“Quando falar a verdade for uma das opções, escolha-a.”
Helena salvou a live em seu perfil. Respirou fundo, ainda com o olhar preso à tela do celular.
Havia se exposto, sim. Mas, junto com isso, expusera também todos os fantasmas do seu passado — e colocara um holofote sobre qualquer um que ousasse atravessar novamente o caminho dela ou daqueles que amava.
Talvez, pensou, aquilo até ajudasse a trazer à tona o tal Márcio. Pessoas desaparecidas não costumam permanecer invisíveis quando a luz incide forte demais sobre elas.
Mabe latiu baixinho, quase um resmungo, sentada à sua frente. Helena segurou o rosto da pastora com as duas mãos e encostou a testa na dela.
— Eu vou protegê-lo melhor. Prometo.
A cadela pareceu entender. Abanou o rabo uma única vez, solene, como um pacto silencioso.
Helena voltou para o quarto. A noite sem dormir finalmente cobrava seu preço, pesada nos ombros, nos músculos, na alma. Deitou-se com cuidado ao lado de Santiago e o envolveu por trás, como se o próprio corpo pudesse ser um escudo.
O calor dele ainda estava ali. O cheiro familiar. O ritmo conhecido da respiração.
Foi assim, agarrada ao que importava, que o cansaço a venceu — não como rendição, mas como trégua.
...
Do lado de fora, o mundo já começava a mudar.
A live não terminou de forma silenciosa. Terminou em explosão.
Lívia aguardava no fórum por notícias da audiência de custódia. Era manhã de domingo e o prédio, normalmente ruidoso, parecia suspenso num silêncio pouco habitual. As portas não estavam abertas ao público — funcionavam apenas para casos urgentes, daqueles em que a decisão de um juiz não podia esperar as próximas vinte e quatro horas.
Os corredores vazios amplificavam cada passo, cada pigarro distante, cada porta que se abria e fechava com parcimônia. Tudo ali parecia mais lento, mais denso. O tempo não corria: pesava.
Sentiu o celular começar a vibrar sem parar dentro da bolsa. Não era uma vibração comum — era quase nervosa, contínua, insistente demais.
Helena sempre mantinha as notificações das redes silenciadas no próprio aparelho. Mas Lívia, desde que assumira informalmente o papel de social media da amiga, acompanhava tudo que conseguia.
Tirou o celular da bolsa com a testa franzida, sentindo-o vibrar sobre a palma de sua mão.
— Só pode ter dado defeito… — murmurou para si.
A tela acendeu e uma avalanche de notificações ocupou cada centímetro do visor. O coração de Lívia deu um salto. Ela olhou a tela com descrença.
— O que está acontecendo…?
Clicou em uma das notificações ao acaso. A tela abriu direto no vídeo.
Helena. No quintal. Cabelo ainda úmido. Rosto limpo.
A amiga havia feito uma live.
Os olhos de Lívia correram pela barra de visualizações e ela precisou levar a mão à boca para conter o som que quase escapou. Já havia alcançado centenas de milhares de pessoas. E continuava subindo. Os comentários pipocavam em ritmo frenético, como se cada segundo acrescentasse uma nova camada àquele impacto.
Sentou-se em uma das cadeiras da longarina na sala de espera e apertou o play.
A voz de Helena ecoou firme pelo pequeno alto-falante do celular em um desabafo limpo, doloroso, lúcido. Lívia segurou o aparelho com força, o polegar trêmulo, sentindo um orgulho quase físico se espalhar pelo peito.
Quando o vídeo terminou, seus olhos estavam marejados.
Mas algo curioso aconteceu: mesmo com a reprodução encerrada, Lívia ainda ouvia a voz da amiga. Como se a voz da amiga tivesse ultrapassado o limite da tela e permanecido ali, vibrando no ar. Levantou o olhar instintivamente e percebeu que não era a única.
As poucas mulheres presentes na sala de espera também assistiam. Expressões atentas. Olhos úmidos. A história não era mais só de Helena.
Lívia respirou fundo.
Ela sabia o quanto Helena sempre fora altruísta. Sempre suportara tudo em silêncio, mas quando se tratava das pessoas que amava, ela nunca fora moderada.
O próprio Cássio era prova disso. Anos de dedicação oferecidos sem alarde, sem cobrança.
Mas algo havia mudado. Helena agora tinha voz e finalmente aprendera a usá-la.
Lívia enxugou uma lágrima que escapou e endireitou os ombros. Aquele vídeo não era apenas um relato. Era um divisor de águas.
Voltou o olhar para o aparelho. Deslizou o dedo pela tela, rolando os comentários. Mulheres marcavam outras mulheres.
Rolou o feed encontrando trechos legendados.
Prints da cicatriz.
Prints da foto de Márcio Ferraz.
— Meu Deus… — sussurrou.
Olhou para as hashtags surgindo nas legendas.
#HelenaDuarte
#OSilêncioProtegeOAgressor
Abriu o as mensagens diretas. Havia mensagens de jornalistas, produtores, assessores, perfis grandes pedindo autorização para republicar o vídeo. Alguns nem pediam — apenas avisavam que já haviam publicado.
Um portal de notícias enviara um link.
“Designer brasileira denuncia perseguição, violência psicológica e tentativa de atentado após divórcio.”
Lívia endireitou a postura na cadeira dura do fórum, como se o próprio corpo respondesse ao que acabara de compreender.
A amiga havia acendido uma luz.
Aquela live não era só um desabafo. Era um marco. Um divisor silencioso entre o antes — feito de medo, silêncios e acordos — e o depois, que ainda era incerto, mas já não estava mais nas mãos de quem sempre controlou a narrativa.

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