“Todo erro tem um preço. A única escolha possível é se você terá coragem de pagá-lo.”
Santiago fora retirado discretamente pelos paramédicos pela entrada de serviço do hotel há um bom tempo, longe dos holofotes e dos celulares curiosos.
Silvia chegou a se oferecer para acompanhar Cássio quando o policial pediu que ele o seguisse, mas foi contida de imediato pelo próprio agente. Restou-lhe permanecer no salão, ao lado de Renato e Tânia, vestindo uma expressão ensaiada de apreensão — curiosa o bastante para não levantar suspeitas, neutra o suficiente para não chamar atenção.
— O que será que está acontecendo? — murmurou Renato, inquieto.
A saída apressada de Cássio havia sido o estopim para novos cochichos.
— Sei tanto quanto vocês — respondeu Silvia, com a voz calculada.
Tânia estreitou os olhos, observando-a com atenção cirúrgica.
— E a Viviane? — perguntou de súbito.
Silvia fingiu procurar pelo salão, girando o rosto devagar.
— Agora que você falou… realmente faz um bom tempo que não a vejo — disse, com naturalidade estudada.
Quanto mais o tempo avançava, mais o salão fervilhava. As conversas se sobrepunham, versões improvisadas surgiam antes mesmo de qualquer fato concreto. Nomes eram sussurrados, teorias se espalhavam como faíscas.
Até que o burburinho se rompeu.
Dois policiais surgiram no corredor, um de cada lado de Viviane.
Algemada.
O penteado completamente desfeito.
O vestido amarrotado.
Ela gritava — até perceber que estava de volta ao salão.
Calou-se no mesmo instante.
Baixou o rosto numa tentativa inútil de desaparecer. A vergonha subiu-lhe pela pele quando os primeiros olhares a reconheceram. Mãos foram à boca. Outros apenas arregalaram os olhos. A curiosidade era quase palpável.
Afinal, o que poderia ter acontecido para que a filha caçula dos Amaral estivesse sendo conduzida algemada diante de todos?
Celulares se ergueram discretamente. O escândalo ganhava corpo próprio.
As lágrimas escorriam pelo rosto de Viviane, não por arrependimento — mas por humilhação. Ela se sentia injustiçada. Ultrajada. Era uma Amaral. Como ousavam tratá-la assim?
Aquilo não era apenas um tropeço público. Era a ruína. A implosão definitiva da imagem que construíra com tanto zelo.
E, dentro dela, a raiva encontrou um alvo conhecido.
Tudo por culpa de Helena.
Que diferença fazia se Santiago estava bêbado?
Ela ainda se julgava melhor. Mais interessante. Mais viva.
Ele deveria ser grato — grato por ela tentar arrancá-lo da vida morna e sem brilho que ele teria ao lado daquela mulher.
O maxilar apertou tanto que os dentes doeram.
Do lado de fora, os policiais a colocaram no banco traseiro da viatura. Parte do salão seguiu até a calçada, atraída como por um ímã. Flashes estouraram na noite, eternizando cada segundo.
A porta se fechou com um som seco.
Naquele instante, Viviane soube que nunca mais a olhariam da mesma forma.
Muitos ainda permaneceram na calçada mesmo depois de a viatura desaparecer rua abaixo — vestidos caros demais para o betume cinza, saltos finos afundando nas frestas da noite. O comentário nervoso, quase elétrico, só cessou quando um novo burburinho ecoou do salão, puxando todos de volta para dentro.
Helena havia reaparecido.
Amparada por um homem que ninguém ali sabia exatamente quem era — apenas o reconheciam por tê-lo visto ao lado dela e de Santiago. Mas Santiago não estava com eles agora e a ausência dele gritava.
Como havia comparecido para representar a Orsini, Helena fez questão de cumprir o que considerava indispensável antes de ir embora. Seguiu até o editor-chefe da revista.
— Senhor, sei que prometi uma entrevista… — disse, com a voz baixa e controlada — mas temo que precisaremos deixar para outro dia.
O editor a observou com atenção, sério.
— Senhorita Duarte… aconteceu alguma coisa?
Helena sustentou o olhar por um segundo. Sabia que ele já havia entendido mais do que perguntava. O ocorrido fora dentro do evento da revista; de algum modo, aquilo recaía também sobre eles.
— Se algo aconteceu hoje que tenha lhe causado qualquer prejuízo, por favor, aceite nossas desculpas — ele acrescentou. — E, se houver algo que possamos fazer para compensar…
— Não se preocupe — Helena interrompeu com delicadeza. — Nem o senhor nem a revista têm culpa pelos erros de algumas pessoas. — Soltou um suspiro cansado. — Eu é que peço desculpas se, de alguma forma, atrapalhei o evento.
— Você está planejando alguma coisa, não está? — perguntou, sem tirar os olhos da estrada.
Helena virou o rosto devagar, surpresa pela perspicácia dele. Um riso curto escapou, sem humor.
— Você é astuto demais.
Pedro sorriu de canto, satisfeito.
— Ainda não sei o que você está tramando… — disse, num tom leve, mas atento — …, mas tenho a impressão de que já estou gostando disso.
Chegaram ao hospital pouco depois e seguiram direto para o quarto indicado. Assim que Helena abriu a porta, atravessou o espaço quase correndo até a cama. Santiago ainda estava apagado.
Acariciou-lhe o rosto com cuidado, o coração apertando ao sentir a pele quente, ainda ruborizada pelos efeitos da substância.
Manoel, que estava sentado do outro lado do quarto, levantou-se e se aproximou dela.
— Ele está bem. — Disse, pousando a mão em seu ombro num gesto tranquilizador. — O médico acredita que foi um coquetel do amor, mas o resultado definitivo só sai amanhã. O colocaram no soro para a hidratação ajudar o corpo a eliminar a droga mais rápido.
Deu um leve sorriso, tentando amenizar a tensão.
— Em algumas horas, você vai tê-lo inteiro de novo.
Helena assentiu, sem conseguir tirar os olhos de Santiago, como se apenas observá-lo ali fosse a única forma de mantê-lo seguro.
...
Cássio permaneceu sozinho na sala da gerência por longos minutos. Acabou se deixando cair em uma das cadeiras, os ombros curvados, o olhar perdido. Tudo lhe parecia absurdo demais para ser real.
Sua irmã — Viviane — drogando um homem... tentando se aproveitar dele... e, como se o destino tivesse um gosto cruel por ironias, esse homem era justamente aquele por quem Helena o havia deixado.
Por quê?
Por que Viviane faria algo tão baixo, tão impensável?
Levou a mão ao rosto, esfregando os olhos como se pudesse despertar de um pesadelo. A coleção Inércia finalmente começava a engrenar, o mercado reagia, os números davam sinais de fôlego… e agora aquilo. Mais um escândalo. Mais um golpe direto na imagem da empresa. Na dele.
Sentiu um peso conhecido no peito — a sensação de estar sempre correndo atrás de algo que insistia em escapar. Como se cada tentativa de avanço fosse imediatamente anulada por uma queda maior.
Talvez o mundo não estivesse conspirando contra ele. Talvez a verdade fosse mais simples — e mais dura.
Talvez tivesse perdido a própria sorte no dia em que Helena foi embora. E ela a levara consigo, sem sequer olhar para trás.

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