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Quadros de um divórcio romance Capítulo 163

“Seguir não é o mesmo que chegar.”

A confraternização na fazenda se estendeu até o fim da tarde, quando o sol já começava a descer e, aos poucos, as pessoas passaram a se despedir.

Helena envolveu Olivia num abraço apertado.

— Obrigada por tudo, dona Olivia.

— Me chame de vovó agora, minha filha — corrigiu ela, com um sorriso cheio de ternura.

— Está certo… obrigada, vovó.

Enquanto Olivia abria os braços para receber o neto, Helena se despedia dos sogros, que permaneceriam na fazenda. Havia carinho nos gestos, promessas silenciosas de novos encontros.

Antes de descer o alpendre, Santiago levou os dedos à boca e soltou um assovio agudo. Em poucos segundos, Mabe surgiu correndo do meio do verde, o pelo claro contrastando com o fim de tarde.

— Vamos embora, garota — disse ele, afagando a cabeça da pastora.

Abriu a porta para Helena se acomodar no banco do passageiro e, em seguida, para Mabe subir animada no banco de trás.

Santiago acenou para a família ao contornar o carro e assumir o volante. Helena também levantou a mão, despedindo-se mais uma vez, enquanto ele manobrava para sair.

A fazenda ficou para trás, envolta pela luz dourada do entardecer — como um lugar onde sempre haveria um retorno esperando por eles.

...

Ao sair da casa dos pais, Cássio dirigiu sem destino certo. As ruas se sucediam diante do para-brisa sem que ele realmente as percebesse. A imagem do noivado de Helena ainda pulsava em sua mente, insistente, como um eco que se recusava a cessar.

Não havia mais raiva direcionada a ela. O que o corroía era outra coisa. Uma revolta surda contra o rumo que a própria vida havia tomado, contra as escolhas que o haviam conduzido até ali.

Engolia agora decisões que não fizera livremente, consequências que não soubera conter, perdas que escaparam de suas mãos no instante exato em que acreditava ter controle.

O volante firme sob os dedos era a única coisa que ainda parecia obedecer.

Todo o resto… já não lhe pertencia.

Os semáforos mudavam, os carros passavam ao lado, pessoas seguiam seus destinos — e nada daquilo parecia incluí-lo. Era como se estivesse fora de foco, deslocado da própria vida.

Em algum momento, diminuiu a velocidade sem perceber. O volante parecia pesado demais, e o silêncio dentro do carro o pressionava por dentro.

Pensou em Helena.

Não na imagem do noivado recente, mas em outra, antiga e teimosa. Helena vestida de noiva no cartório, simples e radiante, sorrindo para ele enquanto Cássio deslizava em seu dedo um anel modesto, o único que podia comprar naquela época.

Não havia fotógrafos, nem flores exuberantes, nem promessas ensaiadas. Havia apenas os dois. E aquele sorriso — inteiro, confiante, como se o pouco bastasse porque estavam juntos.

Parou o carro no acostamento sem saber exatamente por quê. Desligou o motor. O mundo seguiu em movimento lá fora, indiferente.

Cássio apoiou a testa no volante, fechou os olhos por um instante longo demais. Não chorou. Não havia catarse. Apenas um cansaço profundo, quase físico.

Pela primeira vez, a pergunta surgiu sem raiva, sem defesa: “Em que momento eu me perdi de mim mesmo?”

O telefone apitou. Cássio ergueu o aparelho e leu a mensagem de Silvia.

“Não precisa vir me buscar. Chamei um Uber e já estou indo para casa.”

Ao menos isso. Não precisaria voltar à casa dos pais, não precisaria sustentar mais olhares, perguntas ou expectativas naquele dia.

Jogou o celular no banco do passageiro como quem se livra de um peso pequeno — sabendo que os grandes continuavam ali.

Girou a chave e ligou o carro novamente.

Seguiu adiante sem olhar para trás, carregando consigo a certeza incômoda de que estava avançando… mas em direção a lugar nenhum.

...

Ao entrarem no bairro antigo, depois de uma viagem marcada por conversas soltas e algumas cantorias desafinadas, Helena suspirou, olhando pela janela.

— A fazenda é um lugar maravilhoso… mas não tem nada como o nosso lar.

Santiago percebeu que já compartilhava daquele sentimento. Em tão pouco tempo, viver com ela naquele espaço simples havia sido mais gratificante do que todos os anos passados sozinho em sua cobertura elegante.

Uma ideia começou a serpentear-lhe a mente, silenciosa, insistente. Um sorriso involuntário se desenhou em seu rosto.

— O que foi? Por que você está sorrindo? — perguntou Helena, curiosa.

— Não é nada — respondeu ele, disfarçando. — Só acho que você tem razão. Não há nada como o lar.

Pedro, que vinha à frente com Marcelo, estacionou o carro em frente ao sobrado. Santiago parou logo atrás, diante da casa de Helena.

Ele desceu e ficou parado por um instante, observando as duas casas lado a lado, como se estivesse vendo algo além do que era visível. Helena saiu do carro logo depois, notando a distração dele, enquanto Pedro e Marcelo se aproximavam para se despedir.

— Foi uma festa maravilhosa — comentou Marcelo. — Mas agora descansem.

— Verdade — emendou Pedro. — E amanhã, antes de te levar para a empresa, voltamos com o treino.

Helena soltou um suspiro cansado, antecipando o esforço.

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