“Por mais firme que seja o traço, sempre há uma parte da alma que escapa junto à tinta.”
Pedro abriu a porta do carro para Lívia entrar, lembrando-se da pequena cena que ela fizera na pizzaria só para obrigá-lo a agir daquele jeito.
— Ora, ora… — ela provocou, acomodando-se no banco. — Parece que alguém está aprendendo.
— Não se empolga — respondeu ele, seco. — Só quis evitar o seu drama.
Fechou a porta e tomou o lugar do motorista.
— Sabe… — Lívia continuou, com um meio sorriso — você posa de durão, mas no fundo isso é só fachada.
Pedro bufou, ligou o carro e arrancou. Durante o trajeto, ela o observava de soslaio: os músculos dos braços tensionados ao girar o volante, o maxilar firme, a atenção concentrada na estrada. Ele percebeu o olhar e virou o rosto para o lado, tentando esconder o sorriso que insistia em surgir.
— Tenho que admitir uma coisa — disse, depois de alguns segundos. — Você é realmente muito boa no que faz. Quero dizer… tudo isso da Helena com aquele idiota. Você deu um show.
Lívia foi pega de surpresa. O elogio a deixou levemente constrangida; o rosto corou.
— A Helena é como uma irmã pra mim — respondeu. — Eu não seria quem sou hoje sem ela. E ela já passou por coisas demais.
Pedro se surpreendeu. Já sabia que Helena tinha o dom de transformar a vida das pessoas, direta ou indiretamente — como havia feito com ele, instigando uma nova missão. Mas o que ela teria feito por Lívia?
— Ela é mesmo diferente, né? — comentou.
Lívia sorriu, com ternura.
— É. Ela é a prova de que ainda existem pessoas boas no mundo.
— Você também é uma ótima pessoa — ele disse, antes mesmo de pensar.
— Quer dizer que você me acha uma ótima pessoa? — ela provocou, girando o rosto na direção dele.
Pedro se calou. Sabia que seguir por aquele caminho seria emocionalmente perigoso. Mas Lívia não facilitou.
— Você também não é nada mau, sabia? Aquele dia na fazenda…
— Chegamos, doutora — ele a cortou de imediato. — Vamos lá colher essa assinatura?
Só então Lívia olhou pela janela e percebeu que já estavam parados diante do Studio Cassiani.
Lívia arqueou uma sobrancelha, divertindo-se com a pressa súbita dele.
— Salvo pelo gongo… — comentou, soltando o cinto devagar demais de propósito. — Você sempre foge quando a conversa começa a ficar interessante...
Pedro já tinha saído do carro, contornando-o para abrir a porta dela, sério demais para quem claramente estava levemente descompensado por dentro.
— Eu não fujo — respondeu, seco. — Eu priorizo.
— Ah, claro. — Ela aceitou a mão dele ao descer, aproximando-se um pouco mais do que o necessário. — Mas essa conversa ainda não acabou.
Ele a soltou rápido demais.
— Estamos aqui por um motivo profissional, doutora.
Lívia ajeitou a bolsa no ombro, encarando a fachada do Studio Cassiani antes de voltar o olhar para ele.
— Fica tranquilo, Pedro. — O sorriso dela era calmo, mas cheio de promessa. — Eu sei separar muito bem as coisas.
Deu dois passos em direção à entrada, depois parou e olhou por cima do ombro.
— Vamos?
Pedro ficou ali por um segundo a mais, respirou fundo e só então a seguiu, com uma sensação incômoda e perigosamente boa.
Assim que atravessaram a portaria, foram recebidos por uma assistente que, visivelmente nervosa, assumiu a dianteira e passou a guiá-los pelos corredores da empresa. Pedro caminhava um passo atrás, atento por hábito, enquanto Lívia seguia com a postura firme, o salto ecoando no piso polido como um aviso silencioso de que não estava ali por acaso.
Não demorou para chamarem atenção.
Conversas diminuíram de volume. Telas foram deixadas de lado. Olhares curiosos se multiplicaram, acompanhando o trio como se assistissem a uma cena fora do roteiro habitual da empresa.
— Não é aquela advogada…?
— A que estava com a Helena naquele evento…
— O que ela está fazendo aqui?
Os cochichos corriam baixos, mas rápidos, passando de mesa em mesa como fogo em palha seca. Alguns funcionários se entreolhavam, outros fingiam concentração enquanto esticavam o pescoço para ver melhor.
Lívia percebeu. Não diminuiu o passo, não desviou o olhar. Caminhava como quem sabia exatamente o impacto que causava e não sentia a menor necessidade de suavizá-lo.
Pedro, por sua vez, sentiu os olhares grudarem neles como peso físico. Manteve a expressão fechada, quase intimidadora, o tipo de presença que fazia as pessoas pensarem duas vezes antes de se aproximar demais ou comentar em voz alta.
Uma funcionária murmurou para a colega:
— Se ela está aqui… coisa boa não é.
E talvez fosse exatamente isso que tornava o silêncio seguinte ainda mais denso.
A assistente finalmente parou diante de uma porta, ajustou a postura, pigarreou antes de anunciar:
— O senhor Amaral já os aguarda.
Lívia lançou um último olhar ao corredor atrás de si — curioso, atento, cheio de especulações.
A assistente pousou a mão na maçaneta. A porta se abriu. Assim que a porta se fechou atrás deles, o ar da sala pareceu mudar de densidade.



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