Na manhã seguinte, Helena acordou tarde sentindo-se revigorada. Não havia o som estridente do despertador lembrando-a de que precisava servir um homem que, agora, ela via com clareza, jamais a amara de verdade.
Um leve sorriso escapou de seus lábios ao perceber a liberdade que se aproximava. Três dias, apenas três dias separavam-na da vida que escolheria viver para si mesma.
Levantou-se lentamente, ainda sentindo o peso da noite anterior se dissipar, e foi direto para o banheiro. O banho quente acariciou sua pele, levando embora não só a fadiga, mas a sensação de anos de subjugação.
Vestiu um vestido de linho verde escuro que realçava a o brilho de seus olhos, e calçou sandálias baixas, delicadas, que batiam suavemente no piso frio do apartamento.
Enquanto tomava café e aplicava a compressa na mão machucada, Helena não pôde deixar de refletir sobre a ironia cruel da vida: a mesma mão que impulsionara o sucesso de Cássio agora estava ali, machucada por ele. Um símbolo perfeito de ingratidão, pensou, quase com humor sombrio.
Balançou a cabeça.
Não permitiria que a amargura ditasse o tom do seu dia.
A campainha tocou.
Quando abriu a porta, deparou-se com um enorme buquê de jacintos azuis — tão intensos que pareciam desafiar o ar frio do ambiente. Helena franziu o cenho, surpresa.
— Sra. Helena Amaral? — perguntou o entregador.
Ela quase o corrigiu. Quase disse que não era mais Amaral, que estava se livrando do peso desse nome como quem arranca uma espinha cravada na alma.
Mas conteve-se.
— Sim.
— São para a senhora.
Recebeu as flores, agradeceu brevemente e fechou a porta.
O perfume doce dos jacintos encheu a sala, contrastando com o amargor que ela sentia.
Entre as pétalas, um cartão. Abriu-o.
“Helena, meu amor,
Sei que me excedi ontem. Não queria ter te machucado — você sabe que jamais faria isso de propósito.
Espero que entenda que você, com seus ciúmes infundados, não tem ajudado muito a manter a harmonia entre nós...
Parece até que se esqueceu de que você é — e sempre será — a única mulher da minha vida.
Vamos superar essa crise juntos.
Do seu, sempre seu,
Cássio.”
Helena soltou um riso breve — seco e de pura ironia.
Flores. Em todos esses anos, ele nunca havia lhe dado nenhuma.
E agora, ao fazê-lo, ainda conseguia transformá-las em acusação.
Era quase cômico.
Sem hesitar, jogou o buquê e o cartão no lixo.
O som abafado do impacto foi mais um ponto final nessa história que já não pulsava.
Pegou a bolsa, respirou fundo e saiu. Não olhou para trás.
...............
Seguiu em direção à imobiliária indicada por Lívia.
Chegando em frente a imobiliária, o celular emitiu um som de mensagem.
Ao abrir, não se surpreendeu ao ver que era de Silvia.
A foto de um buquê enorme de rosas vermelhas junto a uma caixa de joias, e abaixo a mensagem.
"Eu tenho muita sorte, Cássio não cansa de me mimar!"

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