O sol já atingia seu ponto alto no céu quando Helena estacionou em frente a um pequeno bistrô de comida caseira, escondido entre árvores floridas e fachadas coloridas.
O letreiro pintado à mão e o aroma de manjericão fresco no ar davam ao lugar um charme quase bucólico. No interior, mesas para dois com cadeiras estofadas e jarras com flores do campo criavam uma atmosfera acolhedora.
Lívia já a esperava, sorridente, acenando de longe.
— Hmm... alguém parece especialmente feliz hoje! — brincou a amiga, arqueando uma sobrancelha. — Seria por um certo cavalheiro de beleza arrasadora que vi ao seu lado ontem?
Helena riu, meneando a cabeça.
— Deixa disso... é por um motivo ainda melhor.
— Ah, não! Não me mata de curiosidade, conta logo!
Helena fez um pequeno suspense, sustentando o olhar divertido da amiga.
— Comprei uma casa.
O silêncio que seguiu durou apenas o tempo de Lívia assimilar a frase antes de soltar um gritinho de felicidade.
— Não acredito! Jura?
— Juro! Ela é pequena, mas perfeita. Tem uma sala ampla, banhada de luz, ideal para montar meu ateliê. e a corretora... Aurora, um amor. obrigada por ter me indicado.
Lívia segurou as mãos da amiga, com os olhos marejados de orgulho.
— Você não imagina como fico feliz por você. Agora falta só um último passo, colocar um ponto final em tudo isso.
Helena assentiu com serenidade.
— Sim. Falta pouco.
O almoço correu leve, repleto de risadas e confidências. Entre um gole de suco e outro de café, discutiram detalhes do “revide” — não movido por vingança, mas por justiça. Helena não sentia ódio, nem sequer tristeza. Era como se algo dentro dela tivesse se esvaziado, dando lugar a uma paz sólida, inquebrável. Mas isso não queria dizer que teria piedade.
Depois do almoço, como ainda restava um tempo antes do próximo cliente de Lívia, decidiram passear por uma boutique próxima. A vitrine chamava atenção por sua delicadeza: tecidos esvoaçantes, tons quentes e a promessa de novos começos.
Helena entrou, e logo sentiu-se envolvida pelo perfume de lavanda e o som suave de uma música ao fundo. Era um mundo à parte — colorido, leve, feminino.
Enquanto passava os dedos pelas araras, sentia a textura dos tecidos como quem reencontra algo esquecido.
Foi então que Lívia a chamou, animada:
— Encontrei! Amiga, tem que ser este! — e ergueu um vestido de um bordô profundo, intenso, como vinho derramado sob a luz. — Anda logo, experimente!
Helena sorriu e entrou no provador. O toque do tecido em sua pele era fresco, quase familiar. Quando saiu, a expressão de Lívia foi de puro espanto.
— Helena, você está simplesmente deslumbrante. Se você fosse meu tipo, eu te arrastava pro altar agora mesmo! — brincou, arrancando uma gargalhada sincera da amiga.
A cor parecia mudar sutilmente conforme Helena se movia — ora rubra e quente, ora aveludada e sombria. O tecido, um cetim leve com discreto toque de seda, deslizava por seu corpo com naturalidade, abraçando suas curvas sem ser excessivo, revelando mais pela sugestão do que pela exposição.
O decote suave alongava o colo e destacava os ombros, enquanto as alças finas, delicadamente torcidas, davam um ar de feminilidade e leveza. A cintura era marcada de forma precisa, definindo a silhueta antes que o tecido fluísse em uma saia levemente evasê, que se movia com ela, acompanhando cada passo como se tivesse vida própria.


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