Lá fora, o ar noturno trouxe o cheiro da breve chuva que caíra.
As luzes da rua refletiam nas poças da calçada como pequenas manchas de tinta espalhadas em um quadro inacabado.
Helena perdeu-se por alguns instantes olhando para elas.
Até que Santiago tirou o casaco e colocou sobre seus ombros, trazendo-a de volta aquele momento.
Depois abriu a porta do carro para ela, e a olhou pacientemente.
— Eu agradeço por ter me ajudado lá dentro, mas não precisa me levar ao hospital. Posso ir sozinha — disse ela, tentando afastar o rubor que os gestos dele lhe causavam.
— Que tipo de homem eu seria se deixasse você aqui, sozinha e ferida? — respondeu Santiago, sua voz calma, mas carregada de firmeza. Afinal, passara anos sem vê-la e agora que o destino o havia presenteado com esse reencontro, não perderia a oportunidade de se aproximar dela.
Sem jeito para recusar, Helena entrou no carro. O trajeto foi feito em um silêncio confortável, quase natural, como se aquela fosse a situação mais certa do mundo.
No quarto do hospital, Santiago permaneceu ao lado dela. A enfermeira, a mesma que a atendera da última vez, arqueou uma sobrancelha com tom de suspeita:
— Você de novo? E em tão pouco tempo? — por conta do seu trabalho frequentemente presenciava casos de violência doméstica, e aquilo a deixava sempre alerta querendo ajudar.
Helena corou levemente e respondeu, a voz falhando:
— Só mais um acidente…
Santiago manteve-se em silêncio, atento à interação, compreendendo a implicação por trás da pergunta da enfermeira. Seus olhos vasculharam o corpo de Helena procurando por outros hematomas, mas não encontram nada. Se perguntou "o que teria acontecido?"
O médico entrou logo em seguida cortando a conversa.
Após verificar a mão de Helena constatou que não houve fratura, mas a lesão não fora pequena. Ele limpou as feridas e indicou que ela fizesse compressas para diminuir o inchaço.
Logo se retirou para prescrever um analgésico, deixando-os novamente sozinhos.
Santiago finalmente quebrou o silêncio:
— Sabe, você não precisaria passar por nada disso se não quisesse.
— Eu sei… — respondeu Helena, os olhos baixos, os cílios tocando levemente as maçãs do rosto. — Já estou resolvendo isso.
Santiago compreendeu o recado implícito: o divórcio estava perto. Um traço de esperança se desenhou em seu peito, mas antes que pudesse dizer algo mais, Lívia irrompeu no quarto.
Por um momento ela parou, admirada com a presença do homem, tão bonito e, próximo de sua amiga de forma tão íntima. Mas quando seu olhar pousou sobre a mão de Helena logo se recompôs. Correu para o lado de sua cama e segurando sua mão boa disparou:
— O que aconteceu? Não me diga que foi aquele desgraçado do Cássio de novo! Se ele aparecer na minha frente, eu juro que…
— Calma, já estou bem — interrompeu Helena, controlada, mas grata.
Santiago prestou atenção em cada palavra da amiga de Helena. "...aquele desgraçado do Cássio de novo". Sentiu seu peito queimar com a visão dele a empurrando — da dor estampada no rosto dela, do sangue em sua mão. A fúria que sentiu voltou ainda mais intensa. Então, não havia sido a primeira vez...
Precisava tirar aquilo a limpo, e quem o ajudaria seria aquela enfermeira.
Cássio chegou pouco tempo depois, subindo as escadas apressado, quase correndo, exalando uísque e raiva. Encontrou-a deitada, puxou o lençol que a cobria e despejou sobre ela toda a frustração acumulada:
— É assim que você tenta chamar minha atenção agora, se atirando em outro homem? Como ousa me humilhar assim? Todos têm razão… você é uma inútil! Não é nada sem mim! E esse teatrinho só aumenta o nojo que sinto por você!
O cheiro forte de uísque misturado a perfume barato a deixou zonza. Helena ergueu o corpo, assustada, tentando focar no que estava acontecendo.
— Saia daqui — esbravejou ele. — Não quero dormir ao lado de uma dissimulada como você.
— Como quiser! — respondeu com frieza, levantando-se para dirigir-se ao quarto de hóspedes.
Aquela indiferença o irritou ainda mais e antes que ela saísse, segurou-a fortemente pelos braços, empurrou-a de encontro a parede, os rostos próximos demais.
— Essa é a última chance que te dou. Se você não repensar suas atitudes esse casamento está acabado. Não vou tolerar mais seus desrespeitos, está me ouvindo? — Gotas de saliva voavam da boca dele enquanto gritava, aumentando ainda mais a repulsa que agora ela sentia por ele.
Ela teve que conter a vontade de rir, pois ele ainda não sabia que aquele casamento já não existia mais. Se ela ainda permanecia ali, era porque precisava de tempo para fazê-lo pagar por tudo que a fez passar.
Com um movimento brusco soltou seus braços de seu aperto, limpou o rosto e permaneceu fria.
— Claro, como desejar!
Antes que ele pudesse alcançá-la novamente, correu para o outro quarto e trancou a porta. Pela primeira vez em muito tempo, dormiu tranquila.
Cássio permaneceu parado na mesma posição, atônito. Aquela mulher já não era a que chorava ou suplicava por ele. Ele nunca vira aquela indiferença e isso o assustava. E diferente de Helena, naquela noite ele não conseguiu pregar os olhos.

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