“Não se negocia o valor de quem já aprendeu a se sustentar.”
Manoel se aproximou do grupo da Orsini e, ao avistar Helena, cumprimentou a todos antes de dirigir-se a ela. Foi recebido com um sorriso aberto, daqueles que ela reservava para quem trabalhava ao seu lado.
— Está tudo bem por aqui? — perguntou ele, um pouco encabulado.
Helena franziu levemente o cenho ao notar a expressão dele.
— Está, sim… por quê? Aconteceu alguma coisa?
— Eu… — hesitou por um segundo. — Acabei de esbarrar com o senhor Amaral e com o senhor Ferreira. Eles também vão expor na feira.
As sobrancelhas de Helena se ergueram, surpresa genuína. Ao seu lado, Pedro mudou imperceptivelmente de postura; o corpo relaxado tornou-se atento, os olhos varrendo o entorno com precisão automática.
Helena levou um instante para absorver a informação. Quando falou, sua voz saiu firme, sem vestígios de incômodo.
— Bem, a feira é aberta — disse, com naturalidade. — Não há como impedir concorrentes de participarem também.
Manoel assentiu, aliviado.
— Fico feliz em ouvir isso — comentou. — E então? No que precisa de mim?
O semblante dela se iluminou de imediato.
— Venha — disse, animada, já se movendo. — Vou te mostrar como pensamos na divisão dos ambientes.
Helena explicou, ponto a ponto, tudo o que haviam definido para o espaço e no que precisariam dele. Falava com as mãos, os olhos atentos, a voz animada — o entusiasmo era contagiante.
— O prazo é curto — disse Manoel, após ouvir tudo com atenção —, mas, se trabalharmos neste fim de semana, é totalmente viável.
— Mas será que conseguimos profissionais assim, em cima da hora? — questionou Júlia, cautelosa.
Manoel balançou a cabeça, seguro.
— Acho que nem será necessário. Podemos montar toda a estrutura em aço galvanizado e fazer a forração em drywall. É um processo rápido, limpo e eficiente.
Fez uma breve pausa antes de completar:
— Posso chamar os próprios funcionários de serviços gerais da empresa. Para eles, seria uma boa oportunidade de fazer algumas horas extras também.
— Mas, nesse caso, precisamos fazer o pedido do material o quanto antes, certo? — Helena ponderou, já antecipando os próximos passos.
— Sim — confirmou ele. — Vou fazer a medição agora mesmo e calcular as quantidades. Assim que tiver os números fechados, passo direto para o setor de compras.
Helena soltou o ar aliviada, e sorriu.
— Muito obrigada, Manoel.
Ele retribuiu o sorriso, sincero.
— Não me agradeça. Trabalhar com você sempre foi gratificante.
Havia ali algo que ia além da relação profissional — respeito, admiração mútua, sintonia.
— Então vamos te deixar trabalhar — disse Helena, já reunindo a equipe. — Qualquer coisa, nos avise.
Despediu-se e, junto dos demais, começou a se preparar para deixar o pavilhão. Até que a estrutura começasse a tomar forma, não havia mais o que fazer ali.
Caminhavam em direção à saída, conversando animadamente sobre a próxima coleção — agora que as novas peças da Prisma estavam encaminhadas e a linha de equipamentos vintage praticamente fechada, a sensação era de ciclo cumprido e outro já se anunciando.
— Então você volta pra empresa com a gente? — perguntou Rafael, ajeitando a mochila no ombro.
— Sim — respondeu Helena, sem hesitar. — Podemos começar essa nova coleção ainda hoje. Estou cheia de ideias.
Ela sorria, leve, já com a cabeça alguns passos à frente.
Foi então que uma voz conhecida atravessou a conversa de forma inesperada, cortando o ar com um tom de surpresa mal disfarçada:
— Você também está trabalhando na Orsini?
...
Cássio e Renato retornavam para o interior do pavilhão quando avistaram Helena e o grupo da Orsini se encaminhando para a saída. Cássio estacou automaticamente, o corpo reagindo antes mesmo do pensamento.
Captou apenas fragmentos da conversa — palavras soltas, planos ditos sem esforço.
Até então, ele acreditava que Helena havia apenas licenciado a coleção Prisma para a Orsini Design. Na sua lógica, a presença dela ali se justificava apenas pelo fato de as peças expostas serem criação sua. Nunca lhe ocorrera que ela pudesse ter ido além disso.
Mas algo no que ouvira contrariava completamente essa ideia.
— Você também está trabalhando na Orsini? — perguntou, incrédulo, abrindo a boca antes de pensar.
Helena estacou por um instante.
Virou-se devagar.
Pedro, em dois passos largos e silenciosos, já estava ao lado dela — firme, atento, ocupando espaço sem precisar anunciar nada.
Helena mediu Cássio de cima a baixo. O rosto sereno, a postura impecável, nenhuma sombra de surpresa real.
— Está falando comigo? — perguntou, a voz calma, quase neutra.
A pergunta não era provocação. Era delimitação.
Renato prendeu a respiração por um segundo, sentindo que aquela conversa tinha peso demais para acontecer ali, em público.
Cássio engoliu em seco.
— Fui eu quem foi generosa demais ao aceitar um acordo, quando poderia ter levado os processos até o fim.
Cássio fez menção de avançar outra vez.
Desta vez, Pedro foi incisivo.
— Senhor Amaral — disse o segurança, a voz firme, o olhar duro —, permita-me lembrá-lo de que existe uma ordem de restrição que o impede de se aproximar de Helena.
Deu meio passo à frente, ocupando ainda mais espaço.
— Sei que, atuando no mesmo setor, é quase impossível não frequentarem os mesmos ambientes. Mas mantenha os limites.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Cássio sentiu-se ultrajado — não porque ela tivesse mentido, mas justamente porque não o fizera. Cada palavra de Helena ecoava com a precisão cruel da verdade.
O que o feria não era o conteúdo. Era a forma.
A Helena de antes jamais o exporia daquele jeito. Nunca o confrontaria em público, nunca o faria parecer pequeno diante de estranhos. A Helena de antes o protegeria. O pouparia. Porque o amava.
Mas aquela mulher diante dele não era mais aquela Helena.
Essa não se curvava. Não se explicava. Não se preocupava em preservar a imagem dele.
Essa não o amava mais.
Helena sustentou o olhar de Cássio outra vez — não como quem desafia, mas como quem encerra.
— Eu não te devo satisfação sobre onde trabalho, nem sobre qualquer outro aspecto da minha vida.
Fez menção de se virar, mas algo lhe ocorreu. Parou no meio do movimento e voltou-se apenas o suficiente para que ele entendesse que ainda havia mais.
— Ah… e mais uma coisa.
A voz saiu baixa, controlada. Perigosa de tão calma.
— Mantenha a sua mulher sob controle. Porque eu não vou mais tolerar provocações ou difamações. Você se livrou do processo pelas coleções — continuou —, mas não se iluda achando que isso me impede de agir por outros motivos.
O silêncio ao redor parecia absoluto agora.
— Siga a sua vida. Seja feliz — concluiu, sem ironia. — E me deixe em paz.
Então, finalmente, virou-se de vez.
E, enquanto se afastava com a equipe, Helena deixou claro que aquela não era uma ameaça vazia. Era um aviso.
A mulher que um dia o amou havia ficado no passado — a que seguia adiante agora sabia exatamente o valor que tinha e não estava mais disposta a negociar sua dignidade.

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