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Quadros de um divórcio romance Capítulo 168

“Nada que é seu de verdade precisa ser defendido.”

Cássio tentava comer, mas a atenção insistia em escapar do prato. Seus olhos voltavam, quase contra a própria vontade, para a mesa de Helena. Não conseguia evitar a pergunta martelando por dentro: quem eram todas aquelas pessoas ao redor dela?

Durante anos, Helena tivera apenas ele como centro, como referência, como mundo. Agora, parecia sempre cercada — risos, conversas, projetos, vidas que não incluíam mais o seu nome.

Helena não lhe concedeu sequer a chance de um segundo olhar. Estava inteira onde estava, voltada para o presente, alheia — ou indiferente — à presença dele.

Santiago, por sua vez, percebia. De vez em quando, levantava os olhos, captava os olhares disfarçados de Cássio e, sem dizer nada, mantinha-se firme ao lado dela.

Pedro, não. O segurança não desviava os olhos atento a tudo.

Cássio sentiu o recado chegar claro. Depois de tantos encontros casuais, ele já havia deduzido que se tratava de um segurança.

Outra pergunta nasceu insistente: “Por que ela precisaria de um segurança?”

E, quase imediatamente, outra se impôs: “Seria por causa dele? Se fosse, aquilo não era exagero demais?”

A resposta morreu antes mesmo de se formar quando Cássio identificou outro rosto conhecido à mesa dela. Manoel, o gerente de produção do Grupo Ferreira.

O estômago dele se contraiu.

“O que ele estava fazendo ali?”

Não fazia sentido. Cássio voltou a olhar para Helena, depois para o grupo inteiro. Aquilo não era coincidência.

Como o funcionário de Renato poderia estar almoçando com Helena, ainda mais depois que ela vendeu a coleção prisma para o Orsini?

Ele estaria vendendo informações sobre as coleções deles para o concorrente?

Se fosse isso, ele não poderia deixar passar. Precisava investigar para descobrir a verdade.

Santiago se levantou ao perceber a chegada do escultor.

— Igor! Que bom que conseguiu vir — cumprimentou, enfático.

Havia intimidade no gesto. Eram amigos de longa data. O artista já até expusera algumas obras na galeria de Santiago e conquistara boa visibilidade no meio da decoração pelo talento e pela linguagem própria com que imprimia suas peças.

Igor sorriu, apertando-lhe a mão com entusiasmo.

— Não podia faltar. Fiquei curioso demais com o convite.

Helena também se levantou para cumprimentá-lo, estendendo a mão com segurança.

— Prazer, Helena.

— O prazer é meu — respondeu ele, avaliando-a com interesse genuíno. — Já ouvi muito sobre você… e sobre essa coleção.

Santiago fez as apresentações ao restante da equipe, e logo os três se inclinaram sobre a mesa, tablet e esboços surgindo entre pratos e copos.

Cássio reconheceu o artesão assim que ele entrou. Já conhecia o nome, o trabalho, a reputação. O que não esperava era vê-lo tão à vontade ali — e, menos ainda, perceber uma ligação tão próxima com Helena.

Provavelmente era por causa de Santiago, concluiu. Claro que era.

Ainda assim, algo o incomodava.

Do lugar onde estava, observava a animação evidente com que conversavam. Helena se inclinava para frente enquanto falava, envolvida, interessada. O escultor gesticulava, empolgado, como quem compartilha ideias — não apenas formalidades.

“Mas que assunto eles teriam em comum para conversar com tanta animação?”

Tentou forçar a audição para escutar alguma coisa, mas o ruído do ambiente era tanto que não conseguiu captar nada.

Silvia percebia cada detalhe. Não foi o olhar direto, mas sim a ausência dele que mais a incomodava. A forma como Cássio respondia com atraso, como o corpo permanecia voltado para a mesa enquanto os olhos escapavam para ela.

