“O tempo sempre mostra quem é quem.”
Renato e Tânia ouviam em silêncio pesado, o espanto estampado nos rostos à medida que Cássio relatava os acontecimentos. Silvia, sentada ao lado dele, esforçava-se para reproduzir a mesma perplexidade — o olhar arregalado, o corpo ligeiramente inclinado para frente, como se tudo aquilo também a tivesse pego de surpresa.
— Mas isso não faz sentido — Renato foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Onde a Viviane arrumaria uma droga dessas?
O olhar de Tânia pousou em Silvia com atenção cirúrgica, como quem revê mentalmente cenas anteriores até que, de repente, tudo se encaixa. Um clique silencioso.
— Essa é a única parte da qual ela insiste em não ter culpa — disse Cássio, passando a mão pelo rosto, exausto. — Pelo desespero… eu realmente acredito que ela esteja falando a verdade nesse ponto.
— A minha cunhada tem uma queda pelo Santiago já há algum tempo — comentou Silvia, em tom aparentemente ponderado. — Mas… não consigo acreditar que ela faria algo assim. Além do mais, ela é tão linda… — fez um gesto vago com a mão — muito mais do que aquela mulher. Talvez ele tenha cedido e, quando foi pego, inventou essa história pra se livrar da culpa. Ou quem sabe… — inclinou levemente a cabeça — isso não seja uma armação dele e de Helena pra incriminá-la? Depois de tudo que aquela mulher já fez pra te atingir, não seria tão improvável.
O ar pareceu rarefazer.
— Do que você está falando? — Cássio a cortou, seco. — As gravações mostram claramente a Viviane o arrastando para o quarto, com ele completamente vulnerável.
Silvia sentiu o estômago retesar. Apertou com força o tecido da saia, controlando o reflexo de engolir em seco. Fizera o que podia. Conseguira fazer com que apagassem apenas as últimas imagens do salão — o suficiente para proteger a si mesma. O preço fora alto, mas eficaz. Contra ela, não havia provas. Quanto à Viviane… lamentável. Apenas azar.
Como poderia imaginar que Helena agiria tão rápido? Que iria atrás dele sem hesitar?
— Isso vai ser um novo baque pra empresa — murmurou Renato, a testa franzida.
— Essa é a pior parte — concordou Cássio. — Mas, até agora, a notícia que está circulando é só a de que Viviane foi detida. O motivo ainda não veio a público. Então… ainda temos margem pra controlar a narrativa.
Fez uma pausa, o olhar perdido em algum ponto invisível à frente.
— Mas se essa história de drogas vazar… — não concluiu a frase.
Não precisava. O peso da ameaça ficou suspenso no ar, denso demais para ser ignorado.
Tânia cruzou os braços, mantendo os olhos fixos em Silvia por mais alguns segundos do que o necessário.
Riviera finalmente saiu da sala.
— E aí? O que acontece agora? — Cássio perguntou, sem conseguir disfarçar o cansaço que lhe pesava nos ombros.
— Ela será encaminhada para um CDP — informou Riviera, ajeitando a gravata com um gesto constrangido. — Um Centro de Detenção Provisória.
— Ela vai ser presa? — Tânia questionou, a voz baixa, como se temesse que a palavra ganhasse vida ao ser dita.
— Ainda não — esclareceu ele. — Ficará detida até a audiência de custódia com o juiz, que deve acontecer dentro de vinte e quatro horas. Só então será decidido se responderá em liberdade ou não.
Silvia sentiu o chão vacilar sob os pés. Por um segundo curto demais, viu-se no lugar de Viviane: algemada, exposta, julgada. Um arrepio subiu-lhe pela espinha, gelado, quase paralisante. Mas o medo ganhou contornos ainda mais nítidos quando outro nome lhe atravessou a mente como uma lâmina: Dante.
Naquela altura ele já sabia do novo escândalo da família Amaral envolvendo a polícia. Se descobrisse da droga, provavelmente ligaria tudo a ela.
E então, nada — nem dinheiro, nem influência, nem versões bem contadas — a protegeria da fúria daquele homem. A polícia era um risco distante; Dante, não. A constatação fez seu estômago revirar.
“Como eu pude ser tão burra?”
Pensou, mordendo a parte interna da bochecha para não deixar transparecer o pânico. Apagara rastros, comprara silêncios, acreditara-se segura. Mas havia perigos que não se apagam quando alguém a conhecia demais.
Cássio, por sua vez, permanecia imóvel, os olhos fixos em um ponto aleatório da parede. A conversa seguia ao redor dele, mas parecia distante, abafada, como se estivesse submerso. Pela primeira vez, a vontade não era vencer, nem provar nada a ninguém. Era sumir.
Largar a empresa. Esquecer a dívida de noventa milhões. Abandonar aquele casamento que mais parecia um contrato de sobrevivência. Deixar para trás uma família feita de aparências, que cobrava caro demais e devolvia quase nada.
Ir para um lugar longe o suficiente onde não fosse Cássio Amaral. Onde pudesse ser apenas alguém comum. Invisível. Livre.
O reconhecimento que sempre perseguiu — o nome, o prestígio, a admiração — agora se tornara seu pior pesadelo. Um holofote cruel, do qual já não sabia mais como escapar.
Renato bateu de leve nas costas de Cássio, trazendo-o de volta ao presente.
— Vamos embora agora. Mas, se precisar de qualquer coisa, me liga.
— Vai lá. E obrigado por hoje — respondeu Cássio, sincero, ainda que a voz saísse mais cansada do que gostaria.
Tânia limitou-se a um aceno contido. Antes de se virar para acompanhar o marido, lançou a Silvia um olhar longo demais para ser casual — frio, avaliador, impossível de decifrar.
Silvia sentiu o estômago retesar.
“O que foi isso?”
A pergunta ecoou, incômoda. Não era a primeira vez naquela noite que percebia Tânia observá-la de forma estranha. Mas até então tentara se convencer de que era paranoia, fruto do nervosismo. Aquele último olhar, porém, tinha peso. Intenção.
“Será que ela sabe de alguma coisa?”

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