a empresa de vez.
Riviera já pensava em um nome. Pegou o celular e fez uma ligação curta.
Minutos depois, a porta se abriu.
Leônidas Sampaio, gerente financeiro, entrou na sala com passos contidos, o semblante atento demais para alguém que ainda não sabia do tamanho da bomba.
— O senhor pediu para me chamar? — perguntou, ajustando os óculos.
Cássio passou a mão pelo rosto. Os dedos tremeram levemente ao tocar o curativo no nariz. A dor veio como um lembrete físico de sua eminente queda.
— Precisamos movimentar uma quantia alta — disse, direto. — De forma discreta.
Leônidas franziu o cenho.
— Discreta quanto?
Riviera interveio:
— Noventa milhões.
O silêncio que se seguiu foi diferente dos anteriores. Mais denso. Mais definitivo.
— Isso… — Leônidas começou, escolhendo as palavras com extremo cuidado — compromete a liquidez da empresa de forma irreversível. Não existe engenharia contábil que torne isso invisível por muito tempo.
— Quanto tempo você consegue me dar? — perguntou Cássio, a voz já sem o verniz de empresário seguro.
Leônidas hesitou.
— Vinte dias, no máximo. Depois disso, o rombo aparece. E alguém vai ter que responder por ele.
A ironia o atingiu com força.
Ele riu novamente. Sozinho. Um riso quase descontrolado, pela lucidez tardia do absurdo. Um riso que assustava até ele mesmo.
O celular vibrou sobre a mesa.
Silvia.
Cássio encarou o aparelho como se fosse um objeto estranho. Não atendeu.
O telefone vibrou outra vez.
Ele o desligou.
Ele se lembrou, então, de que fora Silvia quem mais o incentivara a enfrentar os processos — segura demais de que Helena jamais teria provas da autoria das coleções. E ali estava ele agora, atolado até o pescoço no inferno que cavara.
Olhou para o relógio. Já havia passado mais de meia hora.
Apertou as laterais da cabeça, a dor latejando sem trégua, enquanto ouvia Riviera ao telefone, a voz baixa e objetiva:
— Sim. Venda tudo. O máximo possível. Em menos de vinte dias.
Quando a ligação foi encerrada, o advogado se virou para ele.
— E agora? O que mais podemos fazer?
Cássio respirou fundo, como se o ar não fosse suficiente.
— Amanhã é o lançamento da coleção Inércia. Não posso me ausentar. — Deu um murro seco na mesa, a frustração explodindo. — Depois disso é fim de semana, bancos fechados. Só na segunda vou conseguir ir atrás de empréstimos.
Riviera pensou rápido.
— Você pode adiantar as coisas. Mandar mensagens para seus agentes, pedir que deixem tudo analisado antes da sua ida. Isso ganha tempo.
Cássio passou a mão pelo rosto, exausto.
— Pode fazer isso por mim? — pediu, sem força. — Eu não estou com cabeça agora.
— Claro — assentiu Riviera, embora soubesse que estava atravessando áreas que não eram exatamente suas.
Cássio recostou-se na cadeira, os olhos perdidos no teto.
O tempo corria. As peças caíam uma a uma.
Ele percebeu que não estava apenas tentando salvar uma empresa — estava tentando sobreviver ao próprio colapso.

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