“Há limites que não se negociam depois que alguém os atravessa.”
Santiago chegou ao banheiro cambaleante, a cabeça girando como se o chão estivesse se movendo sob seus pés. A lucidez escorria por entre os dedos. Puxou o celular do bolso com a intenção de pedir ajuda, mas a visão turva fazia os caracteres se embaralharem na tela, linhas sem sentido. Guardou o aparelho com dificuldade e precisou apoiar ambas as mãos na grande bancada de mármore para não cair.
Tateou até encontrar o registro. Abriu a torneira, juntou as mãos em concha e levou a água fria ao rosto — uma, duas vezes. Não adiantou. O calor continuava a subir, denso, opressivo, como se o ar tivesse ficado pesado demais para respirar. O corpo reagia de forma estranha, descompassada, e um ímpeto confuso despertava junto com a náusea.
Então sentiu uma mão deslizar por suas costas.
— Helena? — murmurou, a voz falhando.
— Shiu… — veio a resposta, suave demais. — Vem, eu vou te ajudar.
O toque se firmou sob seu braço, oferecendo apoio. Ele tentou focar o rosto à frente, mas tudo era névoa. Deu alguns passos incertos, guiado mais pelo contato do que pela própria vontade, as pernas obedecendo por inércia. O espelho refletiu apenas um borrão de luz e sombra quando passaram por ele.
A entrada dos banheiros não dava vista direta para o salão. Uma parede ampla criava um pequeno corredor de transição, que também conduzia aos elevadores. Ali, longe dos olhos distraídos da festa, o ar parecia mais pesado.
Com esforço, Viviane guiou o homem alto até o elevador. Ao entrarem, apoiou-o contra a parede espelhada para alcançar o painel e apertar o botão do segundo andar. O reflexo devolveu uma imagem distorcida dos dois — ele pálido, suando; ela tensa demais para sorrir.
Ela sentiu mãos a puxarem, procurando apoio.
— Helena… — ele balbuciou, a voz falhando.
Viviane cerrou o maxilar. “Até assim ele chama por ela”, pensou, engolindo o incômodo. Não respondeu. Limitou-se a firmar o braço sob o dele e conduzi-lo quando as portas se abriram.
O corredor acarpetado parecia longo demais. Ela passou o cartão pelo leitor do quarto, entrou primeiro e precisou segurar o peso dele para fechar a porta atrás de si. Santiago foi amparado até a cama, onde acabou caindo, desorientado.
...
Helena manteve o sorriso educado enquanto conversava com a engenheira, mas o olhar fugia involuntariamente para o salão, sempre procurando Santiago. Quando voltou a olhar para o ponto onde ele estava antes, não o encontrou. Pensou, num primeiro momento, que ele pudesse ter ido ao toalete ou sido puxado para alguma conversa mais reservada — acontecia o tempo todo. Se fosse algo fora do comum, ele a avisaria.
Ainda assim, um incômodo começou a se formar.
O editor-chefe se aproximou, interrompendo com delicadeza.
— Desculpe atrapalhar a conversa das senhoras.
— Não tem problema — respondeu a engenheira, compreensiva.
Ele voltou-se para Helena.
— Podemos fazer a entrevista agora?
— Claro — disse ela automaticamente, mas lançou mais um olhar pelo salão, agora mais atento. Santiago ainda não estava em lugar algum. — Só me dê um minuto para encontrar meu noivo, por favor.
O editor assentiu, educado, afastando-se alguns passos.
Pedro, que já vinha observando o ambiente com uma atenção incomum, percebeu o movimento dela. O mesmo incômodo que começava a crescer em Helena já havia acendido o alerta nele. Não era apenas ausência — era tempo demais.
Ele fez um gesto discreto de compreensão e puxou o celular do bolso. Havia um aplicativo localizador instalado nos aparelhos dos dois, uma medida de segurança adotada desde os incidentes anteriores. O ponto de Santiago ainda aparecia no prédio… mas não no salão.
Estava afastado. Estático.
Pedro franziu a testa.
Helena se aproximou no mesmo instante, o coração acelerando antes mesmo de ouvir qualquer explicação.
— O que foi?
Ele levantou o olhar para ela, sério demais para disfarçar.
— Tem alguma coisa errada.
O barulho elegante do salão pareceu se afastar por um segundo. A música ficou distante. Helena sentiu o frio percorrer a espinha.
— Onde ele está?
Pedro virou a tela do celular para ela. O ponto piscava num local que não fazia sentido.
— Próximo aos quartos.
Ela endireitou o corpo, a serenidade dando lugar a uma firmeza fria.
— Me leva até lá. Agora.
Pedro assentiu sem hesitar.
...
Silvia acompanhava tudo com atenção cirúrgica. Quando viu Helena e o segurança seguirem em direção ao elevador, soube imediatamente: aquilo não era um bom sinal. O plano previa tempo — tempo para que a ausência de Santiago fosse notada tarde demais, para que o estrago já estivesse feito quando o encontrassem. Mas não. Ainda era cedo. E pior: com o terreno quente demais, provas seriam fáceis de rastrear.
