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Quadros de um divórcio romance Capítulo 177

“Há limites que não se negociam depois que alguém os atravessa.”

Santiago chegou ao banheiro cambaleante, a cabeça girando como se o chão estivesse se movendo sob seus pés. A lucidez escorria por entre os dedos. Puxou o celular do bolso com a intenção de pedir ajuda, mas a visão turva fazia os caracteres se embaralharem na tela, linhas sem sentido. Guardou o aparelho com dificuldade e precisou apoiar ambas as mãos na grande bancada de mármore para não cair.

Tateou até encontrar o registro. Abriu a torneira, juntou as mãos em concha e levou a água fria ao rosto — uma, duas vezes. Não adiantou. O calor continuava a subir, denso, opressivo, como se o ar tivesse ficado pesado demais para respirar. O corpo reagia de forma estranha, descompassada, e um ímpeto confuso despertava junto com a náusea.

Então sentiu uma mão deslizar por suas costas.

— Helena? — murmurou, a voz falhando.

— Shiu… — veio a resposta, suave demais. — Vem, eu vou te ajudar.

O toque se firmou sob seu braço, oferecendo apoio. Ele tentou focar o rosto à frente, mas tudo era névoa. Deu alguns passos incertos, guiado mais pelo contato do que pela própria vontade, as pernas obedecendo por inércia. O espelho refletiu apenas um borrão de luz e sombra quando passaram por ele.

A entrada dos banheiros não dava vista direta para o salão. Uma parede ampla criava um pequeno corredor de transição, que também conduzia aos elevadores. Ali, longe dos olhos distraídos da festa, o ar parecia mais pesado.

Com esforço, Viviane guiou o homem alto até o elevador. Ao entrarem, apoiou-o contra a parede espelhada para alcançar o painel e apertar o botão do segundo andar. O reflexo devolveu uma imagem distorcida dos dois — ele pálido, suando; ela tensa demais para sorrir.

Ela sentiu mãos a puxarem, procurando apoio.

— Helena… — ele balbuciou, a voz falhando.

Viviane cerrou o maxilar. “Até assim ele chama por ela”, pensou, engolindo o incômodo. Não respondeu. Limitou-se a firmar o braço sob o dele e conduzi-lo quando as portas se abriram.

O corredor acarpetado parecia longo demais. Ela passou o cartão pelo leitor do quarto, entrou primeiro e precisou segurar o peso dele para fechar a porta atrás de si. Santiago foi amparado até a cama, onde acabou caindo, desorientado.

...

Helena manteve o sorriso educado enquanto conversava com a engenheira, mas o olhar fugia involuntariamente para o salão, sempre procurando Santiago. Quando voltou a olhar para o ponto onde ele estava antes, não o encontrou. Pensou, num primeiro momento, que ele pudesse ter ido ao toalete ou sido puxado para alguma conversa mais reservada — acontecia o tempo todo. Se fosse algo fora do comum, ele a avisaria.

Ainda assim, um incômodo começou a se formar.

O editor-chefe se aproximou, interrompendo com delicadeza.

— Desculpe atrapalhar a conversa das senhoras.

— Não tem problema — respondeu a engenheira, compreensiva.

Ele voltou-se para Helena.

— Podemos fazer a entrevista agora?

— Claro — disse ela automaticamente, mas lançou mais um olhar pelo salão, agora mais atento. Santiago ainda não estava em lugar algum. — Só me dê um minuto para encontrar meu noivo, por favor.

O editor assentiu, educado, afastando-se alguns passos.

Pedro, que já vinha observando o ambiente com uma atenção incomum, percebeu o movimento dela. O mesmo incômodo que começava a crescer em Helena já havia acendido o alerta nele. Não era apenas ausência — era tempo demais.

Ele fez um gesto discreto de compreensão e puxou o celular do bolso. Havia um aplicativo localizador instalado nos aparelhos dos dois, uma medida de segurança adotada desde os incidentes anteriores. O ponto de Santiago ainda aparecia no prédio… mas não no salão.

Estava afastado. Estático.

Pedro franziu a testa.

Helena se aproximou no mesmo instante, o coração acelerando antes mesmo de ouvir qualquer explicação.

— O que foi?

Ele levantou o olhar para ela, sério demais para disfarçar.

— Tem alguma coisa errada.

O barulho elegante do salão pareceu se afastar por um segundo. A música ficou distante. Helena sentiu o frio percorrer a espinha.

— Onde ele está?

Pedro virou a tela do celular para ela. O ponto piscava num local que não fazia sentido.

— Próximo aos quartos.

Ela endireitou o corpo, a serenidade dando lugar a uma firmeza fria.

— Me leva até lá. Agora.

Pedro assentiu sem hesitar.

...

Silvia acompanhava tudo com atenção cirúrgica. Quando viu Helena e o segurança seguirem em direção ao elevador, soube imediatamente: aquilo não era um bom sinal. O plano previa tempo — tempo para que a ausência de Santiago fosse notada tarde demais, para que o estrago já estivesse feito quando o encontrassem. Mas não. Ainda era cedo. E pior: com o terreno quente demais, provas seriam fáceis de rastrear.

Um arrepio frio deslizou por sua espinha.

Precisava agir e rápido.

Encontrar o garçom. Mandá-lo desaparecer. Garantir que as gravações do salão também sumissem. Se o incidente viesse à tona, Viviane poderia até ser exposta — mas Silvia precisava se preservar. Sem provas, seria apenas a palavra de uma contra a da outra.

E palavras, ela sabia, eram armas moldáveis.

...

Viviane montou sobre Santiago, uma perna de cada lado do corpo dele. Desfez o nó da gravata com dedos apressados, abriu os botões da camisa como quem desembrulha um prêmio aguardado. Acariciou-lhe o peito e o abdômen, lenta, possessiva.

— Você é ainda mais lindo do que eu imaginava — murmurou, os olhos brilhando de triunfo. — Mal posso esperar para ver a cara daquela vadia quando descobrir que eu te roubei dela. Agora você é meu.

Ela se inclinou para beijá-lo.

Mas ele notou a diferença na voz, no toque, na presença. E com o resquício de força que ainda possuía segurou-a pelo pulso forçando-a a se afastar. _

Mas algo estava errado. Mesmo envolto em névoa Santiago percebeu a diferença na voz, no toque, na presença.

Com o pouco de força que ainda lhe restava, segurou Viviane pelo pulso, afastando-a.

— Você não é ela — disse, a voz arrastada, carregada de repulsa.

Viviane se desvencilhou com facilidade, prendendo os braços dele contra a cama.

— Não sou — respondeu, fria, cruel. — Mas vou te provar que sou muito melhor.

Ela avançou novamente.

A maçaneta girou.

— Pare.

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