“Nada que é seu de verdade precisa ser defendido.”
Cássio tentava comer, mas a atenção insistia em escapar do prato. Seus olhos voltavam, quase contra a própria vontade, para a mesa de Helena. Não conseguia evitar a pergunta martelando por dentro: quem eram todas aquelas pessoas ao redor dela?
Durante anos, Helena tivera apenas ele como centro, como referência, como mundo. Agora, parecia sempre cercada — risos, conversas, projetos, vidas que não incluíam mais o seu nome.
Helena não lhe concedeu sequer a chance de um segundo olhar. Estava inteira onde estava, voltada para o presente, alheia — ou indiferente — à presença dele.
Santiago, por sua vez, percebia. De vez em quando, levantava os olhos, captava os olhares disfarçados de Cássio e, sem dizer nada, mantinha-se firme ao lado dela.
Pedro, não. O segurança não desviava os olhos atento a tudo.
Cássio sentiu o recado chegar claro. Depois de tantos encontros casuais, ele já havia deduzido que se tratava de um segurança.
Outra pergunta nasceu insistente: “Por que ela precisaria de um segurança?”
E, quase imediatamente, outra se impôs: “Seria por causa dele? Se fosse, aquilo não era exagero demais?”
A resposta morreu antes mesmo de se formar quando Cássio identificou outro rosto conhecido à mesa dela. Manoel, o gerente de produção do Grupo Ferreira.
O estômago dele se contraiu.
“O que ele estava fazendo ali?”
Não fazia sentido. Cássio voltou a olhar para Helena, depois para o grupo inteiro. Aquilo não era coincidência.
Como o funcionário de Renato poderia estar almoçando com Helena, ainda mais depois que ela vendeu a coleção prisma para o Orsini?
Ele estaria vendendo informações sobre as coleções deles para o concorrente?
Se fosse isso, ele não poderia deixar passar. Precisava investigar para descobrir a verdade.
Santiago se levantou ao perceber a chegada do escultor.
— Igor! Que bom que conseguiu vir — cumprimentou, enfático.
Havia intimidade no gesto. Eram amigos de longa data. O artista já até expusera algumas obras na galeria de Santiago e conquistara boa visibilidade no meio da decoração pelo talento e pela linguagem própria com que imprimia suas peças.
Igor sorriu, apertando-lhe a mão com entusiasmo.
— Não podia faltar. Fiquei curioso demais com o convite.
Helena também se levantou para cumprimentá-lo, estendendo a mão com segurança.
— Prazer, Helena.
— O prazer é meu — respondeu ele, avaliando-a com interesse genuíno. — Já ouvi muito sobre você… e sobre essa coleção.
Santiago fez as apresentações ao restante da equipe, e logo os três se inclinaram sobre a mesa, tablet e esboços surgindo entre pratos e copos.
Cássio reconheceu o artesão assim que ele entrou. Já conhecia o nome, o trabalho, a reputação. O que não esperava era vê-lo tão à vontade ali — e, menos ainda, perceber uma ligação tão próxima com Helena.
Provavelmente era por causa de Santiago, concluiu. Claro que era.
Ainda assim, algo o incomodava.
Do lugar onde estava, observava a animação evidente com que conversavam. Helena se inclinava para frente enquanto falava, envolvida, interessada. O escultor gesticulava, empolgado, como quem compartilha ideias — não apenas formalidades.
“Mas que assunto eles teriam em comum para conversar com tanta animação?”
Tentou forçar a audição para escutar alguma coisa, mas o ruído do ambiente era tanto que não conseguiu captar nada.
Silvia percebia cada detalhe. Não foi o olhar direto, mas sim a ausência dele que mais a incomodava. A forma como Cássio respondia com atraso, como o corpo permanecia voltado para a mesa enquanto os olhos escapavam para ela.
Aquele almoço era para ser um novo começo para eles, mas ali estava ela se impregnando nele novamente.
Algo frio se alojou em seu estômago. Manteve o sorriso, a postura impecável, a mão repousada sobre a mesa como quem controla cada gesto. Por dentro, porém, a sensação era outra: um misto de irritação, insegurança e um incômodo profundo.
Helena não olhava de volta. Não disputava. Não provocava. Existia — e isso era o suficiente para desestabilizar tudo. Porque o que prendia Cássio não era desejo imediato, mas algo muito mais difícil de arrancar: a memória do que ele perdera.
Silvia apertou os dedos sob a mesa, sentindo a unha marcar a própria pele.
“Ele prometeu seguir em frente”, pensou. “E ainda assim…”
— Cássio! — Silvia precisou chamá-lo mais uma vez para recapturar sua atenção. — Se já terminou, podemos ir agora.
Ele demorou um segundo a responder, ainda com o olhar perdido além da mesa.
— Come uma sobremesa primeiro — sugeriu, quase como quem ganha tempo.
Silvia sentiu o impulso imediato de explodir. A irritação subiu quente, rápida — mas foi contida com precisão. Gritar não a levaria a lugar algum.
Ela respirou fundo e escolheu outro caminho.
— Divide comigo? — perguntou, suavizando a voz, calculada.
— Claro! — respondeu ele, ainda distraído demais para perceber a mudança de tom.
Silvia sorriu. Se ele precisava de tempo, ela lhe daria. Desde que fosse ao lado dela.

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