“Quando a verdade aparece, não há narrativa que a salve.”
Silvia retornou ao salão com o coração martelando no peito. Inspirou fundo uma, duas vezes, ensaiando a expressão certa antes de se aproximar de Cássio. Precisava parecer apenas isso — uma mulher confusa diante do caos. Repetiu para si mesma que havia sido cuidadosa, que os rastros estavam cobertos, ainda que isso tivesse lhe custado dinheiro demais.
— O que está acontecendo? — perguntou, segurando o braço dele no exato momento em que os policiais desapareciam pelo corredor. A voz saiu levemente trêmula, cuidadosamente ensaiada como surpresa.
Cássio se sobressaltou com a aproximação repentina. Olhou rapidamente na direção por onde a polícia havia seguido e depois para Silvia, balançando a cabeça em negativa.
— Não faço ideia — murmurou.
Tânia, agora ao lado de Renato e suficientemente próxima para observar os dois, havia notado a ausência de Silvia muito antes. Mais do que isso: percebeu a mudança sutil em sua postura antes dela se recolocar ao lado de Cássio, como quem retorna a um papel.
Sentia que tinha peças demais de um quebra cabeça, mas que ainda não fazia a menor ideia de como conectá-las.
— O que foi? — Renato perguntou, atento ao silêncio estranho da esposa.
— Ainda não sei — respondeu Tânia, sem desviar o olhar. Primeiro acompanhou o corredor vazio, depois fixou os olhos em Cássio… e, por fim, em Silvia. — Onde você estava? — perguntou, direta demais para ser casual.
A pergunta caiu como um golpe seco. Silvia sentiu o estômago revirar por um segundo, mas reagiu rápido.
— Fui tomar um ar na área externa — respondeu, passando a mão pelo ventre num gesto automático. — Estava me sentindo um pouco sufocada. Coisas da gravidez, sabe como é.
Tânia assentiu lentamente. Mas seus olhos diziam outra coisa. Ela não parecia estar convencida.
...
A agência de Marcelo ficava relativamente próxima. Assim que recebeu a ligação de Pedro, não pensou duas vezes: largou tudo e correu até o hotel.
Quando entrou no quarto, encontrou um médico — hóspede do hotel — já examinando Santiago. Helena e Pedro permaneciam ao lado da cama, tensos, atentos a cada gesto.
— Já pegaram quem fez isso? — perguntou Marcelo, aproximando-se apressado.
— Sim. A irmã do Cássio — respondeu Pedro em voz baixa.
Marcelo franziu o cenho, atônito, tentando processar a informação.
A porta se abriu novamente, e um policial entrou no quarto com expressão profissional, mas grave.
— Boa noite. O gerente me passou um resumo da situação, mas preciso colher os depoimentos para conduzir a suspeita em flagrante. — Olhou para o médico. — Como ele está, doutor?
— Tudo indica que realmente houve administração de alguma substância — explicou o médico. — Para confirmação, apenas com exame toxicológico. No momento, hidratação, repouso e um ambiente tranquilo são o indicado. Os efeitos costumam durar entre seis e oito horas.
Marcelo assentiu, já decidido.
— Vou acionar uma ambulância para levá-lo ao hospital. Lá ele poderá fazer os exames e permanecer em observação.
— Concordo, é o melhor a fazer. — Reforçou o médico, sem hesitar.
Marcelo respirou fundo e se virou para Helena e Pedro.
— Enquanto isso, vocês precisam ir prestar depoimento. Nos encontramos no hospital depois.
— Mas… eu não quero ficar longe dele — disse Helena, a voz embargada, os olhos marejados.
Pedro segurou seus ombros com firmeza, buscando ancorá-la.
— Ele vai ficar bem — disse, olhando diretamente em seus olhos. — E nós precisamos fazer isso agora.
Ela percorreu o quarto com o olhar. Todos pareciam compartilhar da mesma certeza. Por fim, cedeu.
Antes de sair, inclinou-se e beijou a testa de Santiago, adormecido, vulnerável de um jeito que a dilacerava.
No corredor, a gerência do hotel já havia dispersado os curiosos. O policial fez um gesto para que Helena e Pedro o acompanhassem.
...
No salão, o clima era de curiosidade desconfortável.
Ninguém sabia exatamente o que havia acontecido — apenas que algo grave estava em curso. Cochichos se espalhavam, teorias surgiam e morriam em segundos.
A ausência prolongada de Helena e Santiago não passou despercebida. Em pouco tempo, ela — a figura mais comentada da noite — começou a ser citada como possível envolvida, ainda que sem fundamento algum.
Curiosamente, depois de muitas matérias que o envolvia, Cássio parecia alheio ao centro do furacão. Sua permanência no salão, visível a todos, parecia quase redimi-lo.
Quase.
O burburinho diminuiu quando um dos policiais retornou ao salão. Ele caminhou em linha reta, sem pressa, até parar diante de Cássio, atraindo todos os olhares.
— O senhor é Cássio Amaral? — perguntou, sério.
— Sim… sou eu — respondeu, confuso.
— Preciso que me acompanhe, por favor.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, o coração acelerando.
O policial não respondeu de imediato.
— Apenas venha comigo, senhor.
O salão inteiro pareceu prender a respiração. Talvez não houvesse remissão para ele.
Enquanto Cássio se aproximava da sala da gerência, reconheceu os gritos antes mesmo de chegar à porta.
— Me soltem! Vocês não podem fazer isso comigo! — a voz aguda ecoava pelo corredor. — Vocês sabem quem é o meu irmão? Ele vai destruir cada um de vocês!
Ao cruzar a porta, confirmou. Viviane estava sentada em uma das cadeiras, as mãos algemadas atrás do corpo. O cabelo desgrenhado, o rosto vermelho, inchado — não apenas pela raiva, mas pela humilhação.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Cássio, alarmado.
— Cássio… — a voz dela ganhou um fio de alívio ao vê-lo. — Olha o que estão fazendo comigo! Você precisa fazer alguma coisa, precisa fazer todos pagarem por isso!
Ele olhou ao redor, confuso, encarando os policiais e o gerente do hotel.
— Por que minha irmã está contida? O que foi que ela fez?

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