“Algumas obras não nascem prontas. Exigem tempo, calor e a coragem de não voltar à forma antiga.”
Helena encerrou a ligação sob o olhar atento da equipe. Além de Santiago ser um homem incrível, ser noiva de um galerista também tinha suas vantagens práticas, portas que se abriam com mais rapidez, contatos certos no momento exato.
— Acho que vamos almoçar fora hoje — anunciou, sorrindo.
— Por quê? — perguntou Antoni, o impressor 3D, curioso.
— Vamos nos encontrar com nosso possível escultor… e também com um vidraceiro que pode fabricar as cúpulas das luminárias.
— Sério? — exclamou Julia, animada. — Isso é maravilhoso!
— É mais do que isso — completou Helena, já reunindo os papéis. — Se tudo der certo, saímos desse almoço com parceiros-chave definidos. E aí, o projeto deixa de ser ideia para virar matéria.
Os olhares se cruzaram, cheios de expectativa.
A Haus Decor Show deixava de ser um desafio distante. Começava a ganhar forma — concreta, pesada, real.
Antes de saírem, Helena passou pelo setor de operações e convidou Manoel, o gerente de produção, para se juntar a eles. Sabia que aquela conversa precisaria de alguém com os pés fincados na realidade técnica — alguém que transformasse sonho em execução.
Pouco depois, seguiram em dois carros até um restaurante mais reservado no centro da cidade. O mesmo onde, meses antes, Helena havia levado Santiago para almoçar com seus pais. Um lugar discreto, acolhedor, que misturava boa comida e conversas importantes sem alarde.
Ao chegarem, Helena avistou Santiago do lado de fora. Ele conversava animadamente com um senhor de cabelos grisalhos, postura elegante e mãos marcadas por quem trabalhava com matéria — não apenas com ideias.
Santiago gesticulava enquanto falava, sorrindo com naturalidade.
Quando percebeu a aproximação do grupo, ergueu o olhar. O sorriso dele se abriu ainda mais.
— Olá! — Helena se aproximou, cumprimentando-os com naturalidade.
— Oi, amor — Santiago respondeu, dando-lhe um selinho rápido e respeitoso antes de virar-se para o homem ao lado. — Este é o senhor Nicolas, o mestre vidreiro de quem te falei.
— É um prazer conhecê-lo — disse Helena, estendendo a mão com um sorriso seguro. — E esta é a minha equipe.
Ela fez as apresentações uma a uma. Cumprimentos foram trocados, olhares atentos, aquela leitura silenciosa que sempre antecede boas parcerias.
— Então você é a futura senhora Villar? — perguntou Nicolas, observando-a com evidente aprovação.
— Bem… espero que sim — respondeu Helena, sorridente, enquanto segurava o braço de Santiago.
— É sim, com certeza — confirmou ele, sem hesitar. — Que tal entrarmos e conversarmos lá dentro?
Santiago fez um gesto gentil para que todos entrassem primeiro, permanecendo alguns passos atrás com Helena.
— E o escultor? — ela perguntou em voz baixa, a preocupação surgindo de leve.
— Está um pouco ocupado, mas vem — tranquilizou-a. — Só vai chegar mais tarde um pouco. Fique tranquila.
Helena assentiu, respirando fundo antes de seguir para dentro.
Foi preciso unir algumas mesas para acomodar todo o grupo. Quando todos se sentaram, Helena tomou a iniciativa:
— Peçam o que quiserem — disse com leveza. — Hoje é por minha conta.
Sorrisos surgiram, cardápios foram abertos, e, assim que os pedidos foram feitos, a conversa começou a ganhar corpo.
Helena assumiu a dianteira, explicando a Nicolas o conceito da coleção, a inspiração geométrica, os volumes, a importância da luz e da transparência. Falou das cúpulas, das escalas diferentes, da necessidade de precisão sem perder a poesia da peça. Perguntou, com objetividade, se a empresa dele teria condições de atender àquelas demandas dentro do prazo apertado.
Rafael então deslizou o tablet pela mesa até Nicolas, exibindo os modelos em 3D.
O vidraceiro aproximou os óculos do rosto e observou a tela com atenção genuína. Girou a peça, ampliou detalhes, voltou algumas etapas.
— É um formato bastante inusitado — admitiu, por fim. — Confesso que nunca trabalhei exatamente com algo assim…
Fez uma breve pausa, como quem mede as próprias palavras.
— Mas não é impossível.
Os olhares ao redor da mesa se aguçaram.
— Teríamos que desenvolver uma forma específica — continuou Nicolas, já mais animado. — A estrutura base serviria como molde, e o vidro seria moldado com ar injetado, controlando a pressão e a temperatura para que ele se expanda até alcançar essas faces multifacetadas.
Antoni inclinou-se para frente, interessado.
— Tipo sopro industrial?
— Em essência, sim — respondeu Nicolas. — Mas com muito mais controle. Cada face precisa “estourar” no ponto certo, senão perde definição. É um processo delicado, mas o resultado costuma ser espetacular. Cada peça fica praticamente única.
Julia arregalou os olhos.
— Então nenhuma cúpula seria exatamente igual à outra?
— Exatamente — confirmou ele, sorrindo. — O que, na minha opinião, só valoriza o projeto.
Helena trocou um olhar rápido com Rafael. Aquilo era ainda melhor do que haviam imaginado.
— Se vocês quiserem — continuou Nicolas, apoiando as mãos na mesa —, depois do almoço posso levá-los até a fábrica. Lá fica muito mais fácil explicar o processo, mostrar os fornos, os testes, as formas. Vocês conseguem ver o vidro nascer.
O convite pairou no ar por um segundo.
— Adoraríamos — respondeu Helena, sem hesitar. — Acho fundamental entendermos o processo de perto.
Os demais concordaram quase em coro.
Nicolas sorriu, satisfeito.
— Então estamos combinados.
...
Como havia prometido, Cássio levou Silvia para almoçar no meio do expediente. Falava ao telefone enquanto entravam no restaurante, o tom baixo, profissional. O garçom os conduziu até uma mesa mais reservada. Cássio o seguiu distraído,
Alguns minutos depois, enfim encerrou a ligação. Pegou o cardápio e o deslizou na direção dela.
— Pode escolher primeiro.

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