Um arrepio frio deslizou por sua espinha.
Precisava agir e rápido.
Encontrar o garçom. Mandá-lo desaparecer. Garantir que as gravações do salão também sumissem. Se o incidente viesse à tona, Viviane poderia até ser exposta — mas Silvia precisava se preservar. Sem provas, seria apenas a palavra de uma contra a da outra.
E palavras, ela sabia, eram armas moldáveis.
...
Viviane montou sobre Santiago, uma perna de cada lado do corpo dele. Desfez o nó da gravata com dedos apressados, abriu os botões da camisa como quem desembrulha um prêmio aguardado. Acariciou-lhe o peito e o abdômen, lenta, possessiva.
— Você é ainda mais lindo do que eu imaginava — murmurou, os olhos brilhando de triunfo. — Mal posso esperar para ver a cara daquela vadia quando descobrir que eu te roubei dela. Agora você é meu.
Ela se inclinou para beijá-lo.
Mas ele notou a diferença na voz, no toque, na presença. E com o resquício de força que ainda possuía segurou-a pelo pulso forçando-a a se afastar. _
Mas algo estava errado. Mesmo envolto em névoa Santiago percebeu a diferença na voz, no toque, na presença.
Com o pouco de força que ainda lhe restava, segurou Viviane pelo pulso, afastando-a.
— Você não é ela — disse, a voz arrastada, carregada de repulsa.
Viviane se desvencilhou com facilidade, prendendo os braços dele contra a cama.
— Não sou — respondeu, fria, cruel. — Mas vou te provar que sou muito melhor.
Ela avançou novamente.
A maçaneta girou.
— Pare.
Quando a equipe do hotel entrou no quarto, seguida pela segurança, o cenário estava claro demais para ser ignorado. Viviane foi afastada. Perguntas começaram. Registros seriam feitos.
Santiago tentou se mover, mas o corpo não respondeu como deveria. Pedro o amparou com cuidado, conduzindo-o até sentá-lo melhor na cama.
— Ele precisa de atendimento médico — afirmou, objetivo. — Agora.
— Vou providenciar agora mesmo. — disse um funcionário saindo do quarto apressado.
Helena respirava rápido, os olhos ainda cravados em Viviane sendo arrastada para fora por um dos seguranças. Quando voltou a falar, a voz estava baixa demais para ser grito — e, ainda assim, mais ameaçadora do que qualquer um.
— Isso não acaba aqui. Eu vou te fazer pagar.
Viviane se debatia, tentando se soltar.
— Você… você vai se arrepender disso.
Helena não se moveu, mas um meio-sorriso duro surgiu.
— Quem vai se arrepender é você.
Após retirarem ela do quarto, Helena se ajoelhou diante de Santiago, segurando seu rosto com cuidado.
— Olha pra mim — pediu, suave agora. — Estou aqui.
Ele piscou, a lucidez retornando em fragmentos.
— Helena... desculpa… — murmurou, a voz fraca.
Ela encostou a testa na dele.
— Você não tem nada pelo que pedir desculpas.
O corredor começou a se encher rapidamente. Portas se abriram, hóspedes surgiram atraídos pelo barulho, celulares erguidos, olhos ávidos por registrar cada segundo enquanto Viviane era arrastada, descomposta, tentando se desvencilhar. O som de vozes se sobrepunha, criando um eco caótico que se espalhava como fogo.
A gerência do hotel foi acionada quase de imediato. Funcionários tentavam conter o avanço da curiosidade, pediam discrição — tarde demais. As ondulações do escândalo já atravessavam o andar, escorriam pelos elevadores, infiltravam-se no salão principal como um sussurro venenoso.
Cássio percebeu o burburinho. Conversas interrompidas, um desconforto coletivo crescendo sem forma definida. Algo estava errado.
Seus olhos varreram o ambiente à procura de Helena. Ela não estava ali.
O peito se apertou com força inesperada, quase física. Um pressentimento frio se instalou. Mesmo não estando mais ao lado dela, havia uma parte dele que jamais deixaria de amá-la — e essa parte agora gritava.
Então notou outras ausências. Silvia não estava à mesa. Viviane também não.
— Que merda está acontecendo… — pensou, o coração acelerando, enquanto a sensação de perda de controle voltava a envolver tudo.
O murmúrio ganhou ainda mais corpo quando o som de sirene se aproximando pode ser ouvido por todos. Dois seguranças do hotel atravessaram o salão apressados, abrindo caminho com dificuldade entre os convidados. Logo atrás deles, três policiais fardados entraram. O gerente do hotel os aguardava próximo a entrada dos toaletes com o rosto lívido.
— Polícia? — alguém sussurrou, alto o suficiente para que a palavra se espalhasse como faísca.
Celulares se ergueram quase por reflexo. Conversas cessaram. Taças foram pousadas sobre as mesas sem cuidado.
Cássio sentiu o sangue gelar. Seu olhar correu automaticamente para a entrada, depois para o gerente, depois para os rostos curiosos ao redor — todos famintos por respostas.
Mas ninguém possuía uma.

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