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Quadros de um divórcio romance Capítulo 170

“Não existe obra sem passado. O que se chama de começo é apenas mais uma camada.”

Santiago se despediu de Helena e seguiu de volta para a galeria. Ela retornou para a Orsini acompanhada de Pedro e de sua equipe. Já era fim de tarde quando se sentaram com Manoel para alinhar os últimos detalhes da produção — ao menos das primeiras peças que seriam utilizadas no estande. Era hora de transformar conceito em matéria, ideia em cronograma.

Com a etapa de criação das novas peças finalmente concluída, Helena orientou a equipe a finalizar os ajustes da coleção de equipamentos vintage. O projeto seguia firme, bem encaminhado, então poderia se ausentar por um tempo.

Ver a arte de Nicolas despertara algo nela. Havia dias que não se dedicava à pintura — e, se realmente pretendia expor sua arte um dia, sabia que precisaria se entregar mais.

Assim, os dois dias seguintes foram quase inteiros passados no quintal de casa, imersa entre telas, pincéis e tinta. O tempo parecia diluir-se ali, marcado apenas pela mudança da luz e pelas cores que surgiam camada após camada.

Mabe, que já demonstrava certo cansaço da rotina na agência particular com Marcelo, parecia igualmente grata pela pausa. Revezava-se entre correr livre pela área verde e descansar aos pés de Helena, como uma guardiã silenciosa daquele momento de criação.

De vez em quando, Consuelo ligava para a filha para conferir algum detalhe do casamento. Helena sorria a cada chamada. Era grata pela mãe ter um gosto generoso por decoração — e sabia que, sendo a pessoa que a trouxe ao mundo e mais a conhecia, faria escolhas perfeitas.

Maitê e dona Olivia também estavam completamente envolvidas nos preparativos, enviando mensagens animadas, sugestões carinhosas, pequenos comentários cheios de afeto.

Em uma das noites, Helena foi com Santiago conhecer a casa que Aurora havia conseguido para seus pais. Tudo acontecia rápido: a reforma já havia começado. Aquilo a deixou feliz por dois motivos — ter os pais novamente por perto e saber que eles teriam um novo lugar tranquilo para viver.

A vida seguia com uma leveza nova. Uma tranquilidade que não vinha da ausência de problemas, mas da certeza de estar no caminho certo.

Havia amor.

Havia trabalho.

Havia futuro.

E, para Helena, aquilo já era mais do que um dia imaginara possível.

...

A sexta-feira chegou e, como havia prometido, Cássio acompanhou Silvia à consulta. A convivência entre eles nos últimos dias não tinha sido fácil. Havia silêncios longos demais, palavras medidas demais, e uma tensão constante que nem mesmo o esforço dela conseguia dissolver por completo.

Silvia sabia que havia errado ao confrontar Helena no restaurante. Reconhecia agora, com frieza estratégica, que a impulsividade fora um erro. Não era assim que derrubaria alguém como ela. Fora ingênua ao deixar a raiva conduzir seus passos.

Se quisesse reconquistar Cássio — e mantê-lo — precisava agir diferente. Precisava se moldar. Ser o mais parecida possível com Helena. Mesmo que isso lhe causasse repulsa.

Ser doce. Compreensiva. Silenciosa quando fosse necessário.

Ainda que fosse exaustivo, era o único caminho possível.

Deitou-se na maca e ergueu a camisa, expondo a barriga um pouco mais saliente. Cássio permaneceu de pé ao seu lado, atento enquanto a médica espalhava o gel frio sobre a pele dela.

Silvia estendeu a mão em direção a ele, num gesto calculadamente frágil. Cássio hesitou por um instante — breve, quase imperceptível — antes de entrelaçar os dedos aos dela.

Então a imagem surgiu.

A ultrassonografia se projetou na grande tela da sala, preenchendo o ambiente com sombras, formas e movimentos sutis. Cássio prendeu a respiração sem perceber.

Ali estava.

O filho dele.

Bracinhos. Pernas. Pequenos dedos se abrindo e fechando. O contorno do rosto, o narizinho, o coração pulsando firme em um ritmo constante.

— Está tudo indo muito bem — disse a médica, com naturalidade profissional. — O desenvolvimento está dentro do esperado para uma gestação de pouco mais de três meses.

