“O que é raro não se improvisa: se forja.”
Helena chegou à fábrica de Nicolas acompanhada de Santiago e de sua equipe algum tempo depois de deixarem o restaurante. Antes mesmo de atravessarem a porta principal, foi necessário vestir os trajes de proteção — óculos, capacetes, abafadores de ruído e roupas térmicas. O ambiente exigia respeito.
O tour começou por um galpão amplo, dominado por um enorme depósito de areia fina e clara, quase branca, acumulada como uma duna artificial.
— Essa é a nossa principal matéria-prima — explicou Nicolas, enquanto caminhavam ao redor do monte. — Cerca de setenta por cento da composição de cada peça vem daqui.
Em seguida, passaram pelo depósito de barrilha, a segunda matéria-prima mais importante, responsável por reduzir o ponto de fusão do vidro. Logo depois, pelo setor de calcário, que garantia estabilidade química e resistência às peças finais.
Enquanto caminhavam, Nicolas explicava a função de cada componente com didatismo e entusiasmo, deixando claro que aquele não era um processo simples nem rápido. Era ciência, técnica e experiência acumulada ao longo de anos.
Além desses três depósitos, chegaram a um espaço ainda maior, repleto de vidro quebrado, separado por cores e granulometria.
— O vidro é um dos poucos materiais que podem ser reaproveitados cem por cento — disse Nicolas, com visível orgulho. — E nós levamos isso muito a sério. Tudo o que conseguimos retirar do descarte comum é uma vitória contra o desperdício e contra o impacto ambiental.
Helena observava tudo com genuína admiração.
Nicolas explicou que os materiais eram transportados pneumaticamente, por meio de tubos, até os fornos industriais. Apontou então para grandes tonéis metálicos.
— O oxigênio líquido é fundamental aqui — explicou. — Ele intensifica a combustão e ajuda a derreter a mistura com mais eficiência.
Seguiram para a área dos fornos. O calor era quase físico, palpável. As temperaturas deles chegavam a mil e quinhentos graus Celsius. Nicolas retirou uma pequena amostra da massa incandescente — líquida, brilhante, viva — semelhante a lava em movimento.
— Aqui o vidro nasce — disse.
A massa escorria do forno diretamente para as formas posicionadas abaixo, onde era prensada para assumir o formato desejado. Em poucos segundos, a peça já era retirada: sólida, definida, ainda incandescente.
Nicolas também explicou outros processos, nos quais o vidro era depositado dentro das formas e, em seguida, uma máquina injetava ar comprimido, expandindo o material até que ele se moldasse perfeitamente às superfícies internas.
— É assim que vamos produzir as suas cúpulas — concluiu.
Helena estava visivelmente empolgada. Fazia perguntas, elogiava detalhes, comentava ideias em voz alta. Tudo ali a estimulava — o calor, o som metálico, a dança orquestrada das máquinas.
Depois, seguiram para a seção de requeima, onde o vidro era aquecido novamente para corrigir microimperfeições. Em seguida, passaram pelo recozimento, etapa fundamental para aliviar tensões internas e reduzir o risco de quebra. Só então vinha o empacotamento.
Mas Nicolas ainda guardava algo especial.
Antes de irem embora, levou o grupo até sua oficina pessoal.
Era um espaço menor, mais silencioso, quase íntimo. Ali não havia grandes máquinas nem linhas industriais. Apenas ferramentas manuais, fornos menores e bancadas marcadas pelo tempo.
— É aqui que eu crio de verdade — disse ele. — Onde faço minhas peças autorais. Do jeito antigo. No ritmo do fogo e das mãos.
Helena percorreu o espaço em silêncio respeitoso.
Ali, mais do que uma fábrica, ela enxergava arte em estado bruto.
E teve certeza de que havia escolhido o parceiro certo — não apenas para produzir, mas para dialogar com a alma da coleção.
As obras estavam espalhadas pelo espaço como se tivessem brotado dali.
