Entrar Via

Quadros de um divórcio romance Capítulo 183

“Talvez o silêncio seja a forma mais ineficaz de se proteger.”

Lívia chegou cedo ao hospital. Helena havia ligado para a amiga ainda de madrugada, a voz embargada, contando tudo o que acontecera. O período de observação de Santiago também havia chegado ao fim e, embora ainda sentisse uma dor de cabeça insistente — um eco desagradável da noite anterior —, ele já parecia bem melhor.

Pedro levou todos até a delegacia. O clima no carro era silencioso, carregado de cansaço e expectativa.

Santiago, na condição de vítima, foi o primeiro a prestar depoimento, acompanhado da advogada. Relatou com calma que havia bebido apenas duas taças de vinho. Explicou que, logo após a segunda, algo começou a fugir do normal: a tontura súbita, o calor quase sufocante, a sensação de que o corpo não respondia mais no mesmo ritmo da mente. Contou que tentou ir ao banheiro buscando se recompor, mas que, a partir dali, as lembranças se fragmentavam. Flashs desconexos. Vozes, luzes, movimentos sem continuidade. Depois, o vazio.

Santiago acrescentou ainda um detalhe que mudou o peso de tudo. Contou que aquela não havia sido a primeira tentativa de aproximação de Viviane. Meses antes, no evento do Studio Cassiane, ela já o havia abordado. Disse que fora direto ao dispensá-la, deixando claro que não tinha qualquer interesse.

O registro foi feito com atenção. A informação reforçava um padrão, desmontava qualquer narrativa de “consentimento” ou mal-entendido. Não se tratava de um impulso isolado, mas de uma insistência que, naquela noite, escalara para algo grave.

Em seguida, foi a vez de Helena.

Ela descreveu o momento exato em que a ausência prolongada de Santiago no salão acendeu um alerta incômodo. Falou sobre a inquietação crescente, a troca de olhares com Pedro, a decisão de usar a localização do celular. Relatou o caminho até os andares superiores, a sensação opressiva ao se aproximar do quarto e, por fim, a cena que encontrou ao abrir a porta: Santiago quase inconsciente, vulnerável, com Viviane sobre ele.

Sua narrativa foi firme, precisa. Cada detalhe se encaixava perfeitamente com o depoimento que Pedro havia prestado na noite anterior. Não havia contradições. Apenas a dura confirmação de um abuso interrompido a tempo — e de uma linha que jamais deveria ter sido cruzada.

...

Foram dispensados logo depois e, ao cruzarem a porta de casa, Santiago finalmente respirou aliviado.

— Vá descansar — Helena disse, empurrando-o com delicadeza na direção do quarto.

— Você não vem? — ele perguntou, a voz ainda cansada. — Ficou acordada a noite inteira.

Ela sorriu, suave, quase maternal.

— Vou tomar um banho primeiro.

Ele assentiu, livrou-se das roupas com movimentos lentos e se deitou apenas de cueca, o corpo finalmente rendido ao cansaço. Em poucos minutos, o sono veio pesado.

No banheiro, Helena deixou a água escorrer sobre os ombros, quente o suficiente para relaxar os músculos, fria o bastante para manter a mente desperta. Fechou os olhos. Cada gota parecia ajudar a organizar pensamentos que haviam se embaralhado desde a noite anterior. Não era confusão. Era decisão.

Quando saiu, envolta apenas na toalha, parou na porta do quarto o observando dormir. Ali estava o homem que escolhera — seu noivo, o pai da criança que crescia silenciosa em seu ventre. O homem que a protegera sem alarde, sem barganhas, sem exigir nada em troca. Que lhe mostrara, depois de tantos escombros, que o amor podia ser simples, bonito, seguro.

Amara-o rápido. Profundamente. Como se aquele sentimento não tivesse nascido ali, mas apenas despertado.

A simples ideia de perdê-lo abria um vazio físico em seu peito.

