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Quadros de um divórcio romance Capítulo 178

“Quando a verdade aparece, não há narrativa que a salve.”

Silvia retornou ao salão com o coração martelando no peito. Inspirou fundo uma, duas vezes, ensaiando a expressão certa antes de se aproximar de Cássio. Precisava parecer apenas isso — uma mulher confusa diante do caos. Repetiu para si mesma que havia sido cuidadosa, que os rastros estavam cobertos, ainda que isso tivesse lhe custado dinheiro demais.

— O que está acontecendo? — perguntou, segurando o braço dele no exato momento em que os policiais desapareciam pelo corredor. A voz saiu levemente trêmula, cuidadosamente ensaiada como surpresa.

Cássio se sobressaltou com a aproximação repentina. Olhou rapidamente na direção por onde a polícia havia seguido e depois para Silvia, balançando a cabeça em negativa.

— Não faço ideia — murmurou.

Tânia, agora ao lado de Renato e suficientemente próxima para observar os dois, havia notado a ausência de Silvia muito antes. Mais do que isso: percebeu a mudança sutil em sua postura antes dela se recolocar ao lado de Cássio, como quem retorna a um papel.

Sentia que tinha peças demais de um quebra cabeça, mas que ainda não fazia a menor ideia de como conectá-las.

— O que foi? — Renato perguntou, atento ao silêncio estranho da esposa.

— Ainda não sei — respondeu Tânia, sem desviar o olhar. Primeiro acompanhou o corredor vazio, depois fixou os olhos em Cássio… e, por fim, em Silvia. — Onde você estava? — perguntou, direta demais para ser casual.

A pergunta caiu como um golpe seco. Silvia sentiu o estômago revirar por um segundo, mas reagiu rápido.

— Fui tomar um ar na área externa — respondeu, passando a mão pelo ventre num gesto automático. — Estava me sentindo um pouco sufocada. Coisas da gravidez, sabe como é.

Tânia assentiu lentamente. Mas seus olhos diziam outra coisa. Ela não parecia estar convencida.

...

A agência de Marcelo ficava relativamente próxima. Assim que recebeu a ligação de Pedro, não pensou duas vezes: largou tudo e correu até o hotel.

Quando entrou no quarto, encontrou um médico — hóspede do hotel — já examinando Santiago. Helena e Pedro permaneciam ao lado da cama, tensos, atentos a cada gesto.

— Já pegaram quem fez isso? — perguntou Marcelo, aproximando-se apressado.

— Sim. A irmã do Cássio — respondeu Pedro em voz baixa.

Marcelo franziu o cenho, atônito, tentando processar a informação.

A porta se abriu novamente, e um policial entrou no quarto com expressão profissional, mas grave.

— Boa noite. O gerente me passou um resumo da situação, mas preciso colher os depoimentos para conduzir a suspeita em flagrante. — Olhou para o médico. — Como ele está, doutor?

— Tudo indica que realmente houve administração de alguma substância — explicou o médico. — Para confirmação, apenas com exame toxicológico. No momento, hidratação, repouso e um ambiente tranquilo são o indicado. Os efeitos costumam durar entre seis e oito horas.

Marcelo assentiu, já decidido.

— Vou acionar uma ambulância para levá-lo ao hospital. Lá ele poderá fazer os exames e permanecer em observação.

— Concordo, é o melhor a fazer. — Reforçou o médico, sem hesitar.

Marcelo respirou fundo e se virou para Helena e Pedro.

— Enquanto isso, vocês precisam ir prestar depoimento. Nos encontramos no hospital depois.

— Mas… eu não quero ficar longe dele — disse Helena, a voz embargada, os olhos marejados.

Pedro segurou seus ombros com firmeza, buscando ancorá-la.

— Ele vai ficar bem — disse, olhando diretamente em seus olhos. — E nós precisamos fazer isso agora.

Ela percorreu o quarto com o olhar. Todos pareciam compartilhar da mesma certeza. Por fim, cedeu.

Antes de sair, inclinou-se e beijou a testa de Santiago, adormecido, vulnerável de um jeito que a dilacerava.

No corredor, a gerência do hotel já havia dispersado os curiosos. O policial fez um gesto para que Helena e Pedro o acompanhassem.

...

No salão, o clima era de curiosidade desconfortável.

Ninguém sabia exatamente o que havia acontecido — apenas que algo grave estava em curso. Cochichos se espalhavam, teorias surgiam e morriam em segundos.

A ausência prolongada de Helena e Santiago não passou despercebida. Em pouco tempo, ela — a figura mais comentada da noite — começou a ser citada como possível envolvida, ainda que sem fundamento algum.

Curiosamente, depois de muitas matérias que o envolvia, Cássio parecia alheio ao centro do furacão. Sua permanência no salão, visível a todos, parecia quase redimi-lo.

Quase.

O burburinho diminuiu quando um dos policiais retornou ao salão. Ele caminhou em linha reta, sem pressa, até parar diante de Cássio, atraindo todos os olhares.

— O senhor é Cássio Amaral? — perguntou, sério.

— Sim… sou eu — respondeu, confuso.

— Preciso que me acompanhe, por favor.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, o coração acelerando.

O policial não respondeu de imediato.

— Apenas venha comigo, senhor.

O salão inteiro pareceu prender a respiração. Talvez não houvesse remissão para ele.

Enquanto Cássio se aproximava da sala da gerência, reconheceu os gritos antes mesmo de chegar à porta.

— Me soltem! Vocês não podem fazer isso comigo! — a voz aguda ecoava pelo corredor. — Vocês sabem quem é o meu irmão? Ele vai destruir cada um de vocês!

Ao cruzar a porta, confirmou. Viviane estava sentada em uma das cadeiras, as mãos algemadas atrás do corpo. O cabelo desgrenhado, o rosto vermelho, inchado — não apenas pela raiva, mas pela humilhação.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Cássio, alarmado.

— Cássio… — a voz dela ganhou um fio de alívio ao vê-lo. — Olha o que estão fazendo comigo! Você precisa fazer alguma coisa, precisa fazer todos pagarem por isso!

Ele olhou ao redor, confuso, encarando os policiais e o gerente do hotel.

— Por que minha irmã está contida? O que foi que ela fez?

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