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Quadros de um divórcio romance Capítulo 19

Cássio forçou os olhos a se abrirem. A cabeça girava como um cata-vento impulsionado por um vento impiedoso. O gosto viscoso de uísque ainda impregnava sua boca.

Por um instante ficou ali, confuso, tentando entender onde estava. Então o espaço vazio ao seu lado o atingiu com força — e as lembranças da noite anterior voltaram, uma a uma, como cacos cortando a consciência.

Era a primeira vez que acordava naquela cama sem Helena.

E o vazio ao seu lado parecia ecoar o mesmo buraco que se abria dentro dele.

Buscando algum fio de vitalidade, obrigou-se a levantar.

No banheiro, diante do espelho, massageou as têmporas, tentando afastar a dor latejante que o atormentava tanto quanto suas lembranças.

Lembrou-se de todas as vezes em que acordara de ressaca — e, mesmo sem pedir, Helena sempre aparecia com um analgésico e um copo d’água morna.

Agora, ela não estava ali.

Nem mesmo sabia onde guardavam os remédios.

Bufou, vencido.

Optou pelo chuveiro, esperando que a água levasse embora um pouco da frustração.

Quando voltou a se encarar no espelho, envolto apenas por uma toalha, viu um homem que ainda não o convencia — mas ao menos havia recuperado um fiapo de dignidade.

Vestiu-se e saiu do quarto.

O silêncio da casa o envolveu como um lençol frio.

Tudo parecia um pouco vazio, mas não conseguia definir o que faltava.

Caminhou pelo corredor até o quarto de hóspedes, onde Helena havia dormido na noite anterior.

Ergueu o punho, pronto para bater.

Mas parou.

Não fazia ideia do que diria se ela abrisse a porta.

Tensionou o maxilar, abaixou a mão e ficou ali por um instante, prisioneiro do próprio orgulho.

Tentou inventar uma desculpa qualquer, algo que a acalmasse, como tantas vezes fizera antes, mas nada veio. O poço estava seco.

Resignado, partiu.

No caminho para o estúdio, ainda disperso em pensamentos, algo chamou sua atenção: uma vitrine repleta de arranjos coloridos.

Uma floricultura.

Flores — era isso. Nunca havia dado flores a Helena antes.

Aquele gesto com certeza a amoleceria.

Poderia pedir para a secretária cuidar daquilo, mas decidiu fazer aquilo ele mesmo.

Estacionou, ajeitou o paletó e entrou, agora um pouco mais confiante.

Não percebeu, porém, a figura que o observava do outro lado da rua — Silvia, com um olhar calculista, cheio de rancor e curiosidade.

Lá dentro, uma jovem de rosto salpicado de sardas o recebeu com um sorriso gentil.

— Em que posso ajudar, senhor?

— Preciso de um buquê.

— Certo… e o senhor tem algo em mente?

Cássio olhou ao redor, desconcertado diante da profusão de cores e perfumes. As flores pareciam competir entre si pela atenção.

A atendente percebeu a hesitação e tentou guiá-lo:

— É para alguma ocasião especial?

Ele arqueou uma sobrancelha, intrigado.

— Como assim?

— Bem, flores falam — explicou ela, com doçura. — Rosas vermelhas são paixão. As amarelas, amizade e alegria. Lírios trazem pureza, orquídeas elegância… e girassóis, vitalidade. Cada uma diz o que o coração, às vezes, não consegue.

Cássio hesitou, depois coçou o queixo.

— E o que se dá quando… — fez uma pausa breve, constrangido — quando se quer pedir desculpas?

Ela sorriu, divertida.

— Ah, entendi. Acho que sei exatamente o que o senhor procura.

A jovem afastou-se por um momento e voltou segurando um grande buquê de jacintos azuis, delicados e intensos.

— Estes são perfeitos. Representam um pedido de perdão sincero e o desejo de fazer as pazes. É como dizer “o que aconteceu foi um erro, mas o que sentimos ainda é verdadeiro”. É isso que o senhor tinha em mente?

O salto ecoou firme pelo corredor.

Bateu de leve à porta do escritório de Cássio — apenas por formalidade — e entrou antes que ele respondesse.

— Posso? — perguntou, num tom suave, quase doce.

Cássio ergueu os olhos, surpreso.

— Silvia… sim, claro. Entre.

Ela caminhou lentamente até ele, fingindo distração, o olhar curioso sobre a mesa.

— Notei que você chegou mais tarde hoje. Isso é raro. — comentou, com um sorriso breve, o bastante para desarmá-lo.

— Tive algumas coisas pra resolver — respondeu, desviando o olhar.

Silvia se aproximou mais, a voz descendo uma oitava.

— Sobre ontem… passei a noite inteira pensando — suspirou. — Fiquei envergonhada com o que fiz. Mas, sinceramente? A culpa é sua.

Ele ergueu o olhar, confuso e irritado.

— O quê?

Ela se aproximou da cadeira, arrastando os dedos pela madeira da mesa.

— Ora, Cássio… você é um homem incrível. Lindo, forte, gostoso... — sua voz se tornou um sussurro, enquanto a ponta dos dedos deslizava pelo braço dele. — Capaz de enlouquecer qualquer mulher. Você pode mesmo me culpar? — murmurou, inclinando-se até que seus seios lhe tocassem as costas.

Cássio respirou fundo, já dividido entre o desejo e a raiva.

Virou a cadeira de repente, puxando-a para o colo com firmeza.

— Isso não te dá o direito de me desafiar — disse, a voz rouca, entre ameaça e rendição. — Você me tem, mas precisa lembrar o seu lugar.

Silvia fez um biquinho fingido, o olhar submisso que ela sabia que o desarmava.

— Tudo bem… eu já entendi. — Entrelaçou os braços ao redor do pescoço dele. — Não quero te ver bravo comigo. Prometo me comportar… tudo pra te ver feliz.

Ele sorriu, satisfeito.

— Boa menina. — E colou os lábios aos dela.

Quando os lábios dele desceram para o pescoço dela, e uma mão já lhe tomava um dos seios, Silvia desviou o olhar semicerrado para a janela com sorriso pequeno, frio, curvando seus lábios.

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