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Quadros de um divórcio romance Capítulo 173

— Você está ficando louco? — Renato disparou, a voz carregada de irritação. — Se for começar com isso de novo, eu estou fora.

Virou-se para se afastar.

O movimento fez Cássio reagir. Ele sabia que suas atitudes passadas já haviam afastado Renato uma vez. Não podia repetir o erro.

— Espera. — A voz saiu mais baixa. — Eu sei que errei. Eu só… eu não consegui me controlar.

Renato parou, mas não se virou de imediato.

— Você precisa se tratar.

Cássio respirou fundo, o peito apertado.

— Você não entende. Depois de cinco anos juntos, ela foi capaz de se unir ao nosso maior concorrente. — A voz falhou por um instante. — Ela me amava. Agora parece que quer me destruir.

Renato finalmente se virou. Riu sem humor, cansado.

— Te destruir? — balançou a cabeça. — Ela só seguiu com a vida dela.

Deu um passo à frente, firme.

— Se ela encontrou alguém que reconhece o talento dela e oferece uma boa oportunidade, qual é o erro em aceitar?

O silêncio pesou.

— Ela tem todo o direito de seguir em frente — completou. — Não seja esse idiota.

Cássio cerrou o punho, a raiva latejando. Até o amigo agora o confrontava. Ainda assim, não havia como negar: cada palavra atingia em cheio.

Doía. E muito.

Renato suavizou o tom, pousando a mão no ombro dele.

— Você chegou aqui feliz porque vai ser pai. Se agarra a isso, cara. — Disse com seriedade. — Constrói algo novo. Segue a sua vida.

Cássio assentiu, em silêncio.

...

Helena e o grupo seguiram em direção ao grande estacionamento no prédio ao lado, pela rampa que interligava os pavilhões. O som dos passos ecoava baixo, misturado a um silêncio estranho. Seus colegas trocavam olhares discretos, ainda assimilando o que haviam presenciado.

Ao vê-la agir com tanta firmeza, era difícil conciliar aquela mulher com a imagem da esposa submissa que ela fora um dia. Parecia impossível imaginar que alguém tão segura tivesse se permitido diminuir por tanto tempo.

Talvez só atravessando muito sofrimento fosse possível ser moldada daquela forma — não endurecida, mas inteira.

Júlia foi a primeira a quebrar o silêncio.

— Aquele cara é um idiota — disse, sem rodeios. — Na minha opinião, você aguentou até demais.

Helena diminuiu o passo, até parar. Virou-se para encará-la. Houve um breve silêncio, quase contemplativo, antes de responder:

— Isso agora é passado.

— Agora eu entendo por que você precisa de um segurança — comentou Rafael, ainda impactado. — Esse sujeito parece… instável.

Helena respirou fundo antes de responder, sem dramatizar:

— Na verdade, não é só por causa dele. Desde que me separei, sofri alguns atentados.

Os olhares se cruzaram, assustados. O clima mudou instantaneamente. Pedro pousou a mão no ombro dela, firme, protetor.

— Não se preocupe, Pedro — disse Rafael, com convicção. — Agora a gente também vai ajudar a protegê-la.

— Com certeza — completou Antoni. — Desde que você entrou na empresa, nosso trabalho ficou muito mais leve. Já trabalhei com chefes que só sabiam mandar e humilhar. É a primeira vez que vejo alguém tratar a equipe como igual.

Helena sorriu, sentindo o peso do confronto finalmente ficar para trás.

— Eu é que tive sorte — respondeu, sincera — de entrar para uma equipe tão talentosa quanto vocês.

Helena olhou um por um com gratidão — um olhar que dizia muito mais do que qualquer discurso. Depois, endireitou os ombros, respirou fundo e sorriu com a energia de quem já havia deixado o passado para trás.

— Vamos trabalhar!

...

Depois do almoço, Cássio retornou à empresa e seguiu direto para a própria sala. Fechou a porta atrás de si com mais força do que o necessário antes de ligar para o setor jurídico.

— Peça para o Riviera vir até aqui — ordenou, seco.

Pouco depois, o advogado entrou, já com a pasta em mãos.

— Senhor Amaral, pediu para me chamar?

— Sim. — Cássio fez um gesto curto indicando a porta. — Feche, por favor.

Riviera obedeceu e se sentou à frente da mesa.

— Como anda a venda dos imóveis?

— Falei com o corretor hoje de manhã — respondeu, consultando rapidamente algumas anotações. — Ele conseguiu vender cerca de sessenta por cento das propriedades até agora.

— E quanto isso representa em valores? — Cássio perguntou, sem rodeios.

— Aproximadamente treze milhões.

Cássio apertou a caneta entre os dedos, sentindo o plástico ranger sob a pressão. Treze milhões. Somados aos dezenove que havia retirado da própria conta, o total chegava a apenas trinta e dois.

Trinta e dois dos noventa que precisava repor.

— Isso não é suficiente — murmurou, mais para si do que para o advogado.

— E?

— Acho que seria bom irmos — ela disse, suave, estratégica. — Vai estar cheio de gente influente do mercado. Pode ser uma boa oportunidade para novos contatos…

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, os dedos tamborilando levemente na mesa. A ideia não era ruim. Pelo contrário. Era exatamente o tipo de vitrine de que precisava agora.

— Talvez — respondeu, por fim. — Se eu conseguir fechar algumas coisas até lá.

Silvia assentiu, satisfeita por não ter sido descartada de imediato.

— Eu cuido de tudo então. Roupa, confirmação… — aproximou-se um pouco mais. — Vai ser bom para nós.

Cássio voltou a olhar para os papéis.

— Depois falamos — disse apenas.

Silvia saiu da sala com passos contidos, o rosto aparentemente sereno. Por dentro, porém, a mente já trabalhava.

Aquele jantar não seria apenas um evento social. Seria uma vitrine para se exibir como futura esposa dele.

Cássio se recostou na cadeira, o olhar fixo na porta por onde Silvia acabara de sair. Permaneceu assim por alguns segundos, como se tentasse organizar pensamentos demais para pouco tempo. Então pegou o celular e discou para Renato.

— E aí? Já esfriou a cabeça? — perguntou o amigo assim que atendeu.

— Já te disse pra esquecer aquilo — retrucou Cássio.

Do outro lado da linha, Renato riu baixo.

— Tá… então o que foi?

— Você recebeu o convite para o jantar de trinta anos da CasaDecor?

— Recebi, sim. Chegou há alguns dias. — Fez uma breve pausa. — Por quê? Está pensando em ir?

— Acho que não faria mal — respondeu Cássio, mais calculado agora. — Perdemos alguns clientes importantes depois daquele evento fracassado. Seria bom aparecer, fazer novos contatos.

— Concordo — Renato disse, pragmático. — Esse tipo de evento é vitrine. Nos vemos lá, então.

— Combinado. Até amanhã.

— Até.

Cássio desligou e deixou o celular cair sobre a mesa. Levantou-se e foi até a janela, observando a cidade lá embaixo, movimentada, indiferente.

O jantar não resolveria seus problemas. Ele sabia.

Mas poderia ser uma brecha. Um espaço para recuperar terreno, reconstruir imagem, ganhar tempo.

E, naquele momento, tempo era o que ele mais precisava.

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