Ao sair do Scarlet Bar, Cássio conduziu Silvia até o apartamento dela em completo silêncio.
Não queria falar. Mal conseguia respirar. Sentia-se à beira de um colapso — transbordando emoções conflitantes, desejando apenas um vazio sereno onde pudesse reencontrar algum vestígio de sanidade.
Silvia nunca o vira assim.
Ela pensava que grávida dele, seria apenas questão de tempo para que ele expulsasse Helena de sua vida. Então... por que não dar uma ajudinha?
Mas ao ver o olhar duro e silencioso dele, percebeu — pela primeira vez — o quanto havia ultrapassado os limites. E temeu o homem ao seu lado.
Quando o carro parou diante do prédio, ele permaneceu imóvel, encarando o nada à frente. O peito subia e descia num ritmo lento, contido, perigoso.
Sem se virar, perguntou num tom calmo demais para ser inofensivo:
— Eu te avisei pra não se meter com a Helena... não avisei?
Silvia engoliu em seco, a mente girando, procurando desesperadamente uma saída, uma desculpa.
Ele prosseguiu, com a voz cortante:
— E eu também te avisei pra não criar esperanças além do que temos... não é?
As mãos dela ficaram geladas. Um arrepio de medo percorreu-lhe o corpo.
Então ele se voltou para ela estendendo a mão e, por um instante, ela acreditou que ele fosse tocar-lhe o rosto — mas os dedos agarraram seus cabelos, puxando-a com força até que seus rostos ficassem a poucos centímetros.
— Acho que tenho sido muito leniente com você — disse entre os dentes. — O erro foi meu, que te deixei pensar que era alguém especial a ponto de se sentir segura pra ofender a Helena.
As palavras caíam como estacas de gelo, cada uma cravando-se fundo no peito de Silvia. O pânico tomou-lhe as feições e o pavor dominou seus olhos.
— A Helena é a minha esposa — continuou. — E será a única que terei nesta vida. Agora me diga, palavra por palavra, se você consegue compreender isso.
— Me desculpe, Cássio — ela balbuciou, lágrimas escapando. — Eu não sei por que agi assim. Talvez os hormônios... eu fiquei sensível, ciumenta. Eu só te amo demais. Você é o homem mais incrível que eu já conheci. Eu não suporto vê-la te tratando daquela forma. Mas eu juro que nunca quis magoar a Helena... acredite em mim, por favor. Pelo nosso filho.
As palavras saíam entre soluços, uma mistura de medo e manipulação. E, no fim, funcionou.
O olhar dele perdeu parte da fúria; o aperto afrouxou.
O ego ferido, lentamente, começava a ser massageado outra vez.
Virou-se para frente, exalando cansaço.
— Nunca vou deixar faltar nada pra você, nem pra essa criança — disse baixo. — Mas preciso te afastar. Do contrário, isso não vai dar certo.
Massageou as têmporas.
— Já pedi ao setor administrativo pra abrir uma filial em outro estado. Assim que estiver tudo pronto, você vai pra lá cuidar dela.
Silvia o olhou, chocada. As lágrimas agora eram reais.
— Você vai me afastar? Vai afastar seu próprio filho?
— Não. — Ele suspirou. — Mas essa é a única maneira de manter vocês.
Fez uma pausa longa, o olhar perdido.
— Não se preocupe, estarei presente sempre que possível... contanto que você entenda o seu lugar e saiba manter a discrição. Também pedi a um corretor pra encontrar uma boa casa. Acredite, Silvia, essa é a melhor opção que posso te dar.
Ela baixou a cabeça, num gesto de aparente rendição. Mas, por dentro, o ódio crescia.
Quem era Helena? Por que ela merecia o que ela não tinha?
Não... Silvia não deixaria isso assim. Ela daria um jeito — por bem ou por mal. Sempre dava.
— Tudo bem, eu compreendo — disse, forçando a voz a soar dócil. — Você... não vai subir?
— Não. Preciso tentar consertar o estrago em casa.
— Mas eu ainda estou com dor... não queria ficar sozinha. — Fez biquinho, encenando fragilidade.
— Se precisar, contrato alguém pra ficar com você. Hoje, eu não posso.
— Está bem. Te vejo amanhã, então. — Inclinou-se e beijou-lhe o rosto, fingindo resignação.
Do outro lado, Renato suspirou.
— Se você diz… boa sorte, então.
A ligação terminou.
Cássio estacionou o carro com um movimento brusco, como se o som do motor pudesse calar a confusão dentro dele.
Abriu a porta da casa esperando encontrá-la ali — desperta, ansiosa, talvez pronta para exigir explicações… ou, quem sabe, para tentar fazer as pazes.
Mas o que encontrou foi apenas o silêncio. Um silêncio espesso, quase vivo, que parecia observá-lo no escuro.
Não se deu ao trabalho de acender a luz.
Subiu as escadas às cegas, tropeçando, os passos pesados ecoando pelo vazio.
Quando empurrou a porta do quarto, o ar pareceu rarefeito.
Helena estava ali. Dormindo.
Como ela podia repousar tão tranquilamente depois de tudo?
Como podia ter aquele semblante sereno, quase angelical, depois de outro homem a tocar?
A raiva explodiu antes que pudesse contê-la.
Ele arrancou o lençol que a cobria, o gesto seco cortando o silêncio do quarto, e gritou com ela. O som da própria voz ecoava rouca de fúria.
Quando a prensou contra a parede, o olhar caiu sobre a mão enfaixada, e o sangue ferveu ainda mais. Era raiva dela, raiva dele, raiva de tudo. Uma cólera cega que o fazia perder o contorno de si.
No impulso, a expulsou do quarto.
Quando o silêncio, enfim, retornou, denso e sufocante, ele soube: não tinha consertado nada.
Tinha apenas destruído ainda mais.

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