“A cura não significa esquecer o que nos machucou, e sim não permitir que isso continue controlando a nossa vida.”
Silvia voltou para a própria sala. A mente em ebulição alternava entre a curiosidade incômoda sobre o que teria acontecido na feira e a perspectiva do jantar.
Sentou-se, cruzou as pernas e começou a tamborilar os dedos sobre a mesa, pensativa. Os responsáveis pela montagem do estande eram de uma empresa terceirizada. Não havia funcionários diretos a quem pudesse sondar, nenhum ouvido fácil para colher informações.
Aquilo a irritava. Foi nesse estado que o celular vibrou sobre a mesa.
Cássio.
— Amor? — atendeu, imediatamente suave.
— Pode confirmar — ele disse, direto. — Vamos ao jantar amanhã.
O sorriso dela veio antes mesmo da resposta.
— Que bom. — Fez uma breve pausa calculada. — Ah, Cássio… recebemos três convites. Estava pensando em levar sua irmã. Depois que você diminuiu a mesada dela, ela quase não tem saído. Acho que seria bom para animá-la.
Do outro lado da linha, silêncio por um segundo.
— Pode ser — respondeu ele, desinteressado, já prestes a encerrar a ligação.
Silvia se apressou.
— Ah…
— O que foi? — perguntou ele, impaciente.
Ela modulou a voz, trazendo uma nota de vulnerabilidade cuidadosamente ensaiada.
— É que… minha barriga já está começando a aparecer. Não tenho nenhuma roupa adequada para ir.
Houve um pequeno suspiro do outro lado.
— Saia e compre.
— Vou fazer isso — respondeu ela, com um sorriso que ele não podia ver. — Obrigada.
Assim que a ligação encerrou, Silvia mandou mensagem para a cunhada.
Silvia: "Temos um jantar para ir amanhã.”
Em poucos segundos três pontinhos apareceram sinalizando que a resposta estava sendo digitada.
Viviane: “Que jantar?”
Silvia: “De 30 anos da revista CasaDecor.”
Viviane: “Oba! Que chique!”
Silvia: “Quer ir às compras agora à tarde?"
Viviane: “Já, já chego aí.”
...
O sábado chegou com leveza. Helena passou o dia imersa na pintura, enquanto recebia atualizações de Manoel sobre a montagem do estande.
A tela diante dela não era apenas uma composição de formas e cores — era a materialização de uma sensação íntima, uma narrativa de dor, paciência e desgaste.
De um lado da tela, as mãos de uma mulher repousavam sobre a mesa. O punho delicado parecia jovem, a pele suave e ainda cheia de vitalidade. Conforme os dedos se estendiam, no entanto, algo se alterava. A pele começava a envelhecer, as linhas surgindo com o tempo, os dedos murchando como se a própria vida estivesse sendo sugada da mulher.
A mesa, à sua frente, era o reflexo dessa transição. Do lado dela, a comida estava viva e fresca, convidando a um jantar compartilhado. Mas, à medida que se aproximava da outra extremidade da mesa, a comida começava a murchar e apodrecer. Como se a própria essência do ato de comer se diluísse no tempo da espera. E o vazio, que surgia do outro lado, tornava-se insuportável — não só porque a mesa estava vazia, mas porque a espera pela presença de alguém estava consumindo tudo o que restava.
A deterioração dos alimentos e das mãos, a lentidão no movimento, tudo isso refletia a dor de uma pessoa solitária e abandonada em um espaço que deveria ser compartilhado. A sensação de desintegração, de algo que nunca chega a completar seu ciclo, era palpável. A falta de presença, de atenção, transformava o que deveria ser vida em perda.
Helena continuou a pintar, quase como se sentisse aquela dor novamente.
Ela observou cada detalhe com cuidado, seus próprios sentimentos infiltrando-se na tela. E enquanto o pincel se movia, a narrativa se tornava cada vez mais dolorosa. A mulher da pintura estava cheia de esperança, mas essa esperança estava morrendo lentamente, em um tempo que não era dela.
Santiago, que precisara ir trabalhar por conta de uma nova exposição que se aproximava, chegou quase no fim da tarde. Entrou em casa sentindo a ausência de Helena, e seguiu direto para o quintal, já imaginando que a encontraria ali, imersa em seu mundo artístico.
Queria fazer uma surpresa, mas Mabe foi mais rápida, latindo de imediato ao notar sua presença, como se quisesse alertá-la.

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