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Quadros de um divórcio romance Capítulo 140

"O segredo da mudança não é focar na luta contra o velho, mas na construção do novo".

O tempo avançava sem qualquer piedade. Minutos que pareciam segundos até que Cássio estivesse novamente sentado ao lado de Riviera, encarando a tela vazia à espera da chamada.

Quando a imagem finalmente se iluminou, Helena surgiu do outro lado tão tranquila quanto antes.

Tantas vezes fora ele quem se mantivera impassível enquanto ela chorava, implorava, se explicava. Agora, com os papéis invertidos, havia algo dentro dele que não encontrava repouso.

Daria tudo para voltar ao que tinham antes. Mas aquela mulher não era mais a mesma — e isso o aterrava. A Helena que estivera em suas mãos não existia mais. A que estava diante dele agora parecia fora de alcance.

Ele soltou um suspiro contido, cuidando para que o microfone não denunciasse o caos interno.

Lívia não perdeu tempo. O tom era preciso, profissional, quase clínico.

— Então? — perguntou. — Qual foi a decisão do seu cliente, doutor Riviera?

Riviera pigarreou antes de responder, lançando um breve olhar para Cássio, como quem confirma silenciosamente.

— Após análise — começou —, meu cliente está disposto a aceitar os termos propostos. Noventa milhões, conforme solicitado.

Por um instante, o silêncio tomou conta da chamada.

Helena piscou devagar. Não havia triunfo em seu rosto. Apenas uma aceitação tranquila, quase triste.

— E o pagamento? — Lívia perguntou, direta.

Riviera respirou fundo antes de responder.

— Infelizmente, nesse horário os bancos já não processam transferências de valores tão altos. O depósito poderá ser feito amanhã, logo cedo.

Lívia inclinou levemente a cabeça, ponderando por um segundo.

— Certo. Mas o contrato precisa ser assinado ainda hoje, com uma cláusula penal em caso de descumprimento.

— Concordamos — respondeu Riviera rápido demais, ansioso para encerrar qualquer margem de risco. — O contrato pode prever isso.

— Então — continuou Lívia, sem perder o ritmo —, se não se importarem, irei pessoalmente ainda hoje para colher as assinaturas.

O estômago de Cássio afundou. Aquilo deixava de ser hipótese, de ser ameaça. Tornava-se definitivo. Irreversível.

— Helena… — tentou, a voz baixa, quase engolida.

Ela não o deixou prosseguir. Não havia raiva em seu olhar, nem mágoa explícita. Apenas distância. Uma distância intransponível.

— Espero que cumpra, Cássio — disse, com serenidade. — Não por mim, mas pelo seu próprio bem.

A frase o atingiu com mais força do que qualquer acusação poderia.

Lívia encerrou com a objetividade de quem já decidiu tudo:

— Em breve estarei aí.

A tela se apagou.

Cássio permaneceu imóvel, encarando o vazio à sua frente. Não havia mais negociação. Nem retorno possível. Apenas consequências alinhadas, uma após a outra.

Perder Helena não fora o preço mais alto.

O preço real era seguir vivendo depois disso.

...

Assim que Lívia fechou a tela do computador, Helena soltou o ar que nem percebera estar prendendo.

— Então é isso? — perguntou, ainda cautelosa. — Finalmente acabou?

A amiga lhe devolveu um sorriso solidário, daqueles que carregam mais alívio do que euforia.

— Quase. O contrato já está pré-redigido. Vou só revisar com calma e, em seguida, vou até lá colher a assinatura.

O corpo de Helena tensionou de leve.

— Eu preciso ir junto?

— De forma alguma. — Lívia foi imediata. — Nem pensar em te levar até a toca do lobo sem necessidade.

Helena pensou por um instante, depois sugeriu:

— Então leva o Pedro com você. Assim fico mais tranquila.

Lívia inclinou a cabeça, avaliando.

— E você?

— Vou ficar aqui. — Helena deu de ombros, demostrando segurança. — Tenho muita coisa para me inteirar, e o Santiago avisou que vai precisar ficar um pouco mais na galeria também.

A advogada ainda parecia hesitar.

— Não se preocupe — completou Helena, com suavidade. — Ninguém aqui vai me fazer mal.

