“Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado.”
Quando Cássio finalmente voltou para casa, já passava da meia-noite. Empurrou a porta e encontrou o ambiente mergulhado na penumbra. Não havia ninguém à sua espera no sofá, nenhuma luz acesa, nenhum som além do próprio respirar.
Sobre a mesa, apenas um prato coberto e um bilhete escrito à mão: “Esquente por 2 minutos.”
Ele suspirou fundo e seguiu direto para a escada, sem sequer tocá-lo.
O quarto, iluminado apenas pela luz amarelada do abajur, estava vazio. A cama intacta. O travesseiro frio.
Silvia havia avisado que voltaria sozinha para casa, mas ela não estava ali.
Uma suspeita se formou lentamente, e Cássio caminhou até o antigo quarto de hóspedes, agora, novamente, transformado no quarto do bebê. Abriu a porta com cuidado.
A luz estava baixa. Silvia dormia na cama auxiliar com o corpo recolhido.
Ele parou por um instante, observando o espaço ao redor: os enfeites delicados, as pequenas escolhas feitas com expectativa, o quarto inteiro preparado para alguém que ainda nem havia chegado. Depois, voltou o olhar para ela.
Aproximou-se em silêncio e ajustou a coberta sobre seu corpo com um gesto contido, quase tímido.
Não importava mais tudo o que o havia conduzido até ali. Silvia não tinha culpa — muito menos o bebê que ela carregava. E ele já não podia fingir que não vinha falhando com ela, que não a vinha tratando com descuido, com distância, com ausência.
O passado não voltaria. O que fora feito não tinha como ser desfeito.
Suspirou novamente, sentindo o peso real de suas escolhas pousar sobre os ombros. Em breve, seria pai.
Talvez aquele fosse o momento de tentar ser alguém melhor. Não por redenção, não por promessa vazia — mas para não repetir o que conhecia tão bem. Para oferecer ao filho algo diferente da frieza e da cobrança que haviam moldado sua própria infância.
Talvez ali, nesse papel que ainda não compreendia por completo, tivesse enfim alguma chance de acertar. Ser um bom pai.
E quem sabe até um bom marido para ela no caminho.
Cássio deixou o quarto em silêncio e seguiu para o seu. Sentou-se na beira da cama, os ombros caídos, o corpo denunciando um cansaço que já não era apenas físico.
Despiu-se sem pressa, como quem cumpre um ritual automático, até ficar apenas de cueca. Em seguida, deixou-se cair sobre o colchão, de costas, os olhos se fechando quase imediatamente. O sono o alcançou rápido, pesado, sem sonhos.
Do outro lado da porta, Silvia observava pela fresta. O olhar indecifrável não revelava carinho nem raiva — apenas cálculo.
O ritmo da respiração de Cássio, o peito subindo e descendo num abandono que a irritava e, ao mesmo tempo, lhe servia. Ele dormia como se o mundo pudesse ser suspenso enquanto fechava os olhos.
Ela tocou o próprio ventre quase sem perceber.
O cansaço dele não era arrependimento — era fuga. E aquela pressa pelo casamento não vinha de amor, nem de responsabilidade. Vinha do medo. Medo de Helena, do passado que insistia em se mover sem pedir licença, do que ainda não conseguia controlar.
Isso doía.
Mas também… favorecia.
Silvia sabia reconhecer uma vantagem quando ela surgia. Duas semanas. Um casamento apressado. Uma barriga que logo começaria a se anunciar como fato consumado. Um sobrenome forte, público, impossível de ser desfeito sem ruído.
Ela seria a esposa. A mãe. A mulher certa no lugar certo.
Helena podia ter aplausos, seguidores, promessas românticas e luz. Silvia teria estrutura. Segurança. Permanência.
E permanência, ela aprendera cedo, sempre vence o brilho.
Afastou-se da porta com passos leves, calculados, e voltou para o quarto do bebê. Deitou-se novamente, encarando o teto na penumbra.
Não havia ternura naquele pensamento. Tampouco culpa.
Apenas uma certeza fria, sólida: “Ele pode não estar fazendo isso por mim… mas ainda assim fará.”
...
Na manhã de segunda-feira, Mabe ergueu as orelhas de repente e começou a latir, atenta a algo que vinha do lado de fora.
— Hmmm… Mabe — murmurou Helena, ainda sonolenta, tentando repreendê-la sem convicção.
Santiago abriu os olhos já sorrindo.
— O que deu nela? Por que está latindo? — perguntou Helena, a voz arrastada pelo sono.
Ele estendeu o braço até o criado-mudo e espiou o relógio.
— Aposto que é coisa do Pedro — disse, divertido. — Deve ter assoviado pra ela te acordar. Já está quase na hora do seu treino.
Helena fez um som de protesto, meio gemido, meio riso, e Santiago a envolveu num abraço solidário.
Relutante, ela se levantou e vestiu uma calça legging e um top. Santiago a observava em silêncio, o olhar pousando com atenção especial sobre a sua barriga.
— Mal posso esperar para ver esse bebê crescendo dentro de você — disse, levantando-se para abraçá-la por trás, as mãos repousando com cuidado sobre o ventre dela.

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