“Quando alguém cruza um limite, o mundo deixa de ser inocente.”
O celular de Cássio vibrou no silêncio pesado da sala.
Riviera: “Já estou aqui fora.”
Cássio: “Me espere aí!”
Quando finalmente retornou ao salão, Helena já não estava mais ali. Ainda assim, a presença dela parecia persistir no ar — e os olhares inquisidores que agora recaíam sobre ele pareciam atravessar sua pele.
Precisava manter a postura. Se vacilasse, tudo desmoronaria.
Caminhou de cabeça erguida entre os convidados até Renato.
— Cara… o que foi que aconteceu? — o amigo perguntou, em um murmúrio tenso.
Antes que Cássio respondesse, Silvia se apressou em segurar seu braço, a expressão cuidadosamente ensaiada de preocupação.
— Vimos a Viviane ser praticamente arrastada pelos policiais. O que ela fez para merecer isso? — perguntou, os olhos sobressaltados no ponto exato.
Cássio percorreu o salão com o olhar uma última vez, medindo o ambiente carregado de curiosidade e julgamento. Um evento que tinha tudo para ser promissor, havia se transformado em um verdadeiro tribunal.
— Vamos embora — disse, firme. — Não podemos ter essa conversa aqui.
Saíram sem se despedir de ninguém — ainda que discrição, naquele momento, não fosse uma opção.
Do lado de fora, encontraram Riviera aguardando na calçada, o semblante sério.
— Sr. Amaral, vim o mais rápido que pude — disse o advogado. — No caminho, vi várias notícias dizendo que sua irmã foi presa. O que—
— Vamos para a delegacia — interrompeu Cássio, seco. — No caminho eu explico.
Virou-se então para Silvia.
— Vá com o Renato e a Tânia.
Não esperou qualquer resposta. Entrou no carro, fechando a porta com força.
Ao chegarem à delegacia, Cássio e Riviera foram conduzidos até a sala onde Viviane aguardava.
— Cássio… — ela disse assim que o viu, a voz trêmula, os olhos vermelhos. — Eu sabia que você não me deixaria aqui. Você veio me tirar daqui, não veio? Eu não posso ser presa, irmão. Isso vai acabar com a minha vida.
Não restava nada da influencer arrogante que desfilara pelo salão horas antes. Ali havia apenas alguém acuada, despida de pose e soberba.
Cássio respirou fundo, contendo o turbilhão que lhe subia ao peito.
— Riviera já está a par por alto — disse, sério, sem se aproximar. — Ele vai conversar com você e ver o que pode ser feito.
Virou-se para o advogado.
— Nos deixe a sós primeiro.
Assim que a porta se fechou, o silêncio se impôs. Cássio voltou o olhar para a irmã, não havia afeto em sua voz.
— Agora — disse, a voz baixa e dura — você vai me dizer que merda estava passando pela sua cabeça pra fazer uma idiotice dessas.
Viviane engoliu em seco. As mãos tremiam no colo, o corpo inteiro encolhido naquela cadeira dura, como se quisesse desaparecer.
— Eu… — começou, mas a voz falhou. — Eu só… queria provar que ela não é tudo isso.
Cássio fechou os olhos por um instante, passando a mão pelo rosto. Quando voltou a encará-la, havia exaustão — não raiva explosiva, mas algo pior: decepção crua.
— Provar pra quem? — perguntou. — Pra mim? Pra você mesma? Ou pra Helena?
O nome saiu como uma lâmina. Viviane apertou os lábios.
— Desde que vocês se divorciaram, tudo gira em torno dela — disparou, a voz ganhando volume, misturada ao choro. — Você agora parece vidrado nela. Todo mundo só fala dela. E agora até esse homem… esse Santiago… como se ela fosse o centro do universo.
— E isso te dá o direito de drogar alguém? — Cássio cortou, finalmente elevando o tom. — De arrastar um homem quase inconsciente pra um quarto?
— Eu não o droguei! — ela rebateu rápido demais. — Eu juro! Pensei que ele estivesse apenas bêbado. Eu só… aproveitei a oportunidade.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Essa frase sozinha já te coloca no fundo do poço, Viviane — ele disse, baixo. — Você tem noção do que isso significa?
Ela desviou o olhar, incapaz de sustentar o dele.
— Eu achei que… se ele ficasse comigo … — soluçou. — Ela cairia. Quebraria. Eu poderia ficar com ele e todo mundo finalmente veria que ela não é essa santa.
— Você não destruiu a Helena. Você se destruiu — disse, a voz fria, cortante. — Já parou para pensar no que isso pode fazer com a imagem da empresa? Com a minha? Logo agora que eu começava a colocar tudo de volta nos trilhos… você resolve implodir tudo?