E pensar que pessoas do seu passado — insistentes, mesquinhas, rancorosas — ousavam usá-lo como instrumento para feri-la… aquilo fermentava algo novo dentro dela. Algo perigoso. Não era ódio. Era lucidez.

O passado já havia avançado demais sobre sua vida e era hora de colocá-lo no seu lugar.

Helena vestiu um vestido branco, leve, de algodão. Calçou as chinelas, pegou o celular e seguiu para o quintal. Sentou-se em uma cadeira de vime, à sombra, em um ponto onde não pudesse ser vista do sobrado, com a área verde do espaço aberto de fundo. O cabelo ainda úmido, o rosto limpo sem maquiagem, sem armaduras.

Por anos, não tivera voz. E mesmo que tivesse, não havia quem quisesse ouvir.

Agora, era diferente.

Tentara ser discreta por tempo demais. Acreditara, ingenuamente, que o silêncio a protegeria. Mas aprendera da forma mais dura que a discrição não a blindava — apenas servia de abrigo para quem insistia em feri-la. Cada palavra não dita, cada verdade engolida, tornara-se ferramenta nas mãos erradas.

Custou. Custou noites sem dormir, culpas que não eram suas, perdas que jamais deveriam ter existido.

Mas, enfim, ela entendeu. Com gente suja, não se vence jogando limpo. Há momentos em que a única saída não é recuar, nem se esconder — é acender a luz.

E se o ventilador estivesse ligado, que girasse. Que espalhasse tudo. Que o fedor finalmente revelasse de onde vinha.

Apoiou o celular na beirada da janela, respirou fundo e abriu suas redes sociais. Tocou em “Iniciar transmissão ao vivo” e a câmera acendeu.

Os números começaram a subir quase instantaneamente. Mil, dez mil, vinte mil... rostos desconhecidos surgiam em pequenos círculos. Comentários pipocavam, curiosos, ansiosos.

Por um segundo, ela apenas olhou para a própria imagem refletida na tela — serena, firme, consciente do peso daquele gesto.

Então, ergueu o olhar diretamente para a lente e respirou fundo antes de começar a falar. Não havia roteiro. Apenas verdade.

...

— Para quem ainda não me conhece, meu nome é Helena Duarte — começou, a voz baixa, controlada, mas carregada de peso. — Eu nunca imaginei que um dia faria algo assim. Sempre acreditei que certas coisas deveriam permanecer no privado. Que expor dores era fraqueza. Que mulheres fortes… aguentam caladas.

Fez uma pausa breve, mordendo o lábio inferior, como quem organiza décadas em poucos segundos.

— Eu vivi por anos em um casamento que me apagava constantemente. — Seus olhos permaneceram fixos na câmera. — Um casamento onde eu era diminuída, desacreditada, silenciada. Onde minhas ideias eram tratadas como exagero, minha sensibilidade como defeito, e meu talento como algo que só existia quando servia para engrandecer outra pessoa.

Engoliu em seco.

— Não foi um dia. Não foi um surto. Foi um processo lento. Um esvaziamento contínuo. Eu fui aprendendo a ocupar menos espaço. A falar mais baixo. A pedir desculpa por tudo.

Respirou fundo.

— E então veio a traição. — A voz falhou por um instante, mas ela seguiu. — Mensagens com promessas que um dia haviam sido feitas para mim. Desculpas para chegar tarde. Para não voltar para casa. “É só uma colega do trabalho”, ele dizia. “Você está vendo coisas onde não existe nada.”

Balançou a cabeça, decepcionada consigo mesma.

— A humilhação por parte da família dele e dos amigos dele já era algo normalizado. Mas, de repente, ela também se sentia no direito de me humilhar — e o mais cruel: na frente dele, sem que ele movesse um dedo para me defender.

Helena afastou o cabelo, expondo a cicatriz na cabeça.

— Isso aqui — disse, apontando — foi o resultado de um tapa que ele me deu para defender ela. Eu caí e bati a cabeça, sete pontos.

O nosso preço é apenas 1/4 do de outros fornecedores

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio