Cássio deu um passo para trás, como se o chão tivesse cedido sob seus pés. O olhar foi, quase por reflexo, até a irmã — um emaranhado confuso de sentimentos atravessando-lhe o rosto.
— Não, Cássio… — Viviane implorou, a voz quebrada, o choro desordenado. — Você precisa acreditar em mim. Eu não o droguei. Eu juro. Eu não fiz isso.
O coração dele se apertou. Nunca foram muito próximos, mas ela ainda era sua irmã mais nova. Mimada, cruel muitas vezes — sim —, mas capaz de algo assim? A ideia parecia grande demais para caber nele.
— Isso não prova nada — disse por fim, erguendo o queixo, como quem se agarra à última defesa possível. Voltou-se para Helena, o olhar agora duro, defensivo. — Quem garante que ele não foi drogado por outra pessoa? Ou até que não tenha feito isso sozinho?
Pedro soltou uma risada curta, sem humor.
— Claro — rebateu, seco. — E ela montada em cima dele, naquele estado, é só uma coincidência infeliz.
Cássio respirou fundo, tentando manter algum controle.
— Todo mundo é inocente até que se prove o contrário — insistiu. — Não é isso que dizem?
A porta se abriu naquele exato momento.
Outro policial entrou, a expressão séria, objetiva.
— Trouxe as gravações — anunciou, erguendo um pendrive entre os dedos.
Viviane arregalou os olhos.
O pânico atravessou seu rosto sem pedir licença. Aquilo era o fim da linha. As imagens não teriam piedade. Seu nome, sua imagem, sua vida cuidadosamente construída… tudo prestes a ser lançado na lama.
Ela buscou o irmão com o olhar, desesperada.
Cássio percebeu. Viu o medo cru, incontido, e sentiu sua convicção vacilar como vidro fino sob pressão.
O gerente do hotel se adiantou, solícito:
— Podem usar meu notebook, se quiserem.
O policial assentiu, sentou-se e conectou o pendrive à lateral do aparelho. O clique seco do USB pareceu alto demais naquele silêncio pesado.
Helena observava tudo com uma calma quase perturbadora. Nenhuma pressa. Nenhum tremor. Apenas certeza.
— Vamos ver — disse, a voz firme — essa inocência toda em que você tanto acredita.
O policial que operava o computador fez um breve gesto para o tenente.
— Esta é a filmagem do corredor onde ficam os banheiros.
O superior assentiu e clicou em play.
A imagem surgiu estável, silenciosa. Por alguns segundos, o corredor permanecia vazio. Então, Santiago apareceu no enquadramento, caminhando de forma irregular, como se estivesse sentindo alguma dor. Afrouxava o nó da gravata com dedos trêmulos; a pele exposta do pescoço estava vermelha demais. Havia algo errado ali — visível até para um leigo.
Ele cambaleou e desapareceu pela entrada que dava acesso aos banheiros.
Viviane manteve os olhos cravados na tela, tensa, o maxilar rígido, sabendo exatamente o que viria a seguir.
Algum tempo depois, ela surgiu no vídeo. Parou na entrada do corredor, olhou para os lados com cuidado calculado, como quem confere se está sendo observada. Um sorrisinho breve — rápido demais, confiante demais — cruzou seu rosto antes que ela avançasse corredor adentro, desaparecendo também em direção aos banheiros.
O tempo passou na gravação. Longos minutos, silenciosos e opressores.
Então eles reapareceram.
Mas agora Santiago mal conseguia se sustentar. O corpo alto parecia pesado demais para as próprias pernas. Viviane o amparava, um braço firme demais em torno dele. Antes de seguir, ela voltou a olhar ao redor — novamente aquele gesto — e então o conduziu até o elevador.
As portas se fecharam.
O vídeo terminou.
O silêncio na sala foi absoluto.
Cássio desviou os olhos da tela lentamente, como se precisasse de esforço físico para fazê-lo. Encarou a irmã, o rosto esvaziado de qualquer defesa.
— Você… — a palavra morreu antes de se completar.
— Eu só estava ajudando — Viviane disse entre soluços, a voz fina, frágil demais para a cena que acabara de ser exibida. — Ele não estava bem… eu só…
— Agora — interrompeu o policial, com a mesma calma técnica — vamos ao vídeo do elevador.
Seus dedos já navegavam pelos arquivos. O cursor piscou.
Viviane empalideceu de vez.
A imagem seguinte surgiu na tela.
Viviane entrou no elevador sustentando Santiago pelo tronco, apoiando-o contra a parede espelhada. Precisou afastar o corpo apenas o suficiente para esticar o braço e apertar o botão do andar. Nesse instante, ele a puxou, os braços se fechando em volta dela.
— Está vendo? — Viviane explodiu, a voz aguda cortando o ar. — Isso prova que ele queria!
Sua interferência não foi casual, ela queria apenas evitar que eles ouvissem demais.
— Silêncio. — A ordem do sargento veio seca, sem elevar o tom. Em seguida, voltou-se ao policial. — Volte alguns segundos.
— Não! Pra quê? — Viviane insistiu, desesperada. — Está nítido que foi consentido!
O sargento a encarou, implacável.
— Se continuar interferindo, eu a enquadro também por desobediência.
Viviane se calou. Percebendo que não havia mais margem para encenação.
O vídeo retrocedeu alguns instantes.
Dessa vez, após Santiago puxá-la, o áudio captou algo que passara despercebido pelo barulho dela. Um sussurro arrastado, fraco, mas audível no silêncio da sala.
— Helena…
O nome ecoou como um estilhaço.
Cássio prendeu a respiração. Esperou — quase implorou internamente — que, em algum ponto da gravação, a irmã o corrigisse. Que dissesse não sou ela. Que se afastasse. Que impusesse um limite.

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