“Tudo o que é construído às claras dispensa defesa.”
Francesco Orsini havia sido generoso com o espaço, reservando uma área ampla de 8 por 12 metros para o estande.
Helena agradeceu mentalmente por ter escolhido usar calças naquele dia; assim, pôde se sentar no chão sem cerimônia, cercada pela equipe, plantas abertas, pranchetas apoiadas nos joelhos e celulares espalhados pelo piso.
A conversa fluiu rápida, técnica e criativa ao mesmo tempo. Medidas eram marcadas com fita no chão, mãos desenhavam volumes no ar, ideias se sobrepunham até ganharem forma.
Depois de algum tempo, chegaram a um consenso.
Reservariam uma faixa de 2 por 8 metros logo na lateral para a divulgação institucional da Orsini — logotipo, manifesto da marca, imagens da coleção Prisma e informações sobre os designers. Um ponto de impacto imediato para quem entrasse.
O restante do espaço, 8 por 10 metros, seria dividido igualmente em quatro ambientes realistas, quase cenográficos. Pequenos cômodos que simulavam usos reais: sala de estar, jantar, quarto e escritório. A ideia era simples e poderosa — apresentar os móveis não como peças isoladas, mas inseridos em contextos vivos, como se pertencessem naturalmente à rotina de alguém.
Para isso, decidiram construir uma parede central em formato de cruz, como um grande “+” no coração do estande, com portas dando acesso de um cômodo para o outro. As extremidades permaneceriam abertas, para criar uma circulação fluida e estratégica. De qualquer ponto do estande, o visitante conseguiria enxergar mais de um espaço ao mesmo tempo. As peças não ficariam escondidas nem compartimentadas — seriam reveladas aos poucos, em camadas, conforme o olhar avançasse.
Assim, os móveis poderiam ser observados em ângulo de 360 graus, sem frente ou verso definidos. Cada passo ofereceria uma nova composição, uma nova leitura de luz, textura e volume.
— Vai dar até vontade de morar nesse estande — comentou Julia, observando o traçado no chão.
Helena assentiu, satisfeita.
— Exatamente. Nada fechado demais. Nada engessado. Quero que as pessoas circulem, descubram, se sintam convidadas a entrar.
Os olhares ao redor se iluminaram. Ali, sentados no chão frio de um pavilhão ainda em transição, começava a nascer algo que, em poucos dias, precisaria competir com dezenas de outros estandes — e, ainda assim, se destacar.
Helena sabia que, se acertassem na narrativa do espaço, o mobiliário faria o resto.
Ela se levantou, limpando as mãos na calça, e voltou a percorrer o espaço com o olhar atento, ajustando mentalmente alturas, fluxos, pontos de luz. Falava com a equipe, gesticulava, ria de uma ideia, descartava outra com gentileza firme. Estava inteira ali — concentrada, viva, no controle.
Só não percebeu que, a vários metros de distância, alguém havia parado para observá-la.
Não era um olhar casual de quem passava.
Era atento. Demorado. Quase reverente.
...
Renato aguardava a chegada de Cássio no espaço reservado para o estande deles quando avistou Helena.
A surpresa foi imediata.
Sabia que a Orsini Design participaria da feira, claro — o mercado inteiro comentava —, mas não imaginara que ela mesma estaria ali, tão cedo, tão envolvida, no meio do pavilhão ainda em transição.
Sem perceber, Renato passou a acompanhá-la com atenção.
Observou cada movimento seguro, cada decisão tomada com a naturalidade de quem domina o próprio território. Viu quando Helena se abaixava para riscar o chão, discutindo medidas com a equipe; quando se erguia para defender uma ideia, firme, articulada, sem elevar a voz. Não havia afetação. Apenas competência em estado puro.
Era… admirável vê-la em ação.
Totalmente diferente da imagem da mulher que Cássio projetava dela antes.
Pensou no amigo. Sabia que encontrá-la ali seria um baque para ele. Um choque inevitável entre passado e presente. Mas, talvez — só talvez — também fosse o empurrão que ele precisava para seguir em frente.
Renato suspirou, cruzando os braços.
Algumas verdades doem. Outras libertam.
Ele ainda a observava quando Cássio chegou, o semblante diferente — mais solto, quase luminoso.
— Desculpa a demora! Te fiz esperar muito? — perguntou, aproximando-se.
— Não — respondeu Renato, desviando o olhar de Helena e voltando-se para ele. — Cheguei agora há pouco.
Fez uma pausa curta, avaliando-o.
— Por que você parece tão feliz?
Cássio sorriu, um sorriso aberto que Renato não via havia tempo.
— Vi meu filho hoje — confessou. — Acompanhei a Silvia no ultrassom.
Renato ergueu as sobrancelhas, genuinamente surpreso.
— Então é um menino?
— Ainda não dá pra saber — respondeu Cássio, rindo. — Falo “filho” por força de expressão. Mas, seja menino ou menina… o que importa é que eu vou ser pai.
Renato se aproximou e o puxou para um abraço rápido, dando tapinhas firmes em suas costas.
— Fico feliz por você, cara. De verdade.
Cássio respirou fundo, como se aquele simples gesto selasse algo importante.
— Eu também estou — disse. — Acho que… finalmente estou.
Ele estudou Renato por um instante.
— Já você me parece tenso. O que foi?
— Senhor Renato — respondeu Manoel, educado, lançando em seguida um olhar rápido para Cássio. — Não esperava encontrá-lo aqui.
— Vamos participar da próxima feira — explicou Renato. — E você? O que faz aqui?
Manoel hesitou apenas um segundo, o suficiente para ajustar a postura.
— Bem… acredito que a mesma coisa.
O silêncio que se formou foi breve, mas denso.
— Está trabalhando na Orsini agora? — perguntou Cássio, a voz baixa, carregada de acusação mal disfarçada.
Manoel ergueu o queixo, o gesto firme de quem não aceita ser diminuído. Não havia constrangimento ali — apenas clareza.
— Estou, sim.
Sustentou o olhar de Cássio sem vacilar.
— Recebi uma proposta melhor, com mais autonomia e reconhecimento pelo meu trabalho. Avaliei e aceitei.
Renato acompanhava a troca em silêncio, atento, sem intervir.
— Você poderia ter sido transparente — retrucou Cássio, o maxilar rígido.
— Eu fui — respondeu Manoel, com calma. — Pedi desligamento e não violei contrato nenhum.
O silêncio voltou a se impor. Ao fundo, o som das estruturas sendo montadas pareceu crescer, como se o próprio pavilhão respirasse a tensão do momento.
Manoel ajustou a pasta sob o braço e deu um passo para o lado.
— Bem… estou em horário de trabalho e preciso ir — disse, já se afastando. — Boa sorte para vocês.
Não esperou resposta.
Renato permaneceu alguns segundos com as mãos nos bolsos, acompanhando o ex-funcionário se afastar pelo pavilhão, com o passo seguro de quem sabia exatamente para onde ia.
— É uma pena — comentou, por fim. — Perdi um ótimo profissional.
Cássio soltou um bufar curto, impaciente, já se afastando.
— Vamos logo resolver o problema.
Renato ainda demorou um instante. O suficiente para lançar um último olhar na direção de Helena, ao longe, cercada pela equipe, completamente alheia àquele embate. Depois suspirou, como quem aceita uma verdade incômoda, e se virou para seguir Cássio.

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