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Quadros de um divórcio romance Capítulo 166

“Há coisas que não se encontram. São construídas. Camada sobre camada,

até se tornarem raras.”

Na manhã de terça-feira, Cássio foi até a clínica para retirar o curativo do rosto. O médico trabalhou em silêncio, removendo a tala e as bandagens com cuidado, até que, por fim, estendeu-lhe um espelho.

Cássio encarou o próprio reflexo. Ainda havia sombras arroxeadas sob a pele, mas o rosto já parecia melhor do que ele esperava.

O nariz, porém, não era mais o mesmo.

Helena o atingira com precisão — e força suficiente para deixar marcas que não se apagariam tão facilmente. O septo apresentava agora uma leve inclinação para a direita, discreta, mas impossível de ignorar para quem conhecia o próprio rosto.

— Ainda vai desinchar um pouco mais — explicou o médico, num tom técnico. — Quanto a essa pequena curvatura, um bom cirurgião plástico consegue corrigir depois, sem grandes dificuldades.

Cássio assentiu, sem tirar os olhos do espelho.

Não era a assimetria que o incomodava.

Era a lembrança cravada ali. Um detalhe permanente de algo que ele perdera — e que agora o encarava de volta, todos os dias.

Pela primeira vez, entendeu que nem tudo o tempo devolve ao lugar. Algumas coisas apenas se acomodam tortas… e seguem assim.

Silvia o aguardava do lado de fora do consultório. Quando ele saiu, vê-lo sem o curativo causou-lhe um breve desconcerto — o rosto ainda não lhe parecia inteiramente familiar.

— Vamos? — perguntou, quebrando o silêncio.

Cássio apenas assentiu.

Caminharam lado a lado até o carro e seguiram juntos para a empresa.

Os funcionários já estavam acostumados a ver o chefe e a gerente de marketing juntos. Os boatos sobre o casamento haviam se espalhado rápido, ganhando contornos de certeza.

Aos olhos de todos, formavam um belo casal.

Ele, o chefe frio, sempre contido, impenetrável.

Ela, a gerente arrogante, elegante, segura demais de si.

Uma combinação que, vista de fora, parecia perfeita — como tantas outras que funcionam melhor na vitrine do que nos bastidores.

Quando pararam diante da sala dele, Cássio hesitou por um instante. Pensou na promessa silenciosa que fizera a si mesmo — a de tentar ser melhor. Então perguntou, quase relutante:

— Faz tempo que não almoçamos fora… que tal irmos juntos hoje?

O convite pegou Silvia de surpresa. Algo se moveu dentro dela, inesperado, quente.

— Seria ótimo — respondeu, sorrindo.

— Até daqui a pouco, então.

Ele se aproximou e depositou um beijo breve em seu rosto antes de entrar na sala.

Silvia permaneceu no corredor por alguns segundos, a mão pousada exatamente onde ele a tocara.

“O que está acontecendo com ele?” — perguntou-se em silêncio.

Mas, se a sorte finalmente parecia cair em seu colo, não havia motivo para questionar. Apenas aceitar.

...

Na Orsini Design, o trabalho seguia em fluxo contínuo, intenso e surpreendentemente prazeroso. Depois de um brainstorming produtivo no dia anterior, a equipe de Helena encontrou um eixo comum para todas as novas criações: a grande escultura multifacetada utilizada como peça central no lançamento da coleção pelo Studio Cassiani — aquele imponente dodecaedro de cristal que parecia capturar e fragmentar a luz em infinitas possibilidades.

A partir dessa referência, a coleção começou a se desdobrar com coerência e ousadia.

A luminária de chão nasceu como uma das peças-chave. Tinha pés de madeira em tom quente, levemente inclinados, que traziam equilíbrio e acolhimento visual. Sobre eles, repousava uma cúpula de vidro translúcido, inspirada em um cristal multifacetado infinito. As faces irregulares refletiam a luz de maneira orgânica, criando sombras geométricas no ambiente — um jogo constante entre rigor e poesia.

Para o teto, a proposta seguia a mesma linguagem, porém fragmentada. Um conjunto de pendentes com três cúpulas menores, suspensas em alturas diferentes, formava uma composição dinâmica. Cada cúpula parecia flutuar de forma independente, mas juntas criavam um ritmo visual que conduzia o olhar para cima, ampliando o espaço.

As banquetas baixas reinterpretavam o dodecaedro de maneira mais estrutural. A base era feita em ferro vazado, desenhando as arestas do sólido geométrico com precisão quase arquitetônica. Apenas o assento era fechado, recebendo um estofado branco de linhas limpas, criando contraste entre leveza e solidez. Eram peças que funcionavam tanto como assento quanto como escultura.

As arandelas seguiam a mesma lógica das banquetas, porém reduzidas à essência. Eram formadas apenas por hastes metálicas soldadas, criando o contorno geométrico do dodecaedro na parede. Quando iluminadas, projetavam sombras complexas e gráficas, transformando superfícies planas em elementos vivos.

Paralelamente, a equipe desenvolveu uma estampa exclusiva inspirada na coleção Prisma. O desenho partia de linhas finas que se cruzavam formando faces geométricas irregulares, como fragmentos de cristais vistos em camadas. Era uma padronagem elegante, contemporânea e versátil, pensada para estar presente tanto na tapeçaria quanto nos estofamentos e almofadas, criando continuidade visual entre os ambientes.

Entre todas as criações, porém, houve unanimidade.

A peça queridinha da equipe foi a cadeira suspensa. Delicada e impactante ao mesmo tempo, ela trazia uma estrutura metálica quase invisível, sustentando uma cobertura que imitava a parte superior do prisma — como se alguém pudesse se sentar dentro de um fragmento de cristal. A sensação era de abrigo e leveza, um convite ao descanso dentro de uma forma escultural.

Além disso, surgiram peças decorativas menores com o mesmo formato, pensadas para diferentes materiais: vidro, cerâmica fosca, madeira, metal polido. Objetos que poderiam ocupar estantes, mesas laterais ou aparadores, funcionando como pontos de repetição da linguagem da coleção.

Para o estande da feira, projetaram ainda uma grande escultura de parede que serviria como impacto visual imediato. A ser confeccionada em ferro preto, a peça simularia diversos dodecaedros emergindo da parede em profundidades diferentes, como se a geometria estivesse rompendo a superfície. O jogo de luz e sombra criava uma sensação de movimento e tridimensionalidade, reforçando a ideia central da coleção.

Rafael, o ilustrador — visivelmente exausto depois de virar a noite trabalhando — aproximou-se e entregou o tablet a Helena. Na tela, todas as peças apareciam renderizadas em 3D, precisas, elegantes, prontas para ganhar o mundo.

— Aqui está — disse ele, a voz carregando cansaço e orgulho.

— Obrigada pelo seu esforço, Rafael — respondeu Helena com sinceridade. — De verdade. Agora vá descansar um pouco.

A empresa contava com um quarto de descanso justamente para momentos em que o trabalho exigia mais do que o corpo deveria entregar, e ele não hesitou em aceitar.

Helena respirou fundo, ajustou o tablet sob o braço e se voltou para o restante da equipe.

— Vou lá. Me desejem sorte.

Em resposta, eles ergueram as mãos com os punhos fechados, em silêncio, num gesto coletivo de incentivo.

Helena sorriu.

Não era apenas sorte que ela levava consigo até a diretoria. Era o peso — e a força — de um trabalho construído a muitas mãos.

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