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Quadros de um divórcio romance Capítulo 139

"Adoro ver a colheita alheia. Principalmente quando sei que a pessoa plantou veneno e agora quer reclamar do sabor."

Quando Helena ergueu o olhar, reconheceu Júlia, uma das colaboradoras do setor de criação, parada à porta com a expressão levemente apreensiva.

— Desculpe, não queria atrapalhar.

Como a chamada já havia sido encerrada e ainda teriam uma hora de espera, Helena levantou-se sem hesitar.

— Não tem problema. Vamos ver do que precisam— disse com naturalidade, seguindo a jovem.

Lívia caminhou atrás das duas, em silêncio. Observava a cena com um contentamento quase orgulhoso. Helena se movia naquele espaço com uma segurança tranquila, ouvindo, opinando, sugerindo ajustes como alguém que pertencia ali — e pertencia de verdade. Não havia esforço, nem pose. Apenas competência reconhecida.

As pessoas a escutavam. Concordavam. Anotavam. Respondiam com respeito.

Lívia sempre soubera da capacidade da amiga, mas testemunhar aquilo — ver outros olhos enxergando o que ela sempre enxergara — tinha um gosto especial. Era a confirmação silenciosa de que Helena não apenas sobrevivera a tudo o que lhe fora tirado.

...

Do outro lado da chamada encerrada, o silêncio se instalou pesado, quase físico.

Riviera ainda mantinha o notebook aberto, os dedos suspensos sobre o mouse, como se houvesse a possibilidade absurda de desfazer o que acabara de acontecer. Nenhum dos dois se mexeu por alguns segundos. O ar parecia comprimido dentro da sala.

Cássio foi o primeiro a reagir.

Levantou-se de forma abrupta, empurrando a cadeira para trás com força demais. O estalo seco ecoou pelo ambiente. Caminhou até a janela em passos largos, descompassados, e apoiou as duas mãos no vidro frio.

A cidade estava ali — viva, funcionando, indiferente.

— Noventa milhões… — balbuciou, mais para si do que para o advogado.

Riviera pigarreou, assumindo o tom técnico que sempre surgia quando o pânico ameaçava virar caos.

— Uma retirada desse valor não tem como passar despercebida — disse com cuidado. — Além disso, pode configurar abuso da personalidade jurídica. As consequências seriam graves nas esferas cível, criminal e fiscal.

Cássio fechou os olhos por um instante.

— E agora?

— Talvez seja possível vender algumas propriedades, injetar parte do valor… com alguém certo no financeiro, dá para ganhar tempo. Encobrir, ao menos temporariamente.

— Mesmo vendendo tudo o que é meu, não chega a isso — rebateu, sem virar o rosto.

Riviera hesitou.

— Então talvez seja o momento de ser transparente com o conselho.

Cássio girou sobre os calcanhares, o rosto vermelho, a voz explodindo:

— Você acha mesmo que eles me manteriam se soubessem de tudo? É claro que não! Eu seria descartado no mesmo dia!

O advogado sustentou o impacto e prosseguiu, firme:

— Mas se você retirar esse dinheiro do caixa, não vai sobrar o suficiente para cobrir os compromissos do mês. Fornecedores, produção, logística… como pretende manter a empresa funcionando?

Cássio passou a mão pelos cabelos, andando pela sala como um animal encurralado.

— Não tem outro jeito. — Respirou fundo. — Ainda temos tempo até o fechamento do balanço. Posso hipotecar a casa, fazer empréstimos, empurrar dívidas. Amanhã o lançamento da nova coleção entra em vigor, os pedidos começam a cair… vamos tapando o buraco enquanto isso.

Ele parou diante de Riviera, o olhar duro.

— Arrume alguém de confiança no financeiro. Agora. Não temos escolha. Ou fazemos isso, ou perdemos a empresa de vez.

Riviera já pensava em um nome. Pegou o celular e fez uma ligação curta.

Minutos depois, a porta se abriu.

Leônidas Sampaio, gerente financeiro, entrou na sala com passos contidos, o semblante atento demais para alguém que ainda não sabia do tamanho da bomba.

— O senhor pediu para me chamar? — perguntou, ajustando os óculos.

Cássio passou a mão pelo rosto. Os dedos tremeram levemente ao tocar o curativo no nariz. A dor veio como um lembrete físico de sua eminente queda.

— Precisamos movimentar uma quantia alta — disse, direto. — De forma discreta.

Leônidas franziu o cenho.

— Discreta quanto?

Riviera interveio:

— Noventa milhões.

O silêncio que se seguiu foi diferente dos anteriores. Mais denso. Mais definitivo.

— Isso… — Leônidas começou, escolhendo as palavras com extremo cuidado — compromete a liquidez da empresa de forma irreversível. Não existe engenharia contábil que torne isso invisível por muito tempo.

— Quanto tempo você consegue me dar? — perguntou Cássio, a voz já sem o verniz de empresário seguro.

Leônidas hesitou.

— Vinte dias, no máximo. Depois disso, o rombo aparece. E alguém vai ter que responder por ele.

Capítulo 139 - Tela em colapso 1

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