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Quadros de um divórcio romance Capítulo 176

“Nem todo perigo tem contorno. Alguns apenas se espalham.”

Viviane acompanhara tudo em silêncio, o olhar duro mal disfarçando o incômodo ao ver Helena ali, serena, segura, acompanhada de Santiago. Quando o casal passou próximo à mesa, algo brilhou de forma quase ofensiva aos olhos dela: a aliança de noivado no dedo de Helena.

“Como uma mulher tão sem graça podia ter fisgado um homem daqueles?”

Viviane se achava mais interessante. Mais jovem. Mais viva. Mais merecedora de estar ao lado dele.

“O que Helena tinha que ela não tinha?”

— Cunhada! — chamou, puxando o braço de Silvia com impaciência. — Você disse que ia me ajudar a conquistá-lo.

Silvia, até então imóvel, estava paralisada por uma raiva fria. Helena parecia surgir em todos os lugares — e agora também ali, no momento exato em que ela tentava se firmar como a nova esposa de Cássio. A presença dela reacendia murmúrios antigos, comparações inevitáveis, olhares curiosos.

E o pior: a atenção.

A atenção que deveria ser dela.

Silvia lançou um olhar rápido para Cássio. O idiota nem se dava ao trabalho de disfarçar o fascínio. Aquilo a fez cerrar os dentes.

Voltou o olhar para Helena, estreitando os olhos, enquanto a mente começava a se mover com precisão calculada. Ainda tinha cartas na manga. Recursos. Pequenos instrumentos que Dante lhe fornecera ao longo de outras conquistas — ferramentas que nunca falhavam quando usadas no momento certo.

— Não se preocupe — disse, finalmente, em tom baixo. — Acho que essa é uma ótima noite para provar que você é muito melhor do que ela.

Viviane vibrou, inclinando-se na direção da cunhada.

— Sério? E como vamos fazer isso?

Silvia sorriu de lado. Um sorriso perigoso.

— Deixa comigo.

...

Do outro lado do salão, Helena estava sentada conversando quando deixou o olhar percorrer o ambiente por um breve instante. Homens formavam pequenas rodinhas animadas. A maioria das mulheres permanecia sentada, envolvida em conversas discretas — olhos atentos, sempre observando.

Eram poucas as que transitavam entre os grupos masculinos: empresárias, decoradoras, designers. Mulheres que, como ela, haviam precisado lutar mais, insistir mais, provar mais para ocupar aquele espaço.

Santiago inclinou-se em sua direção, tocando de leve sua mão.

— Venha — disse com um sorriso tranquilo. — Quero te apresentar a algumas pessoas.

Helena assentiu, levantando-se ao lado dele, seguida por Pedro logo atrás.

Santiago era conhecido e admirado por praticamente todos ali. Circulava com naturalidade, apresentando Helena a pintores, designers, decoradores, curadores independentes e empresários do setor. Em cada nova aproximação, fazia questão de incluí-la — nunca à frente, nunca atrás — sempre ao seu lado.

Helena conversava com fluidez. Não havia esforço, nem afetação. Respondia com interesse genuíno, fazia perguntas, conectava ideias. Muitos se aproximavam espontaneamente, parabenizando-a pela coleção Prisma, curiosos em saber mais sobre sua ligação com a Orsini, querendo entender como aquela parceria havia nascido. Ela explicava com clareza, sem se promover além do necessário, e isso parecia despertar ainda mais respeito.

O relacionamento dos dois tampouco passava despercebido. Santiago, orgulhoso e intencional, fazia questão de usar o termo noiva a cada nova conversa iniciada — não como exibição, mas como afirmação tranquila de pertencimento. Helena sorria sempre que o ouvia.

A conversa que mais a envolveu naquela noite surgiu quase por acaso. Uma engenheira, que se revelou prestar serviços terceirizados no país para a empresa de seus pais, reconheceu seu sobrenome. Em poucos minutos, já falavam da reforma que os dois pretendiam iniciar — a ideia de unir a casa e o sobrado no bairro antigo. A troca foi imediata, animada, técnica e ao mesmo tempo cheia de entusiasmo. Helena percebeu ali não apenas afinidade profissional, mas a sensação reconfortante de ver seus planos ganharem forma concreta na fala de outra mulher competente.

Nesse meio-tempo, um galerista conhecido de Santiago o chamou para uma conversa com outro convidado. Santiago olhou para Helena, questionando em silêncio. Ela, ainda envolvida com a engenheira, fez um gesto leve com a mão, indicando que ele podia ir sem preocupação.

Pedro, atento a poucos passos de distância, assentiu discretamente, confirmando que permaneceria por perto.

...

O afastamento de Santiago não passou despercebido por Silvia. Era a oportunidade que ela esperava.

Ela se levantou com naturalidade estudada, pegou uma taça da bandeja de um garçom que passava e caminhou alguns passos, como quem apenas se dirige à mesa de quitutes para beliscar algo antes do jantar. O gesto era banal demais para chamar atenção. Pousou a taça entre os pequenos pratos, respirou fundo — e então, protegida pela própria multidão, deixou cair no vinho algo que trazia consigo havia tempo demais.

Girou a taça devagar, o movimento elegante, quase hipnótico. Não bebeu. Esperou.

Quando outro garçom passou, ela se aproximou com um sorriso manso, desses que parecem gentis demais para esconder qualquer coisa.

— Deve ser cansativo ficar horas servindo as pessoas — comentou, em tom cúmplice.

O rapaz se sobressaltou com a abordagem inesperada, corando levemente.

— É… cansa, sim. Mas é o trabalho, né? Paga as contas.

Silvia inclinou a cabeça, solidária.

— Imagino. — Fez uma breve pausa, calculando o impacto. — E se eu te dissesse que dá pra pagar muitas contas com um gesto simples?

Os olhos dele brilharam por um segundo, antes da cautela voltar.

— Que gesto?

— Nada demais, apenas entregar essa taça para aquele homem.

Ele seguiu o olhar dela até Santiago. Voltou a encarar o vinho, desconfiado.

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