Depois de alguns segundos, Lívia assentiu.

— Tudo bem. Vou terminar os ajustes e já saio.

Helena deixou a sala, fechando a porta com cuidado para não interromper a concentração da amiga.

Do lado de fora, encontrou Pedro conversando com Rafael, o ilustrador. Era curioso como ele, sempre tão contido e quase intimidador à primeira vista, havia se adaptado tão bem àquele ambiente criativo.

Assim que a viu, Pedro pediu licença ao colega e veio ao seu encontro.

— E então? — perguntou, atento. — Como foi?

— Deu tudo certo. Ele aceitou.

O alívio atravessou o rosto dele.

— Que bom. — Deu dois tapinhas leves no ombro dela. — O Santiago vai ficar feliz em saber.

— Vou ligar pra ele agora. — Helena sorriu de canto. — Mas antes… preciso te pedir um favor.

Pedro endireitou a postura imediatamente.

— Pode falar.

Como poderia recusar?

Mesmo sem conseguir defendê-la quando mais deveria, aquela mulher fizera por ele e por sua família mais do que qualquer outra pessoa jamais fizera. Não hesitou. Aceitou de imediato e seguiu com o segurança até ela, esperando que um dia houvesse uma forma justa de retribuir.

Pedro sabia que Helena não era do tipo que se vangloriava por ajudar alguém — muito menos que gostaria de ver aquilo exposto. Preferia o silêncio, a discrição, a gentileza que não pede reconhecimento.

Ainda assim, também sabia que Manoel não precisaria de explicações. Bastaria vê-la ali, no centro daquele novo começo, para juntar os pontos sozinho. Algumas verdades não precisam ser ditas. Elas simplesmente se revelam.

Ao vê-lo, o rosto de Helena se abriu num sorriso genuíno.

— Manoel… — disse, surpresa boa na voz.

Os olhos dela brilharam de alegria, como quem vê uma resposta silenciosa se confirmar. Aproximou-se sem pressa, um gesto simples, mas carregado de afeto e reconhecimento.

— Que bom te ver aqui — completou, sincera.

Não havia orgulho ostentado, nem qualquer necessidade de explicações. Apenas a satisfação silenciosa de perceber que a Orsini realmente levara sua indicação a sério. Manoel era um excelente profissional — e agora, também, uma adição valiosa à empresa. Por um instante, Helena sentiu-se mais leve, como se a presença dele ali fosse a confirmação concreta de que, apesar de todo o caos recente, algumas coisas ainda encontravam naturalmente o seu lugar.

— Dona Helena. — respondeu, com respeito, mas sem distância.

Ela avançou um passo, impulsiva, e segurou-lhe as mãos antes mesmo de perceber o gesto. Apertou com carinho, como fizera naquele dia no parque.

— Como está a Sofia?

O rosto dele se iluminou inteiro ao ouvir a pergunta.

— Bem — respondeu, simples, quase com orgulho contido. — Muito bem. Descobriu que nadar é a coisa que ele mais gosta no mundo.

Helena fechou os olhos por um instante, o alívio atravessando o corpo de forma quase física.

— Que bom…

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Era denso, cheio de significado.

Pedro pigarreou discretamente, quebrando o momento.

— O Manoel vai ficar aqui com você enquanto eu estiver fora, tudo bem? — disse, num tom casual demais para quem a conhecia tão bem.

Helena lançou-lhe um olhar imediato de reprovação.

— Pedro… por que foi incomodar o senhor Manoel com isso? Eu disse que ficaria bem.

Manoel se apressou, antes que o constrangimento crescesse.

— Não é incômodo nenhum — garantiu, com sinceridade. — Na verdade, eu gostaria mesmo de conversar com você… se não for demais.

Helena alternou o olhar entre o segurança e o gerente de produção. Havia algo ali — cuidado demais de um lado, gratidão silenciosa do outro. Por fim, cedeu.

— Está bem, então.

Lívia se aproximou, cumprimentou Manoel com cordialidade e envolveu Helena num abraço rápido.

— Qualquer coisa, me liga.

Pedro já seguia em direção ao elevador ao lado dela. Antes que as portas se fechassem, lançou um último olhar atento para Helena — um misto de proteção e alerta — e então desapareceram atrás das portas de ferro.

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