Cássio não respondeu de imediato. Aproximou-se um pouco mais da tela, os olhos fixos, quase hipnotizados.

— Ele… se mexe bastante — murmurou, como se falasse consigo mesmo.

— É um bebê ativo — confirmou a médica, sorrindo. — E saudável.

Silvia observava o rosto dele mais do que a tela. A forma como o maxilar relaxou, como o olhar endurecido dos últimos dias cedeu espaço a algo mais vulnerável.

Ali estava o ponto fraco.

E também a âncora.

— Nosso filho… — disse ela, em voz baixa, apertando a mão dele com cuidado.

Cássio engoliu em seco.

E enquanto entravam no carro, com Silvia ainda segurando sua mão, ele soube — com uma convicção quase perigosa: se conseguisse ser um bom pai, talvez ainda pudesse provar que não havia falhado em tudo.

...

Helena havia combinado de encontrar a equipe na São Paulo Expo naquela manhã. Faltavam apenas cinco dias para o início da feira e, embora Manoel já a tivesse informado de que a produção seguia dentro do cronograma, ela sabia que não podia deixar tudo para a última hora.

Além da Haus Decor Show prestes a começar, outras feiras importantes já estavam no radar da Orsini para aquele mesmo ano — a Formóbile e a Abimad. Francesco deixara claro que a intenção era marcar presença consistente no mercado brasileiro, ocupar espaços, criar continuidade. E isso exigia planejamento, precisão e atenção aos detalhes.

O problema era que o local raramente ficava vazio. A São Paulo Expo praticamente não dormia. Sediava eventos distintos quase todas as semanas, o que tornava inútil qualquer visita antecipada demais.

Tanto que, ao chegar ao complexo, acompanhada de Pedro, Helena encontrou ainda vestígios da feira de destilados que havia terminado no dia anterior. Alguns estandes estavam sendo desmontados, estruturas metálicas expostas, lonas sendo recolhidas, empilhadeiras cruzando os corredores em movimentos calculados.

Ela parou por um instante, observando.

O espaço era imenso. Um verdadeiro organismo vivo que se transformava a cada evento. Ruas internas, blocos numerados, pavilhões que, dependendo da feira, viravam bairros inteiros. Uma pequena cidade provisória que surgia e desaparecia conforme a necessidade.

— Impressionante — comentou Helena, quase para si mesma. — Cada feira apaga a anterior como se nunca tivesse existido.

Pedro assentiu, atento ao redor.

Seguiram juntos até o local indicado no folder de divulgação da feira — um ponto estratégico, próximo à entrada principal, fácil de localizar e impossível de ignorar. Assim que se aproximou, Helena avistou alguns membros da equipe acenando à distância.

O espaço estava em plena efervescência. Havia o fluxo de quem se despedia, ao mesmo tempo, de quem já chegava para ocupar os novos estandes. Caixas passavam em carrinhos, estruturas metálicas eram erguidas, vozes se cruzavam em diferentes idiomas. Era um vai-e-vem constante, típico daquele organismo temporário que a São Paulo Expo se tornava a cada evento.

Helena cumprimentou todos com abraços e sorrisos sinceros, quase saudosa — ainda que tivesse se ausentado por apenas dois dias. Para ela, aquele ritmo compartilhado criou vínculos rápidos e intensos.

Pedro também cumprimentou a equipe, educado e discreto, embora sem a mesma efusividade. Sua presença já era habitual para todos ali, ainda que nenhum deles compreendessem exatamente por que Helena precisava de um segurança. Mesmo assim, ninguém questionava. O ambiente de trabalho era informal, próximo, mas havia limites tácitos que todos respeitavam.

Todos sabiam um pouco pelo que aparecia nos tabloides, mas, de algum modo, haviam aprendido que a vida pessoal de Helena não era assunto aberto — e que Pedro fazia parte do pacote, silencioso, atento, sempre alguns passos atrás.

Helena respirou fundo e olhou ao redor, absorvendo o espaço.

Ali, em poucos dias, tudo aquilo precisaria se transformar.

E, cercada pela equipe, pelo ruído da montagem e pela expectativa que crescia no ar, ela sentiu a nova e boa sensação de estar exatamente onde precisava estar.

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