Aquele almoço era para ser um novo começo para eles, mas ali estava ela se impregnando nele novamente.

Algo frio se alojou em seu estômago. Manteve o sorriso, a postura impecável, a mão repousada sobre a mesa como quem controla cada gesto. Por dentro, porém, a sensação era outra: um misto de irritação, insegurança e um incômodo profundo.

Helena não olhava de volta. Não disputava. Não provocava. Existia — e isso era o suficiente para desestabilizar tudo. Porque o que prendia Cássio não era desejo imediato, mas algo muito mais difícil de arrancar: a memória do que ele perdera.

Silvia apertou os dedos sob a mesa, sentindo a unha marcar a própria pele.

“Ele prometeu seguir em frente”, pensou. “E ainda assim…”

— Cássio! — Silvia precisou chamá-lo mais uma vez para recapturar sua atenção. — Se já terminou, podemos ir agora.

Ele demorou um segundo a responder, ainda com o olhar perdido além da mesa.

— Come uma sobremesa primeiro — sugeriu, quase como quem ganha tempo.

Silvia sentiu o impulso imediato de explodir. A irritação subiu quente, rápida — mas foi contida com precisão. Gritar não a levaria a lugar algum.

Ela respirou fundo e escolheu outro caminho.

— Divide comigo? — perguntou, suavizando a voz, calculada.

— Claro! — respondeu ele, ainda distraído demais para perceber a mudança de tom.

Silvia sorriu. Se ele precisava de tempo, ela lhe daria. Desde que fosse ao lado dela.

— Quem disse que não é dela?

Silvia sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.

— O que quer dizer com isso?

Cássio fez uma pausa, longa demais para ela.

— Eu errei ao diminuí-la — disse Cássio, finalmente. — Mas quer saber? Ela “é” a autora de todas as coleções anteriores da empresa. Empresa essa que, sem ela, hoje nem existiria. Muito menos bancaria os seus luxos.

Silvia sentiu o golpe antes mesmo do fim da frase.

— E o que ela conseguiu ainda foi pouco — continuou ele, sem suavizar — diante do que receberia se tivesse levado adiante todos os processos.

Silvia apertou a alça da bolsa com força, o maxilar rígido, os olhos faiscando de contenção.

Cássio deu um passo atrás, como quem se afasta para enxergar melhor — e então concluiu, olhando-a direto nos olhos:

— Em nenhum momento, nunca, eu a vi te provocar ou te insultar. Diferente de você.

O silêncio que se instalou foi pesado.

— Tenha postura — acrescentou, frio. — Não me faça arrepender de ter concordado em me casar com você.

Silvia sentiu o chão ceder sob os pés, ainda que não demonstrasse. Endireitou a postura, recompôs o rosto, mas por dentro algo se partiu com um estalo seco.

Cássio pagou a conta e seguiu para a saída sem lançar um único olhar a mais para ela.

Silvia permaneceu ali por alguns segundos, imóvel, como se o chão tivesse decidido prendê-la. Observou-o se afastar com passos firmes, seguros demais para alguém que acabara de expô-la daquela forma.

Depois de tudo ele ainda ousava defendê-la.

A constatação não doeu. Queimou.

A raiva começou a subir lenta, viscosa, ocupando cada espaço do peito. Não era apenas Helena. Era a sombra que ela projetava — o talento, o reconhecimento, a liberdade. Tudo aquilo que Silvia acreditava ter conquistado por mérito próprio agora parecia pálido diante do que Helena era sem sequer tentar.

E Cássio…

Cássio não passava de um homem fraco. Preso a memórias, incapaz de cortar o passado com a lâmina que fingia empunhar. Um homem que a escolhia por conveniência, não por devoção.

Silvia respirou fundo, recompôs o rosto, e o seguiu para fora sentindo um turbilhão interno.

Se ele ainda a defendia… se Helena ainda tinha esse poder… então o jogo estava longe de terminar.

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