“Depois da última camada, não há retoque que salve o que já foi revelado.”
Silvia saiu das sombras no exato momento em que as portas do elevador se fecharam, levando Lívia e Pedro embora. O silêncio que ficou para trás parecia carregado demais para ser ignorado. Seu olhar, afiado e inquieto, denunciava a irritação de quem detesta não entender o que está acontecendo — e, pior ainda, não controlar.
Avançou alguns passos em direção à porta da sala de Cássio, decidida a descobrir por conta própria, quando foi surpreendida por Riviera saindo apressado. Os dois quase se chocaram.
O advogado franziu o cenho por reflexo, mas recompôs a expressão no mesmo instante. Aquela mulher parecia surgir em todos os lugares nos momentos mais inconvenientes.
— Ah… senhora Moretti. Olá! — disse, com uma cordialidade automática.
Silvia inclinou levemente a cabeça, estudando-o.
— Doutor Riviera… estou sentindo um clima estranho na empresa hoje. — Sua voz saiu mansa demais. — Está acontecendo alguma coisa?
Ele sustentou o olhar por um segundo a mais do que o confortável.
— Desculpe, senhora — respondeu, já se afastando —, mas acredito que não sou eu quem deva fornecer informações sobre assuntos da empresa.
Passou por ela sem esperar resposta.
— Com licença.
O sorriso de Silvia se manteve no rosto apenas até ele virar o corredor.
Assim que ficou sozinha, os dedos se fecharam num punho tenso. A raiva subiu quente, ácida. Ser ignorada daquela forma era algo que ela não tolerava. Um sorriso fino, carregado de desprezo, surgiu em seus lábios.
“Quando tudo isso for meu”, pensou, “cada um vai saber exatamente o seu lugar. Inclusive você, doutor.”
Inspirou fundo. Em um segundo, a máscara voltou a se encaixar com perfeição: suavidade, doçura, controle. Alisou discretamente a roupa, recompôs a postura e então abriu a porta da sala de Cássio com seu sorriso ensaiado no rosto.
A cadeira de Cássio estava virada para a vidraça atrás da mesa. Silvia aproximou-se em passos lentos, quase calculados. Ele permanecia imóvel, os cotovelos apoiados nos braços da cadeira, as mãos unidas à frente do corpo, o olhar perdido na cidade lá embaixo. Havia naquele silêncio um esvaziamento profundo — de quem havia perdido tudo.
— Amor? — chamou, tocando-lhe o ombro com cuidado estudado. — O que aconteceu?
Cássio não reagiu de imediato. Nem piscou.
— Eu vi aquela advogadazinha da Helena saindo daqui — continuou ela, a voz já carregada de veneno. — O que aquela vadia aprontou dessa vez?
— Chega. — A resposta veio baixa, mas cortante. — Esse assunto não é da sua alçada.
Silvia contornou a cadeira como se a repreensão não existisse. Forçou-o, com naturalidade ensaiada, a deixá-la sentar em seu colo. Enlaçou-lhe o pescoço, aproximando o rosto.
— Como não é, meu amor? — murmurou. — Logo estaremos casados. Suas preocupações são as minhas. Seus problemas também.
Cássio suspirou, exausto. O corpo parecia ter desistido antes da mente. Ao menos ali havia alguém com quem falar — alguém que não vazasse as informações. Por um instante, desejou que fosse Renato diante dele. Mas a amizade estava irremediavelmente quebrada por culpa dele. Silvia era o que restava. E ela estava ali no momento em que a solidão pesava mais.
— Fizemos um acordo — confessou enfim. — Mas isso não pode vazar. Não pode chegar ao conselho. Senão… eu estou fora.
Ela se afastou o suficiente para encará-lo.
— Sobre as nove coleções?
Ele assentiu, lento.
— Mas por quê? — reagiu ela, indignada demais para ser espontânea. — Aquela mulher não merece que você ceda assim. Não depois de tudo.
O silêncio que se seguiu foi espesso. Cássio voltou o olhar para a vidraça, como se as respostas estivessem em algum ponto da cidade — ou em um passado que já não podia alcançar.
— Era isso ou perder a empresa de vez.
— Isso não é possível — rebateu Silvia de imediato. — Você ganharia judicialmente. Precisa reconsiderar. Não pode simplesmente entregar tudo o que ela quer.
Cássio soltou um riso curto, devastado, que não tinha humor algum.
— Não. Você é que não entende. — Ele passou a mão pelo rosto, cansado. — Ela tem provas. Muitas. Documentos, registros, testemunhas. Tudo. Eu… não tenho nada.
Silvia ainda tentou encontrar uma fresta para argumentar, mas a expressão dele deixou claro que não havia mais terreno para disputa.
— Estamos falando de quanto? — perguntou, por fim.
— Noventa milhões — respondeu ele, pausadamente, como quem pronuncia uma sentença.
Ela cravou as unhas nas palmas das mãos, atrás da nuca dele, num gesto contido de fúria. Depois de tudo, aquela mulher ainda conseguira arrancar uma fortuna. Um dinheiro que, na lógica distorcida de Silvia, já deveria ser seu — como futura esposa, como parte do que acreditava merecer. A raiva subiu quente, corrosiva. Até quando Helena continuaria atravessando seus planos, e tomando o que era seu por direito?

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