“Ser de verdade seduz sem querer.”
Embora fosse um evento mais reservado, com poucos fotógrafos circulando pelo salão, aquela era uma época em que qualquer celular erguido se tornava uma lente atenta. Bastava um clique distraído para que uma imagem ganhasse o mundo.
Alguns repórteres da própria revista circulavam pelo salão, entrevistando convidados selecionados com o objetivo de reunir material para uma edição especial de aniversário. As conversas eram conduzidas com naturalidade calculada, perguntas bem escolhidas, câmeras discretas — tudo cuidadosamente alinhado ao tom sofisticado do evento.
Naturalmente, todos ali desejavam aparecer. Era uma vitrine rara, um marketing gratuito e de alto prestígio. Ainda assim, ninguém quebrava a etiqueta sendo afobado demais para chamar atenção. A regra implícita era clara: quem realmente importava não precisava disputar espaço — seria convidado a ocupá-lo.
Assim, os presentes aguardavam o momento certo, mantendo posturas elegantes, sorrisos medidos e discursos ensaiados o suficiente para parecerem espontâneos. Naquela noite, visibilidade era uma moeda valiosa… mas apenas quando conquistada com classe.
No noivado, Helena havia deixado suas redes sociais logadas no celular de Lívia. A amiga se oferecera para ser sua “assessora” e estava levando a função com um entusiasmo quase profissional. Desde então, o perfil de Helena crescia de forma orgânica e constante. Seguidores se multiplicavam, curtidas e comentários vinham em ondas, e seu nome começava a circular para muito além dos seus círculos.
Com a visibilidade, vieram também as histórias.
Pessoas que nunca tinham ouvido falar dela passaram a descobrir não apenas a artista, a designer, a noiva — mas também o passado. O antigo casamento com Cássio, a relação marcada por submissão, os silêncios, a traição, as imagens e vídeos do evento de cinco anos do Studio Cassiani reapareceram, compartilhados como fragmentos de uma narrativa maior.
Uma vida de superação.
E isso, mais do que qualquer estratégia de marketing, parecia tocar as pessoas. Comentários solidários, relatos de mulheres que se reconheciam na história dela, mensagens de apoio surgiam diariamente. Helena se tornava, sem querer, um símbolo — não de escândalo, mas de recomeço.
Entre os Amaral, apenas Viviane acompanhava tudo de perto. Sempre conectada, sempre vigilante. Era impossível que aquela repercussão lhe passasse despercebida. Ainda assim, dessa vez, escolheu o silêncio.
Aprendera — ainda que a contragosto — que toda vez que pronunciava o nome daquela mulher, algo saía do controle.
E Viviane, por mais impulsiva que fosse, sabia reconhecer quando o terreno estava instável demais para provocar um novo abalo.
Em contraponto, a imagem que circulava de Cássio estava longe de despertar comoção — muito pelo contrário. Nos bastidores, seu nome vinha sendo associado a ruídos, a disputas mal explicadas, a um passado que começava a ser reinterpretado sob outra luz. Não havia empatia ali, apenas curiosidade cautelosa e um certo distanciamento.
Os Amaral, afinal, não estavam naquela noite por afinidade. O convite não nascera de simpatia, mas de network. Eram uma empresa moveleira relevante, conectada ao universo da decoração que sustentava a alma da revista. Presença quase protocolar.
Mas desde que receberam a confirmação do próprio Francesco Orsini de que Helena Duarte o representaria naquele evento, os idealizadores estavam ansiosos por sua chegada.
Depois do relançamento impecável da coleção Prisma — que ainda reverberava no mercado como um feito raro —, a atenção se deslocara. Conversas paralelas surgiam, olhares se voltavam para a entrada do salão com expectativa. Por ela.
Queriam ver de perto a mulher por trás da coleção, a mente criativa que reposicionara uma marca, a artista cuja trajetória começava a ganhar contornos de narrativa inspiradora.
Orsini era um nome impossível de ignorar no mercado internacional. Uma marca que atravessara fronteiras com autoridade, associada a excelência, visão e ousadia criativa. E agora, com a abertura da filial no Brasil — anunciada como uma promessa de abalar estruturas já consolidadas —, começava, de fato, a cumprir o que anunciara.
Nada ali era improviso. O movimento era observado com atenção por todos os grandes players do setor. Havia expectativa, cautela e, em alguns casos, um incômodo mal disfarçado. Porque quando alguém como Orsini entra em cena, não o faz para ocupar espaço — faz para redefini-lo.
E se Francesco Orsini havia apostado em Helena, não era por acaso. Não era um gesto de cortesia, nem um golpe de marketing oportunista. Era leitura de talento.
A escolha dizia muito. Sobre o futuro da marca. E, sobretudo, sobre quem estava pronta para conduzi-lo. E aquilo era um conteúdo de peso para a revista.
Cássio permanecia sentado à mesa, analisando rostos em busca de oportunidades — sem perceber que ele não tinha espaço para orbitar ali.
As pessoas lhe dirigiam sorrisos contidos, para em seguida, disfarçadamente, murmurarem em voz baixa, como quem comenta um detalhe inconveniente de um quadro bem iluminado demais para passar despercebido.
Na última coletiva de imprensa, Cássio afirmara que a ex-esposa estava mentalmente instável, que pretendia trazê-la de volta para “tratamento” e que as acusações contra ele eram infundadas. Um discurso calculado, firme — ao menos na época.
Mas ali estava ele agora.
Com a amante ao lado, a mão pousada no ventre já saliente, sustentando a encenação de esposa legítima. A imagem não batia. Não com o que fora dito. Não com o que agora se via. E a pergunta pairava silenciosa entre os convidados: será que alguma coisa do que ele afirmara era verdade?
Tudo indicava que não.
Ainda assim, era impossível não notar a segurança com que ele se mantinha no ambiente. Ombros retos, postura impecável, o mesmo ar confiante de sempre. Coragem? Ou apenas uma capacidade quase arrogante de ignorar o julgamento alheio? Talvez os dois.
A coleção Inércia até tivera uma recepção razoável no mercado. Bons números, críticas mornas. Mas, comparada às coleções anteriores, algo gritava estar fora do lugar. O Studio Cassiani parecia ter perdido sua identidade — ou, quem sabe, assumido outra completamente diferente.
Aquilo dizia mais do que qualquer comunicado oficial: revelava não apenas um divórcio, mas a ausência de Helena por trás daquele homem que, por anos, se vendera como um gênio solitário.
Os empresários começaram a se levantar aos poucos, taças em mãos, formando pequenos círculos de conversa. O interesse era prático, estratégico. As mulheres — em sua maioria esposas que acompanhavam os maridos — permaneciam sentadas, trocando comentários amenos, observando o movimento com curiosidade treinada.
Cássio e Renato circulavam pelo salão, cada um com uma taça de vinho, tentando iniciar diálogos que pudessem render algo concreto. Um contato, uma promessa, uma brecha.

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