Sobre uma bancada de madeira escurecida pelo uso, repousavam pequenas esculturas de vidro maciço, algumas translúcidas, outras levemente foscas, em tons de âmbar, mel, azul profundo e verde musgo. As formas não eram óbvias — lembravam fragmentos de cristais encontrados na natureza, quase imperfeitos de propósito, com faces irregulares que captavam a luz de maneira inesperada.
Em uma prateleira mais alta, havia uma série de vasos alongados, com gargalos assimétricos, como se o vidro tivesse sido torcido ainda quente. A superfície revelava bolhas internas congeladas no tempo, pequenas imperfeições que denunciavam o processo manual e tornavam cada peça única.
— Essas bolhas… — Helena aproximou-se quase sem perceber, os olhos brilhando. — Elas são lindas. Parece que o vidro respirou antes de solidificar.
Nicolas sorriu, satisfeito.
— Exatamente isso. Eu nunca as elimino. São como impressões digitais do processo.
Mais adiante, penduradas por fios quase invisíveis, havia peças que lembravam gotas suspensas no ar. Quando o vento leve atravessava o ambiente, elas se tocavam com um som delicado, quase musical.
Helena levou a mão ao peito.
— Isso aqui é poesia sólida — murmurou. — Dá vontade de montar um espaço inteiro só para que essas peças existam.
Santiago observava a cena com um sorriso divertido, encostado em uma das colunas. Já conhecia aquele brilho nos olhos dela. Era o mesmo que surgia quando ela encontrava algo que falava diretamente com sua essência criativa.
— Se eu deixar, você passa a noite aqui — comentou, em tom leve. — E ainda sai querendo mudar metade da coleção.
Ela riu, sem negar.
— Não posso prometer nada — respondeu, girando lentamente ao redor de uma escultura maior, posicionada no centro da oficina.
Nicolas cruzou os braços, observando-a com atenção.
— Fico feliz que enxergue assim. Nem todo mundo entende o que eu faço aqui.
— Eu entendo — ela respondeu, segura. — Porque eu trabalho do mesmo jeito. A gente não cria objetos. A gente cria experiências.
Helena virou o rosto para ele, ainda empolgada.
— Nicolas, eu gostaria que uma dessas peças esteja no estande. Como obra autoral, só para contar um pouco da sua história.
O artesão sorriu, um sorriso genuíno, de quem se sente visto.
— Então já valeu cada queimadura — respondeu.
Entre vidro, fogo e ideias em ebulição, Helena sentiu algo muito claro: a coleção não estava apenas ganhando forma. Estava ganhando alma.
Na hora da despedida, Nicolas se afastou por um instante e voltou com algo embrulhado em jornal simples, preso apenas por um barbante fino. Estendeu o pacote a Helena com um gesto cuidadoso, quase cerimonial.
— Aqui — disse. — É pra você. Santiago me contou que vocês vão se casar em breve. Aceite como um presente antecipado.
Helena recebeu o embrulho com surpresa genuína.
— Nicolas, você não precisava… — começou, já desfazendo o barbante com cuidado.
O papel revelou uma pequena escultura de vidro maciço. A peça tinha a forma de dois volumes que se tocavam apenas em um ponto, como se estivessem em equilíbrio delicado. Um deles era translúcido, levemente dourado; o outro, quase cristalino, captava a luz de maneira suave. Onde se encontravam, o vidro parecia mais espesso, como se aquele contato fosse o que sustentava toda a estrutura.
— Eu chamo de Convergência — explicou Nicolas. — São duas forças independentes, mas que só se mantêm de pé porque decidiram se apoiar.
Helena ficou em silêncio por alguns segundos, os olhos atentos, marejados sem perceber. Girou a peça lentamente entre os dedos, observando como a luz atravessava o vidro e se transformava.
— É… é linda — disse por fim, a voz mais baixa. — Não só pelo que é, mas pelo que significa.

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