“Há prazos que fazem nascer obras. E prazos que fazem ruir impérios. No fim, não é o talento nem o poder que decide, é quem aguenta o peso da contagem regressiva.”
Quando Santiago retornou do sobrado, Helena e Pedro acabavam de concluir o treino. O corpo dela ainda pulsava com o esforço, a respiração um pouco acelerada.
Santiago se aproximou, pronto para abraçá-la, mas Helena ergueu as duas mãos, interrompendo-o.
— Não… eu estou toda suada.
Ele segurou os braços dela com firmeza, um de cada lado do corpo.
— Eu não me importo — respondeu com um sorriso fácil. — Também estou.
Helena percorreu o peito nu dele com um olhar claramente aprovador, observando o brilho da umidade sobre a pele.
Pedro pigarreou, percebendo a proximidade crescente.
— Melhor eu sair antes que isso vire uma sessão imprópria para menores — comentou, já se dirigindo à porta. Parou por um instante e acrescentou: — Mas não se esqueçam de que já está quase na hora de sairmos.
Helena soltou um suspiro resignado.
— Ele tem razão. É melhor a gente tomar um banho antes de ir para o trabalho.
Santiago sorriu, aproximando-se um pouco mais.
— Vamos — disse, num tom baixo. — Eu te ajudo.
...
Helena chegou à empresa acompanhada por Pedro, vestido com seu terno discreto de segurança. Assim que entrou no setor, foi informada de que Orsini desejava falar com ela.
Seguiu até a diretoria e bateu de leve na porta.
— Pode entrar — instruiu ele, do lado de dentro.
— Senhor Orsini, bom dia. Gostaria de falar comigo?
— Helena! Sim, entre, por favor.
Ele fez um gesto para que ela se sentasse assim que se aproximou. Helena aceitou, sentindo o coração acelerar levemente.
— Antes de qualquer coisa, quero parabenizá-la pelo noivado — disse ele, com um sorriso sincero. — Lorenzo Ricci me contou. Santiago parece ser um homem íntegro e respeitável.
— É sim, muito obrigada — respondeu Helena, sorrindo de verdade. — Espero que o senhor possa comparecer ao nosso casamento.
— Será uma honra — assentiu. — Quanto ao lançamento… como eu previa, foi um sucesso. Especialmente no exterior. Em apenas três dias, a coleção já ultrapassou o volume de pedidos das nossas linhas anteriores.
Helena arregalou levemente os olhos.
— Isso é… incrível!
— O seu trabalho é incrível, Helena — corrigiu Orsini com naturalidade. — E resolvi aproveitar o impacto desse lançamento para algo maior. Quero levar a coleção Prisma para a Haus Decor Show.
— Sério? — ela levou a mão ao peito, surpresa. Participar de uma das maiores feiras de decoração do país jamais lhe parecera tão próxima. — Nossa… eu nem sei o que dizer.
— Não precisa dizer nada — respondeu ele. — Só preciso que me ajude um pouco mais.
— Claro! No que eu puder — garantiu, pronta.
— Pensei em expandir a coleção com peças menores e mais decorativas — explicou Orsini. — Luminárias, objetos de parede, talvez padrões inspirados na Prisma para tapetes. Elementos que componham ambientes completos e que também possamos usar no estande da feira.
A mente de Helena já fervilhava. Cores, texturas, volumes, possibilidades.
— Claro! Com o maior prazer.
— Fico feliz que tenha aceitado — disse ele. — Vou deixar tudo sob sua responsabilidade. Só há um detalhe…
Ela endireitou a postura.
— Qual?
— O prazo é curto.
— Quanto tempo?
— Nove dias.
Houve um segundo de silêncio.
Se fosse tempos atrás, quando trabalhava sozinha, aquilo seria impensável. Mas agora havia uma equipe, estrutura, apoio — e uma confiança que ela não tinha antes.
Helena respirou fundo, sentindo-se inteira no próprio lugar.
— Isso não será um problema.
Orsini sorriu, satisfeito.
Helena retornou ao seu setor com alguns documentos em mãos — a planta do estande, anotações rabiscadas às pressas, contatos dos responsáveis pela feira. O semblante trazia uma mistura difícil de esconder: foco absoluto e empolgação contida.
Ela parou no centro da sala e chamou a atenção da equipe.
— Tenho uma novidade para vocês.
As conversas cessaram aos poucos. Cadeiras se viraram. Olhares curiosos se ergueram.
Helena respirou fundo antes de continuar.
— Exibiremos a coleção Prisma na Haus Decor Show.
Houve um segundo de silêncio — seguido por uma explosão de reações.
— Sério?!
— A feira nacional?
— Aquela da expo São Paulo?
Helena assentiu, sorrindo.
— Essa mesma. E não é só isso — acrescentou, erguendo os papéis. — Vamos expandir a coleção. Luminárias, peças decorativas para compor o ambiente.
Ela distribuiu as plantas sobre a mesa central.
— O prazo é curto: nove dias. Mas tenho certeza que daremos conta juntos.
Um brilho coletivo tomou conta do ambiente. Alguém já puxava um caderno, outro abria o computador, outro apontava detalhes na planta do estande.
Helena observou a movimentação com um nó bom no peito de realização.
Era bom demais não se sentir mais sozinha.
...

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