Ele esmurrou a mesa com força. O impacto ecoou pela sala e fez Viviane erguer o rosto num sobressalto.
— Eu nunca quis isso — ela disse, a voz trêmula. — Você precisa acreditar em mim. — Os olhos vibravam, desesperados, à procura de qualquer coisa que a absolvesse. — As coisas só saíram do controle. Como eu poderia imaginar que aquela idiota ia aparecer do nada?
— Chega! — Cássio interrompeu, pressionando os dedos contra a ponte entre as sobrancelhas, como se tentasse conter a própria mente.
Ela hesitou por um instante antes de perguntar, quase inaudível:
— Você vai me abandonar? Vai deixar que me tratem como uma criminosa qualquer?
— Não — respondeu após alguns segundos.
O alívio surgiu no rosto dela — breve, frágil, quase infantil.
— Mas também não vou mentir por você — completou, sem suavizar o tom. — Nem comprar versões. Nem atacar ninguém para te salvar. O que você fez é grave. Agora existe polícia, exame toxicológico, testemunhas. Isso saiu completamente das minhas mãos.
As lágrimas voltaram com força.
— Então… o que vai acontecer comigo?
Cássio começou a caminhar pela sala, devagar, como quem pesa cada passo.
— Eu ainda não sei.
Parou diante da porta, a mão pousada na maçaneta. Falou sem se virar:
Marcelo arqueou levemente a sobrancelha.
— No que você está pensando?
Antes que ela pudesse responder, Santiago se mexeu na cama. Um movimento pequeno, mas suficiente para fazê-la esquecer qualquer outra coisa. Helena apertou a mão dele entre as suas, inclinando-se de imediato.
— Amor? — chamou, a voz carregada de esperança e medo ao mesmo tempo.
As pálpebras dele tremeram, como se lutassem contra um peso invisível, até que os olhos se abriram aos poucos, ainda enevoados.
— Helena… — murmurou, a voz rouca, quase um sopro.
O ar pareceu voltar aos pulmões dela de uma vez só.
— Estou aqui — respondeu, incapaz de conter as lágrimas. Aproximou-se mais, como se a distância entre eles ainda fosse grande demais. — Estou aqui.
Santiago esboçou um sorriso fraco, daqueles que nascem mais do afeto do que da força. Ergueu a mão com esforço e, com o polegar, enxugou a lágrima que escorria pelo rosto dela.
— Mulher boba… — brincou, apesar da fadiga. — Por que está chorando?
Helena franziu a testa, misto de alívio e indignação.
— Como assim “por quê”? — reclamou, a voz embargada. — Olha o que fizeram com você.
Ele apertou a mão dela com delicadeza, firme o suficiente para ancorá-la.
— Ei… — disse baixo. — Eu vou ficar bem. Prometo.
Ela fechou os olhos por um instante, encostando a testa na dele, respirando o mesmo ar, como se precisasse daquela confirmação não apenas em palavras, mas no calor da presença dele.
— Você nos deu um belo susto — disse Marcelo, pousando a mão com cuidado no ombro do amigo.
— Humpf… — Santiago resmungou, ainda visivelmente irritado, apesar da fraqueza. — Onde está aquela mulher?
— Foi levada pela polícia — respondeu Marcelo com calma. — Pedro foi prestar depoimento.
Santiago tentou se erguer de imediato, movido mais pela raiva do que pela lucidez. O gesto brusco, porém, lhe arrancou um gemido involuntário; a tontura veio como uma onda, obrigando-o a levar a mão à cabeça. Helena foi rápida, apoiando-o e forçando-o a recostar de novo no travesseiro.
— Ei. O que você pensa que está fazendo? — repreendeu, firme, mas com os olhos cheios de cuidado.
— Precisamos ir para lá — insistiu ele, a mandíbula tensa. — Isso com certeza é coisa daquele idiota. Não conseguiu te atingir de um jeito e agora resolveu usar aquela irmã inútil pra chegar até você.
— Você precisa melhorar primeiro — interveio Marcelo.
Santiago respirou fundo, frustrado, fechando os olhos por um instante como quem tenta domar o próprio ímpeto.
Helena segurou o rosto dele entre as mãos, obrigando-o a encará-la.
— Sua saúde vem em primeiro lugar — disse, num tom que não admitia discussão. — Eu prometo a você… ela vai pagar pelo que fez. Todos vão.
Havia algo diferente em sua voz. Não era desespero. Não era histeria. Era uma promessa fria, precisa, carregada de uma determinação nova — aquela que nasce quando alguém cruza um limite irreversível.

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