Cássio forçou os olhos a se abrirem. A cabeça girava como um cata-vento impulsionado por um vento impiedoso. O gosto viscoso de uísque ainda impregnava sua boca.
Por um instante ficou ali, confuso, tentando entender onde estava. Então o espaço vazio ao seu lado o atingiu com força — e as lembranças da noite anterior voltaram, uma a uma, como cacos cortando a consciência.
Era a primeira vez que acordava naquela cama sem Helena.
E o vazio ao seu lado parecia ecoar o mesmo buraco que se abria dentro dele.
Buscando algum fio de vitalidade, obrigou-se a levantar.
No banheiro, diante do espelho, massageou as têmporas, tentando afastar a dor latejante que o atormentava tanto quanto suas lembranças.
Lembrou-se de todas as vezes em que acordara de ressaca — e, mesmo sem pedir, Helena sempre aparecia com um analgésico e um copo d’água morna.
Agora, ela não estava ali.
Nem mesmo sabia onde guardavam os remédios.
Bufou, vencido.
Optou pelo chuveiro, esperando que a água levasse embora um pouco da frustração.
Quando voltou a se encarar no espelho, envolto apenas por uma toalha, viu um homem que ainda não o convencia — mas ao menos havia recuperado um fiapo de dignidade.
Vestiu-se e saiu do quarto.
O silêncio da casa o envolveu como um lençol frio.
Tudo parecia um pouco vazio, mas não conseguia definir o que faltava.
Caminhou pelo corredor até o quarto de hóspedes, onde Helena havia dormido na noite anterior.
Ergueu o punho, pronto para bater.
Mas parou.
Não fazia ideia do que diria se ela abrisse a porta.
Tensionou o maxilar, abaixou a mão e ficou ali por um instante, prisioneiro do próprio orgulho.
Tentou inventar uma desculpa qualquer, algo que a acalmasse, como tantas vezes fizera antes, mas nada veio. O poço estava seco.
Resignado, partiu.
No caminho para o estúdio, ainda disperso em pensamentos, algo chamou sua atenção: uma vitrine repleta de arranjos coloridos.
Uma floricultura.
Flores — era isso. Nunca havia dado flores a Helena antes.
Aquele gesto com certeza a amoleceria.
Poderia pedir para a secretária cuidar daquilo, mas decidiu fazer aquilo ele mesmo.
Estacionou, ajeitou o paletó e entrou, agora um pouco mais confiante.
Não percebeu, porém, a figura que o observava do outro lado da rua — Silvia, com um olhar calculista, cheio de rancor e curiosidade.
Lá dentro, uma jovem de rosto salpicado de sardas o recebeu com um sorriso gentil.
— Em que posso ajudar, senhor?
— Preciso de um buquê.
— Certo… e o senhor tem algo em mente?
Cássio olhou ao redor, desconcertado diante da profusão de cores e perfumes. As flores pareciam competir entre si pela atenção.
A atendente percebeu a hesitação e tentou guiá-lo:
— É para alguma ocasião especial?
Ele arqueou uma sobrancelha, intrigado.
— Como assim?
— Bem, flores falam — explicou ela, com doçura. — Rosas vermelhas são paixão. As amarelas, amizade e alegria. Lírios trazem pureza, orquídeas elegância… e girassóis, vitalidade. Cada uma diz o que o coração, às vezes, não consegue.
Cássio hesitou, depois coçou o queixo.
— E o que se dá quando… — fez uma pausa breve, constrangido — quando se quer pedir desculpas?
Ela sorriu, divertida.
— Ah, entendi. Acho que sei exatamente o que o senhor procura.
A jovem afastou-se por um momento e voltou segurando um grande buquê de jacintos azuis, delicados e intensos.
— Estes são perfeitos. Representam um pedido de perdão sincero e o desejo de fazer as pazes. É como dizer “o que aconteceu foi um erro, mas o que sentimos ainda é verdadeiro”. É isso que o senhor tinha em mente?


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